Filme: Yomeddine – Em Busca de um Lar

  • Suzana Vidigal

Cinema para sair da zona de conforto, esse longa nos ajuda a refletir sobre relações mais verdadeiras e a ajustar o termômetro da nossa empatia

Nem sempre o simples é o mais bonito. Nem o mais fácil – embora isso tudo perca a importância depois que exercitamos o olhar pra sair da zona de conforto. Aliás, por falar nela – ela que tanto nos cega, como uma venda poderosa e traiçoeira – vale lembrar que cinema e zona de conforto caminham juntos: nas camadas mais profundas, os filmes nos apresentam comportamentos novos, culturas diversas e hábitos desconhecidos. Temos a chance de olhar para o que não conhecemos – e que muitas vezes rejeitamos –, e trabalhar a aceitação. A vida fica mais leve. Se nos deixarmos envolver, filmes de lugares remotos e realidades inimagináveis são capazes de nos levar pra outro espaço. Mesmo causando incômodo visual, estético ou narrativo, o cinema que provoca reflexão é um precioso presente nesses tempos tão pesados, cheio de regras e rótulos.

Escolhi Yomeddine: Em Busca de um Lar, do egípcio A.B.Shawky, pra inaugurar minha coluna sobre cinema na Vida Simples exatamente por isso. Indicado à Palma de Ouro em Cannes, ao Oscar de filme estrangeiro e premiado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018, o filme é o primeiro longa do diretor, se passa em um ambiente árido e miserável, e conta com atores inexperientes, que estão absolutamente na contramão do que se espera de um protagonista atraente. Beshay, um catador de lixo leproso, que foi abandonado pela família quando criança, embarca em uma aventura com Obama, um menino órfão que adora cabular aula para ficar com o amigo. É justamente a relação entre duas pessoas excluídas que desperta a nossa empatia – a leveza do relacionamento, mesmo dentro da adversidade extrema, leva naturalmente nosso olhar para a força do simples gesto de amizade – e o quanto ele é capaz de mover montanhas.

E Beshay e Obama se movimentam mesmo. No que pode ser considerado um road movie – filme em que os personagens partem em uma viagem que os transforma definitivamente no final –, Beshay perde a esposa e resolve seguir até o sul do Egito à procura da família biológica que o abandonou. Algumas escolhas do diretor romantizam bastante a vida dos que vivem à margem da sociedade, dos deficientes, daqueles que não se encaixam nos padrões, portanto não se preocupe em avaliar a verossimilhança da narrativa. Só embarque na viagem e veja no que vai dar.

Yomeddine funciona bem como uma fábula. A ideia de criar uma oposição entre pessoas visualmente diferentes, que geram estranheza, e atitudes positivas, com que nos identificamos, ajuda a pensar sobre o quanto nos prendemos ao preconceito e ao material, impedindo-nos de enxergar comportamentos espontâneos e genuínos.

Embora nem sempre seja o caminho mais fácil, abrir a porta de saída da zona de conforto pode levar a relações mais verdadeiras, ajudar na quebra de padrões de comportamento e ajustar o termômetro da tolerância e da empatia. E com o cinema como ferramenta, isso fica ainda mais especial.


Trailer
: clique aqui pra assistir
Onde ver: iTunes, GooglePlay, Now, YouTube, Vivo Play

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir.


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