Como aperfeiçoar a escuta para conectar com o outro?

  • Luana Fonseca
  • FOTOGRAFIA: Tim | Unsplash

A escuta que gera mais conexão entre as pessoas é presente, humilde, desprovida de controle e aberta para se emocionar.

Quando era pequena, adorava escutar as histórias que minha avó Lygia contava sobre sua vida. Em geral, histórias sobre sua infância, seu casamento e seus filhos. Hoje, tantos anos mais tarde, já não me lembro tão bem de todos os fatos que ela compartilhava.

Mas a emoção que sentia ao ouvi-la contar suas histórias, segue gravada em mim. Queria ficar ali, bem pertinho dela. Quietinha. Sem pressa e sem interrupções, para que ela pudesse continuar falando e falando.

Acontece que quando a gente cresce, se não tomarmos cuidado, podemos ir nos distanciando desse lugar inocente e generoso. Lugar de que tem interesse genuíno pelo outro. E podemos começar a querer escutar de uma maneira mais “eficiente”, que corresponda a urgência do nosso tempo.

Dessa forma, vamos atropelando a conversa e terminando as frases pelos outros. Por vezes, tirando conclusões das histórias que ouvimos, antes mesmo da própria pessoa que está falando. Vamos julgando o que está sendo dito e dando conselhos. Ou mudando o foco da atenção e falando de nós mesmos. Imagino que, em algum momento, você também já tenha vivido algo assim, não é verdade? Isso acaba nos distanciando do outro e enfraquecendo uma poderosa ponte de conexão que se cria por meio da escuta. Um dos grandes prejuízos do nosso tempo, na minha opinião.

Escuta autêntica

A escuta genuína tem o poder de criar, fortalecer e recuperar laços entre as pessoas. E pode também ser vista como um ato de humildade. Porque no momento em que estamos escutando verdadeiramente, permitimos que o outro seja o centro da nossa atenção. Ao invés de nós mesmos e nossas questões. Mas para que isso aconteça, é necessário que nos esvaziemos do desejo de controlar a conversa.

E, além disso, precisamos evitar as famosas respostas prontas. Renunciar ao controle da conversa significa se lançar num caminho desconhecido. Que vai se revelando à medida que a conversa vai evoluindo. E, portanto, não devemos estar preparando nossas respostas enquanto o outro fala. Porque isso nos tira a presença fundamental para escutar bem.

Escuta reverencial

Para escutarmos de maneira autêntica, precisamos, sobretudo, respeitar o outro. Respeitar sua história, seu ponto de vista e o que ele tem a dizer. No coaching ontológico chamamos essa qualidade de escuta de reverencial. Porque compreende o outro como um ser legítimo, que enxerga o mundo a sua própria maneira. Nesse exercício de respeitar a fala do outro, temos que estar dispostos a suspender nossos julgamentos.

É claro que essa é uma tarefa das mais difíceis, já que um dos grandes inimigos da nossa aprendizagem é viver julgando tudo, todo tempo. Mas há algo que podemos fazer! Sempre que um julgamento nos vier a mente, enquanto escutamos, devemos procurar reconhecê-lo e deixá-lo ir.

Assim, vamos voltando nossa atenção, de maneira consciente, ao que estamos nos propondo a fazer, escutar, de fato. E essa é a essência da escuta autêntica: presente, humilde, genuinamente interessada no outro e livre de julgamentos.

Para além das palavras

duas mulheres conversando

Na escuta integral precisamos estar presentes, com todos os nossos sentidos ativados.                     | Crédito: Ekaterina Bolovtsova

O ato de escutar o outro, porém, vai muito além da compreensão das palavras. E nesse sentido, mais uma vez, escutar é uma prática de presença. Presença essa que pode também ser um presente para quem escuta e para quem é escutado.

Hoje sou mãe. E a convivência com minha Eva tem me ensinado muito sobre esse exercício de escutar além das palavras. Minha pequena grande mestra, com pouco mais de 1 ano, ainda não sabe usar as palavras. Mas diz muito, mesmo assim. E o que escuto dela, afinal? Escuto a maneira como se porta, se move. Como interage com o ambiente a sua volta. Tudo isso diz muito do seu espírito aventureiro e destemido.

Escuta sem fim

Escuto seu sorriso fácil, seus tchauzinhos e beijinhos oferecidos sem economia, para praticamente tudo que cruza seu caminho. Seja gente, cachorro, árvore ou avião. Escuto sua caras e bocas que me mostram se está gostando de algo ou, definitivamente, não.

Escuto no seu choro a manha e a pressa de sair para passear. A frustração por não poder fazer algo que deseja, a dor e o cansaço. E tudo isso tem me tornado uma ouvinte melhor.

Essa mesma qualidade de escuta, podemos oferecer a todos os demais. Não apenas aqueles que ainda não sabem falar. Porque, aliás, muitos de nós falam mais com o corpo e com as emoções, do que com palavras, propriamente ditas. E tudo isso conectado  — linguagem, corpo e emoção  — revela muito acerca de cada um de nós.

Para que possamos escutar o outro de maneira integral, precisamos estar presentes na conversa, com todos os nossos sentidos ativados. Finalizo essa reflexão com a lembrança de uma conversa que tive com a cantora Vanessa Moreno. Quando perguntei a ela “como a nossa vida pode ser melhor?”, ela disse: “se abrindo para a escuta”. Lindo! E você, o que escuta de tudo isso?


LUANA FONSECA é terapeuta e autora do livro Pode Ser Melhor (Bambual Editora). Há alguns anos tem se dedicado a aperfeiçoar sua escuta para se conectar melhor com os outros.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 243, maio de 2022 COMPRAR

COMENTÁRIOS

  • Edgard F Alves

    Verdade. Excelente. Aprender escutar começa no fechar o coração sem ouvir as circunstâncias ou conveniências, se abrindo para conhecer e entender por dentro e o outro, sem ser impelido ou sempre muito atarefado sem tempo.

    Responder
    • Vida Simples

      É um exercício constante, certo Edgard?! Agradecemos pelo comentário 🙂

      Responder
  • Sílvia

    Trabalho em Ouvidoria e, num treinamento, ouvi que essa escuta se chama a ‘hora da verdade’, pois é a hora que você está ali para a outra pessoa, de verdade. Procuro sempre me despir de todos os julgamentos na hora da verdade daquela pessoa. E isso gera uma confiança enorme. E aprendo muito. Obrigada pela sempre generosa partilha, Luana. Um beijo!

    Responder
    • Vida Simples

      Que relato bacana, Silvia! Muito legal saber que você constantemente pratica esse exercício de escutar a pessoa e tentar deixar de lado os julgamentos 🙂

      Responder
    • Luana

      Ahhh querida, obrigada pela “escuta”! 😉

      Responder
  • Rosana Lara

    O que eu escuto de tudo isso é que quero ser uma “escutadora” melhor. Me encaixo na descrição inicial, de querer dar minha opinião, de não ter paciência para ouvir a informação inteira (começo a apressar o outro, pois acho que já entendi e quero responder), quero dar os meus exemplos… e, por ai vai!
    Grata pelo tema Luana, vou estar mai atenta e vou exercitar esse escuta.
    Beijos 😘

    Responder
    • Vida Simples

      É um exercício constante, né Rosana?! Mas só de você conseguir identificar o que te atrapalha para uma escuta verdadeiramente ativa já é um grande passo! Vamos juntas nessa 🙂

      Responder
    • Luana

      Feliz de saber que o tema fez sentido pra você, Rô! 😘

      Responder

  • TAMBÉM QUERO COMENTAR

     

    Campos obrigatórios*