Acolha sua tristeza

  • TEXTO Nara Siqueira
  • DATA: 17/03/2020

Reconhecer a existência desse sentimento e escutar o que ele tem a nos dizer abre espaço para uma relação mais gentil com a gente mesma e com o outro

 

Lembro-me de, quando pequena, abrir os olhos entristecida ao perceber que os raios de sol não atravessavam as frestas da janela em uma manhã de sábado e que, lá fora, muitas gotas de água tocavam o chão. O dia havia amanhecido chuvoso, o que significava que eu não poderia andar de bicicleta na rua, nem brincar de boneca no quintal. Ficar o dia todo dentro de casa não parece gostoso quando você tem 6 anos e se sente portadora de toda a energia necessária para dominar o mundo.

Sábados de infância tinham que ser ensolarados. A cada poucos minutos, corria para a porta de vidro da sala com a esperança de que o Sol estivesse, enfim, despontando no horizonte. Por vezes, ele realmente estava, o que me fazia abrir um sorriso tão grande que era capaz de beijar minhas próprias orelhas. Mas, em outros momentos, a chuva só cessava no dia seguinte. Nesses, cabisbaixa, voltava para o quarto, procurava algo para me distrair e esperava ansiosa pela próxima checagem. 

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A tristeza é esse sentimento que faz com que algo dentro da gente fique embaçado. Ou, ainda, um “véu que envolve a nossa vida e a torna cinzenta”, como dizem Cristina Núñez e Rafael Valcárcel, autores de Emocionário (Sextante), livro infantil para ser lido por crianças de 0 a 100 anos. E, apesar de soar como algo negativo, ela pode ser uma fonte riquíssima de autoconhecimento e aprendizados importantes para o processo de amadurecimento. 

Não vamos, aqui, construir um manual sobre o que é felicidade e como alcançá-la – há milhares de pessoas se debruçando sobre essas questões mundo afora. Nossa conversa é sobre os caminhos que a tristeza percorre dentro da gente e de que forma podemos olhá-la com mais gentileza. De antemão, um aviso: revisitar lugares e situações que nos deixaram (ou seguem deixando) entristecidos pode ser dolorido. Vá no seu tempo, sem tantas cobranças. Os sentimentos, por mais que carreguem uma definição comum, ressoam de maneira única em cada um de nós. São tão – e só – nossos. 

Onde nasce a tristeza?

“Só existem tristezas por existirem questões no mundo que estão muito além do nosso controle”, diz o filósofo e escritor Matheus Jacob, que lançou recentemente o livro Coragem de Existir (Buzz). O relacionamento que acabou, a morte de alguém querido, um erro cometido no trabalho, os planos frustrados são situações que nos causam tristeza, porque escancaram a verdade de que não podemos resolver tudo. 

Você pode pensar que, então, é fácil fugir desse sentimento, tantas vezes encarado como o vilão da nossa plenitude: basta se esquivar de cenários sobre os quais não temos controle. “Nessa tentativa, perderíamos qualquer contato com outros indivíduos e, consequentemente, qualquer descoberta de nós mesmos”, pontua Matheus. “Na verdade, romperíamos o espaço para qualquer experiência. Como me tornar algo sem nenhuma lembrança, sem nenhum repertório? A tristeza é uma das estações inevitáveis da vida. Sabedoria não é evitá-la. É aprender a viver em todas as estações da existência”, completa. É como a chuva, aquela da minha infância. Eu gostava tanto dos dias de sol porque sabia como era viver na ausência deles. Se eu não tivesse passado pela experiência de acordar em uma manhã chuvosa, talvez nunca entendesse que, para brincar ao ar livre, eu precisaria do céu azulado. A gente não vive sem chuva – nem sem tristeza. 

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Mas se esse é um sentimento tão indispensável assim, por que queremos fugir dele? Jorge Forbes, psicanalista, me explicou que há, neste momento, um cruzamento de várias vertentes que nos ajudam a constatar que a tristeza virou depressão – e a felicidade, obrigação. “As pessoas foram convencidas, sobretudo a partir de 1990, quando teve início a chamada década do cérebro e o aumento dos mecanismos positivistas e empíricos da medicina, de que existe remédio para tudo”, diz. E continua: “se eu acredito nessa máxima, quando percebo que estou chateado, concluo que estou doente e preciso de medicação para lidar com isso”. É claro que a patologia existe e deve ser tratada junto a uma equipe de profissionais aptos a lidar com ela, como psicólogos e psiquiatras. A grande questão é que devemos ter cuidado para não tomar qualquer emoção por doença. Isso, sim, não é nada saudável.

