A expectativa como inimiga da parentalidade

  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: Istock

Certa vez, tive contato com uma pesquisa de um site que trazia informações sobre crianças de zero a três anos. Uma das perguntas para os pais que acompanhavam o site era sobre a idade que a criança criaria resistência a fazer coisas proibidas. Quase 60% dos pais que responderam à pesquisa disseram que as crianças com menos de 3 anos já conseguiam resistir ao proibido. O detalhe é que esses pais provavelmente já sabiam um pouco sobre desenvolvimento infantil, por acompanharem o tal site.

Me peguei lembrando de todas as vezes que eu, adulta, me coloquei de dieta e em um dia e meio estava comendo bolo, de pé, na frente da geladeira. Das vezes que burlei o horário permitido nas salas de reunião da empresa, das vezes que eu falei: “só hoje” para algo não permitido. E ri (de desespero).

Para quem trabalha com parentalidade, as expectativas sobre o que esperar de uma criança são o arqui-inimigo, a criptonita, a grande armadilha: é a partir dessas expectativas que vamos começar a achar que a criança é um pequeno monstrinho, sempre pensando em nos manipular pra sugar todo nosso tempo ou a nossa atenção, que as crianças só não se comportam melhor porque não querem.

No mundo em que vivemos, essas expectativas são passadas de geração em geração, já começando no berço. Se a criança chora muito quando bebê, ela não será chamada de “boazinha”. Têm noção de como isso é violento? O choro do bebê é a única forma de comunicação com o mundo, com os adultos, a única maneira de pedir ajuda e de SER. O esperado é que não haja muito choro, que com dois anos elas resistam à mexer nos fios, no fogão ou nos enfeites, que regulem seus próprios emocionais (o famoso “meu filho não fará birra no supermercado”, mas pode esperar, se for uma criança típica, vai fazer sim), que com quatro amem guardar seus brinquedos, que com seis anos estejam sabendo ler e escrever e por ai vai.

Percebem a loucura? O antídoto pra esse veneno se chama conhecimento, mas antes dele, vem o interesse. Tenho muita esperança que com a grande explosão da humanização do nascimento e das práticas de saúde, venha também a continuação disso, que é a humanização das expectativas que temos sobre as crianças. E lutaremos MUITO para que isso aconteça, para o bem das relações familiares e da saúde emocional dos nossos pequenos.

Thais Basile é mãe da Lorena, palestrante e consultora em inteligência emocional e educação parental, eterna estudante. Apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha um saber para uma educação mais respeitosa no @educacaoparaapaz. Escreve nesta coluna às segundas-feiras.


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