“Janelas”

Minha limpeza interior abalou o interior e exterior de todos os vizinhos que me cercavam. As faxinas interiores reverberam.

 

Certa vez, minha enteada veio aqui em casa e depois do almoço, naquela preguiça gostosa de domingo, em meio às colheres de sorvete, ela perguntou como eu limpava as janelas. Ri, e respondi que fechava a cortina. Foi a piada do dia. Rimos muito e eu ri contando para outras pessoas nos dias que seguiram.

Piada esquecida, tempo passando, muito afazeres, trabalho exaustivo, sem tempo nem para pensar. Mas sempre que abria a cortina olhava a poeira da janela e de verdade aquilo não me incomodava. Eu tinha tantas outras coisas mais para fazer do que ficar limpando janela.

Às vezes, no sábado de manhã quando dava aquela organizada na casa, abria as janelas para arejar, afinal, tinham ficado fechadas a semana toda, ou abertas só um pouquinho, pois se chovesse não haveria ninguém disponível para fechá-las. 

Nessas aberturas de cortina, observava algumas vizinhas, e elas limpavam suas janelas, passavam um paninho e me parecia ser eficiente. Mas o argumento sempre vinha rapidamente “ah não tenho tempo pra isso” e me confortava.

O tempo passando e uma vez estava com o batom sendo colocado nos lábios, olhando para o espelho vi a janela aberta, e esta me convidou a olhá-la com mais atenção. Olhei e vi a poeira, peguei a cortina e passei num pedacinho da janela. Fazia uma diferença. Pensei “é, dá para limpar, é só pegar um paninho seco”. Mas quase que imediatamente ouvi de mim mesma que eu não poderia fazer igual às vizinhas e me aventurar limpando porque eu não tinha rede na janela. Olhei para baixo e mesmo acostumada com a altura do nono andar, achei prudente postergar. “Deixa para uma próxima” pensei. Terminei de passar o batom e segui.

Tempos depois eis que uma quarentena começa, com todas as alegrias e tristezas desse período. Reorganizei o espaço, não usei mais brincos, aliança, correntes, e as maquiagens que nunca foram essenciais na minha vida foram parar no fundo do armário. 

Reorganização de vida

Como nunca tive obsessão por limpeza, na quarentena olhava os cômodos e pensava, “nossa podia organizar isso”, “podia organizar aquilo”, “podia fazer tal coisa”…

Mas o trabalho estando em casa a vida fica meio bagunçada, a gente come fora do horário, dorme tarde, acorda de madrugada, fica com sono e tantas outras coisas.

Esses dias, fazendo a aula de pilates via chamada de vídeo, conversávamos enquanto sofríamos (sim, pilates dói e cansa), relatei que ao ver cantos empoeirados na minha casa fazendo exercícios no chão me deixavam incomodada, mas logo passava. Minha amiga relatou o quanto ela era doida por limpeza e em meio aos exercícios e desabafos, resgatei a piada. Todo mundo riu e eu também.

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Entretanto na quarentena a gente tem tempo de pensar coisas nunca pensadas antes, ou melhor, que estavam ali e a gente não queria muito enxergar. Uma poeira na janela, no canto da porta, embaixo dos bibelôs da estante. Sim, porque envolta dos bibelôs até que estava limpo. E aí, como forma de organizar tudo que anda acontecendo dentro de mim, resolvi num sábado pela manhã limpar tudo. 

Era um encontro comigo mesma, estava sozinha no apartamento e teria liberdade para fazer do modo que quisesse. No dia anterior comi biscoito de polvilho no sofá, cheetos, deixei a pia cheia de louça, “ah que delícia” pensei, as roupas saindo do cesto e achei tão poético. 

A geladeira oferecia variados potinhos com coisas que não fazia ideia do que seriam. Fritei ovos e me neguei a lavar a frigideira ou limpar o fogão. Ora, ora, quanta liberdade num dia só!!! Era tanta baderna, tanta coisa fora do lugar, que senti ainda mais vontade de limpar. 

No dia seguinte acordei e fugi do habitual, não liguei o computador, tomei café lentamente, saboreei tudo calmamente, enfim precisava preparar corpo e espírito para isso.

janelas

Um passo por vez

Às 7:37 da manhã mantive o pijama, o cabelo preso sem pentear, as meias, liguei o som, escolhi a trilha adequada. Observei no armário que produtos poderiam me acompanhar. Peguei o sabão ecológico e um vidro de vinagre, o álcool 70% já ganhou destaque na casa e já não estava no armário. Acrescentei panos, potes de sorvetes que são ótimos baldinhos, peguei a vassoura, o rodo e os panos de chão. 

A fim de não quebrar as regras do condomínio, fui tirando muito devagar os objetos do banheiro e às 8h de um sábado ensolarado, comecei a limpar. Ajoelhei no chão e fui esfregando cada cerâmica, cada azulejo. Me senti encorajada pois o vinagre não fazia mal às narinas.

