Somos pedaços que precisamos juntar

  • Clô Azevedo
  • FOTOGRAFIA: Ondrooo | iStock

Um lar abriga os gostos e peculiaridades de cada um dos moradores de uma família. E isso é agregador e lindo


Alguns amigos mais próximos gostam muito de conversar comigo sobre o que eu faço. Dias atrás, uma amiga trouxe uma reflexão enquanto conversávamos sobre seus desejos em relação ao lugar em que ela vive.

“Como consigo fazer para minha casa se parecer comigo sendo que vivo em família?”, ela me perguntou.

Para ser sincera, eu nunca tinha pensado no assunto desta maneira até ela me fazer refletir sobre isso.  E para ser ainda mais sincera, reparei que este mesmo questionamento sempre me acompanhou, e confesso que ainda não tinha realizado o sentimento e colocado para fora, pois também vivo em família e, assim como ela, em muitos momentos, sinto que também perco a identidade com alguns ambientes que são comuns a todos no espaço em que vivo.

Entretanto, na maioria das vezes, não moramos sozinhos, e uma família é carregada de histórias próprias de cada um, que também trazem histórias próprias de seus ancestrais.

O quarto dos nossos filhos pode ter a cara deles, pode até ter sido arrumado ou decorado por nós mesmos, assim como outros ambientes específicos da casa, mas juntar as coisas de todo mundo nas áreas em comum, diferencia cada um?

Quando moramos com mais pessoas e, claro, todos são diferentes, temos que ser democráticos. Porque a casa é de todo mundo e todo mundo tem um pouco de si lá dentro.

Portanto, quando as coisas não combinam, não dá para simplesmente tirar o que você não gosta mais e não te pertence, ou não vê mais sentido em manter, e descartar.

Entendo que tem coisas que o próprio dono ama, e que, às vezes, infelizmente, podem não combinar com as suas, mas precisamos ter em mente que a diversidade acrescenta, e acharmos uma maneira de dividir o espaço sem autoritarismo, trabalham em conjunto e em prol de um ambiente saudável e comum aos moradores. 

A casa é de todos e para todos, portanto a solução tem que ser coletiva para os problemas coletivos que temos em relação a isso. 

Ela sempre será um exercício de memórias que traduz cada história que passamos juntos, cada momento que nos conhecemos mais, cada troca, cada olhar, cada acesso de raiva, cada alegria, cada problema que atravessamos. 

Como um lego, uma construção que fazemos a cada dia que nos relacionamos lá dentro. Cada um traz seu bloquinho e acrescenta na construção. 

E o mais legal de tudo isso é que a gente não sabe onde vai dar, ela é viva e moldável a cada minuto. É pura bagagem, sentimento e experiência diária de cada um misturado. 

Não importa se os móveis e objetos não combinam esteticamente entre si. O que importa é olharmos para eles e entendermos que, mesclados, exercem o poder de contar a história de quem vive junto lá dentro. 

Precisamos deixar ser o que já é.

Momentos de família eternizados e transformados em imagens bem ali na nossa frente, que carregaremos conosco pelo resto da vida onde quer que estivermos. 

O mundo precisa de mais pessoas se conectando entre si, reinterpretando o que já existe e adicionando novos elementos no caminho de viver juntos. 

A casa em família se reflete no conjunto, no acréscimo, na soma de mais um olhar, na alegria de estarmos juntos, mesmo nos dias mais difíceis, porque temos! 

Assim, agora eu te respondo, minha querida Denise. Sua casa pode ser assim, cada lembrança e cada momento de todos vocês, unidos em um só. 

Somos pedaços que precisamos juntar.

 

 

Clô Azevedo é arquiteta e acredita que a casa é uma extensão das vidas que a habitam. Desenvolve projetos de design de interiores afetivos para conectar pessoas com suas histórias, inspirando a reinventar seu próprio espaço, morar bem e viver melhor. Seu site é designafetivo.com.

 


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