O reconhecimento

Antes de buscar a melhor forma de lidar com a nossa tristeza, precisamos reconhecer a existência dela. E, para isso, é necessário deixar do lado de fora o medo, a vergonha ou a culpa por senti-la, simplesmente porque estar triste é uma condição da natureza humana, como me contou Francila Novaes, educadora socioemocional, um eixo da educação que conecta a pedagogia à psicologia. “As emoções foram fundamentais no processo de sobrevivência e evolução da espécie humana”, explica. 

Para entender o porquê, podemos voltar aos homens das cavernas. O medo dos animais silvestres os fazia fugir ou se esconder, por exemplo. Raiva e alegria são outras duas emoções que os chamavam à ação: gritar, bater, festejar. Acontece que o agir demanda energia e não é possível vivermos sem recarregá-la. “Assim, a tristeza nos ajuda a poupar esforços, porque ficamos mais recolhidos. Isso é um componente de manutenção da vida importante”, afirma Francila. E o que acontece quando caminhamos para a introspecção? Encontramos com quem verdadeiramente somos em essência, com todas as nossas dores e delícias, com feridas abertas e outras já cicatrizadas – o que pode voltar a nos machucar.

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Em vez de ter que enfrentar essas questões, preferimos guardá-las novamente em caixinhas provisórias e buscar alternativas que nos anestesiem até a próxima situação que nos peça para revisitá-las. Cuidar de organizar nossos desconfortos exige tempo e, na era da superprodutividade, parece não haver espaço para isso. “A vida não para só para que você resolva seus problemas”, é a sentença que bate cartão nas conversas de elevador. Ela pode realmente não parar, mas precisamos buscar momentos de pausa para arrumar a casa. Sentimentos reprimidos podem nos levar a doenças. Matheus acrescenta: “A sabedoria conquistada por essa outra face da vida, da tensão, do desconforto, tem uma maturação mais lenta e oculta. Por isso, acabamos preferindo o prazer da contemplação, da paz, do repouso, evitando o crescimento do conflito”.

O papel da escuta

Depois de admitirmos a presença dos nossos sentimentos, é hora de encontrarmos meios para lidar com eles. Não se trata de esperar o sol voltar, mas de aprender a dançar também na chuva – ou, no meu caso, de pensar em brincadeiras tão legais quanto as que eu gostava de fazer no quintal, mas que pudessem ser brincadas dentro de casa. A boa notícia é que não precisamos fazer isso sozinhos. Francila conta que, nas escolas onde trabalha, as atividades de educação socioemocional buscam criar um espaço coletivo de escuta e pontos de apoio. O primeiro é um lugar seguro, em que os alunos se sintam protegidos para compartilhar o que sentem.

O segundo são os outros colegas, que se tornam bons ouvintes, mesmo que não saibam o que responder ao lidar com as questões alheias. Nós podemos levar essas estruturas para fora da sala de aula, trazê-las para o dia a dia. Estabeleça um espaço físico em que você se sinta confortável para tratar de suas emoções. Pode ser sua própria casa, a sala de um terapeuta, o apartamento de um amigo, a copa do trabalho. Depois, defina pessoas nas quais você confia para que sejam seus pontos de apoio. É a elas que você recorrerá quando algo não estiver indo muito bem. “Guardar para si e não transformar esse sentimento, não ressignificá-lo, não é a melhor escolha”, garante. 

Mauro Fantini é palhaço há 14 anos e, atualmente, faz parte do Narizes de Plantão, um projeto de extensão do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo, que convida os estudantes da área da saúde a levar a arte do palhaço ao ambiente hospitalar. Pergunto a ele como é se deparar com a dor, a frustração, o desânimo do outro. “Antes de qualquer coisa, a conexão com o sentimento do outro depende de escuta. Você pode dominar todas as técnicas, saber toda a teoria, mas o que faz alguém abrir um sorriso de verdade é perceber que você está atento às necessidades dele”, diz.

