Árvore do autismo: uma metáfora para lidar com o diagnóstico tardio
Especialistas afirmam que descoberta do transtorno na vida adulta é um momento delicado. No entanto, mostram os caminhos em busca de equilíbrio no dia a dia e qualidade nas relações

“O autista olha em detalhes uma árvore, mas não enxerga a floresta.” Essa é uma frase utilizada para explicar como alguém com TEA (Transtorno do Espectro Autista) visualiza e percebe o mundo, muitas vezes sendo alvo de preconceito. Um desenho também frequentemente utilizado em campanhas sobre o tema é a árvore do autismo. No lugar dos galhos e folhas, peças coloridas de quebra-cabeça mostram a complexidade dos diversos tipos do transtorno e suas características.
O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, no dia 2 de abril, tem como objetivo trazer a temática para debate na sociedade. Para além da importância do diagnóstico precoce nas crianças, especialistas afirmam que o outro lado da moeda é tão relevante quanto: o diagnóstico tardio.
Dificuldades de uma vida toda. Seja na escola, no acesso ao ensino superior ou na competitividade do mercado de trabalho. Esses obstáculos, que impactam as relações interpessoais, podem vir à tona somente quando a pessoa é diagnosticada. E quando esse laudo vem na vida adulta, detalhes que passaram despercebidos começam a fazer sentido.
Afinal, como lidar com a carga emocional dessa descoberta? Quantos pensamentos podem agravar ainda mais a saúde mental? Quantas sensações afloram, como de uma certa injustiça ou tempo perdido? Quantas dores a partir de um diagnóstico? Mais ajuda ou atrapalha? Antes de qualquer discussão sobre os impactos, é importante explicar o próprio transtorno.
Os níveis de TEA na árvore do autismo
O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na comunicação e interação social, além de comportamentos repetitivos e interesses restritos. De acordo com Flávio Sallem, neurologista do Hospital Japonês Santa Cruz, “o autismo é um espectro. Ou seja, pode se manifestar de formas muito diferentes de pessoa para pessoa.”
Lembram do desenho da árvore do autismo? São diferentes “galhos e folhas” e, se você observar, não são idênticos. No entanto, são todos galhos. Existem diferentes manifestações e praticamente nenhuma é igual a outra.
O TEA tem três níveis. No primeiro, “requer apoio” com dificuldades leves, mas perceptíveis em interações sociais. No segundo, é necessário um “apoio mais substancial” com desafios mais evidentes na comunicação e comportamento. Já no nível 3, é fundamental um “apoio muito substancial”, porque há comprometimento severo na linguagem, interação e flexibilidade comportamental.
De acordo com Sallem, o diagnóstico geralmente ocorre na infância no caso dos níveis 2 e 3. “Pessoas com TEA de nível 1 frequentemente só são diagnosticadas na vida adulta, porque seus sinais são mais sutis e podem ter sido mascarados por estratégias de compensação social”, afirma.
“O autismo impacta a compreensão de sutilezas sociais, a fluência nas conversas, a adaptação a mudanças de rotina e a construção de vínculos afetivos”, acrescenta.
É um pouco da metáfora com a frase da árvore: enxergar apenas uma e não a floresta. Essa forma de percepção nos detalhes das relações pessoais pode influenciar negativamente a vida de quem está dentro do espectro autista mas ainda não sabe.
E depois do diagnóstico tardio?
Na análise da psicóloga Tatiana Serra, há dois tipos de situação: uma em que a pessoa se sente aliviada por finalmente encontrar uma resposta para as suas questões; e outra em que se sente enganada porque “perdeu todo esse tempo sem saber quem era”.
“Às vezes entra o sentimento de raiva e, de certa forma, querer cobrar o que não teve ao longo dos anos, inclusive empatia e respeito. Dependendo da pessoa, pode até ser gatilho para um quadro depressivo ou ansioso. Por isso, é fundamental um acompanhamento com psicoterapia feito por psicólogo especialista em autismo e em terapia comportamental”, afirma. “Claro que também ter uma rede de apoio com amigos e familiares com compreensão é essencial”, completa.
Segundo Tatiana, é um período de aceitação. Um momento de buscar uma autocompaixão que só ela pode proporcionar para si mesma. Participar de grupos de pessoas que também estão vivenciando a mesma descoberta com o objetivo de criar um lugar de identificação e compartilhamento também pode ajudar para que o processo não seja tão solitário.
“Saber como você funciona, quem você é e o que compõe a sua história com certeza é melhor do que não saber. Quando você tem clareza de quem é, das suas capacidades e das suas limitações, é mais fácil encontrar um equilíbrio na vida e mais qualidade nas suas relações.”
É como olhar para a árvore do autismo, seja na frase ou no desenho, e enxergar as diversas possibilidades que se abrem a partir do diagnóstico tardio. Seja para refletir sobre um pequeno galho do passado ou visualizar um grande ipê no futuro.
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