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E o palhaço pode ficar triste?, questiono. “Claro que pode! E isso é uma ferramenta poderosa de identificação. Quando a pessoa percebe que você não está em um dia bom, ela se reconhece. “Puxa, até ele, que faz todo mundo rir, não está feliz sempre”, responde. Compartilhar o que estamos sentindo faz parte do processo de cura. 

Se, por vezes, falamos, em outras, nosso papel é o de ouvinte. Mas, para ser efetivo, esse escutar deve estar aberto ao que o outro realmente quer nos falar, e não àquilo que gostaríamos que ele dissesse. Isso é uma forma de validação das emoções. Quando nos propomos a ouvir, deixamos de lado nossos conceitos e julgamentos para permitir que a voz do outro ecoe em nós, o que abre portas para nos colocarmos no lugar dele e entendê-lo. No dia da nossa entrevista, Mauro tinha acabado de sair do hospital e, durante as visitas, bateu na porta do quarto de uma garotinha. A mãe, assim que o atendeu, confessou: “acho que ela vai ter medo”.

O pai, que estava ao lado, perguntou à menina se queria que os tios do nariz vermelho entrassem, e ela respondeu negativamente. “Hum, entendemos! Você não nos quer aí, né?”, perguntou um dos palhaços. Mais uma vez, ela confirmou que não. Em uma situação como essa, ficaríamos frustrados – é o que acontece quando, por exemplo, pedimos conselhos a um amigo e ele diz coisas que, por serem duras, não estávamos preparados para ouvir. Mas Mauro me fez enxergar sob uma nova ótica. “Aquele foi o único momento do dia em que ela teve o poder de decisão”, conta. “Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas entram toda hora no quarto, aplicam medicações, fazem intervenções… E ela não pode dizer que não quer nada daquilo, porque faz parte do tratamento. Quando ela pôde falar não para o grupo de palhaços, se sentiu viva novamente. Cumprimos nossa missão, porque conseguimos ouvi-la.”

Outro ponto importante é procurar aproveitar esses momentos mais introspectivos para olhar para si. Sem tantas vozes externas, é possível nos escutar. É um tempo propício em busca de respostas. O que me deixa triste? E o que posso fazer para superar isso? A ausência da tristeza leva à ausência da reflexão. Quando entendemos que os questionamentos são essenciais para avaliarmos a jornada que estamos construindo e quais serão os nossos próximos passos, encaramos os sentimentos como nossos aliados. Afinal, como me disse Matheus, “todo sentimento é uma garantia de estarmos existindo”.

Para transformar

Até aqui, falamos sobre nossa exigência em torno da felicidade a todo tempo e a qualquer custo, e como podemos fazer para acolher o que parece nos distanciar dela – como a tristeza. Mas de que forma conseguimos contribuir para que essa consciência acerca do que sentimos chegue a mais pessoas, aliviando-as da culpa de ser quem são? Clara Freitas, especialista em disciplina positiva e mãe do Gabriel, 2 anos, sugere um ponto de partida: nossas crianças. “Assim como elas precisam aprender sobre o campo físico, também precisam desenvolver seu mundo interior. À medida que falarmos mais sobre emoções com os pequenos, mais eles terão repertório para entender o que acontece dentro deles e o que se passa com seus colegas.” 

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Esse processo de autoconhecimento é valioso, porque, além de colocar luz em quem somos e na maneira como reagimos àquilo que não está no nosso controle, permite que estabeleçamos melhores relações com o outro. E nós somos os únicos capazes de gerar alguma transformação no mundo. Por isso, da próxima vez que a tristeza bater na porta, não a mande embora. Peça que entre, pergunte o que quer te ensinar. Perceba nela a oportunidade de mudar algo que não vai bem. Sem que você se dê conta, ela vai abrindo espaço para que o riso encontre seu lugar novamente – igual àquele que nascia em meu rosto quando eu via o Sol voltar a brilhar. Como diz a poetisa Cecília Meireles, em Lua Adversa, temos fases como a Lua. Fases de andarmos escondidos, fases de irmos para a rua. Há beleza em todas elas. Permita-se vivê-las.

 

Nara Siqueira aprendeu a reconhecer na ausência de dias ensolarados a oportunidade de olhar para si com mais calma. Lida com a tristeza escrevendo.


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