Fui limpando, aproveitei e fiz a mesma coisa no outro banheiro, voltei para o quarto. Os cobertores na cama, o lençol enrugado pela noite dormida comigo. Arranquei os lençóis, fronhas e demais adereços, joguei no corredor, sem pensar em como lavaria tudo aquilo sem máquina de lavar. “Depois eu penso”, conclui. E assim fui me aventurando pelo quarto, achei que a água no chão com sabão e vinagre faria bem. Joguei com o potinho de sorvete uma mistura e fui esfregando. A espuma da mistura potencializada pelos movimentos feitos com a vassoura acabou pousando levemente na cortina. 

Finalmente, olhei a cortina e pensei que talvez por conta dela a rinite estaria atacada. Arranquei e arremessei ao corredor que já tinha outros tecidos enrolados.

Foi então que eu vi, depois de sete anos, a janela, por inteira, vendo o tanto de poeira acumulada, observei suas entranhas e me assustei. De fato, nunca a tinha olhado com tamanho cuidado e atenção. Fiquei sentida, olhei para o prédio da frente, não tinha ninguém limpando janelas. Seria um aviso para que eu limpasse?  Não ia ter ninguém me observando e falando que eu estaria equivocada…

Tomei coragem e num rompante peguei a bucha, me dirigi à janela e esfreguei. O resultado não foi muito aparente, talvez porque a poeira habitual juntou tanto durante esses anos que formaram um bloco denso pelo qual nem o sabão, vinagre e bucha eram suficientemente fortes para vencê-los.

“O que fazer?”. Achei por bem, já que havia começado, fazer direito. Peguei água e fui jogando na janela. No início joguei tão forte que a água voltou quase toda para mim, empoleirada no colchão. Ficou um pouco difícil. Busquei uma escada confortável. Subi, e dessa vez joguei a água devagar, respeitando aquela janela que passou sem ser vista por todos esses anos… Afinal ela representava 1/5 de toda a minha vida.

Doeu um pouco, porque na faxina podemos pensar em outras coisas que também estão empoeiradas em nosso ser. Agora ao sabão, vinagre e água misturavam-se as lágrimas que saltitavam de meus olhos. A janela apresentava algumas manchas, mas tudo bem, não me importei nesse momento com elas. Olhei o resultado e questionei “nossa, e a parte de fora da janela?”. Rapidamente respondi “vou cuidar de dentro primeiro”.

Consegui terminar o quarto e os dois banheiros. Exorcizei os demônios colocando incensos perfumados nesses cômodos. Olhei para o corredor que agora estava cheio de água, com os lençóis e cortinas molhados. Decidi levá-los para o tanque. Voltei com mais misturas e fui limpando o próximo quarto. 

Mesmos procedimentos, e a janela daqui ficou mais fácil de limpar. Eu já possuía escada, sabão, vinagre e água, agora era só lembrar de outro tema de minha vida para produzir lágrimas e reflexões na quarentena. 

Terceiro quarto, agora aquilo havia se tornado uma brincadeira. Era mais fácil, repeti tudo de novo. Lembrei de um autor místico que dizia que algo que acontece uma vez pode não acontecer duas, mas se acontece duas, certamente acontecerá a terceira. A janela traduzia essa escrita para a prática.

Próximo ao meio dia o interfone toca. “Quem seria?”. Era o porteiro, querendo saber se por um acaso eu estaria lavando as janelas. Nem pestanejei, “sim, sou eu mesma”. Ele confidenciou que a vizinha do oitavo andar estava enlouquecida, pois eu havia molhado todos os cômodos. 

Disse a ele educadamente “eu entendo e acolho a reclamação dela, mas em sete anos morando aqui, nunca fiz isso”. Aleguei meu bom comportamento, meu compromisso sustentável, minhas práticas ecológicas, meu bom senso na reunião de condomínio e finalizei dizendo que era a última janela. 

Voltei para o terceiro quarto, limpei tudo, cada canto e percebi que tinham coisas que só uma pintura poderia resolver. Já havia feito a minha parte. Limpei com minhas lágrimas, reflexões e sentimentos tudo aquilo.

 

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Limpeza interior e janelas

Mas e a vizinha? Senti empatia. Pensei na quarentena. Será que ela limpava as suas janelas? Olhei o interfone e tive ímpetos de ligar. Mas ligar num momento desse? Talvez pudesse ser pior. As pessoas tem coragem maior quando estão do outro lado da linha, e eu não queria coragem. Optei pelo mais difícil, descer um lance de escada. Iria desse jeito? Sim, faz parte da natureza humana em quarentena usar pijama, não pentear o cabelo e a cara estranha a gente disfarça com máscaras.

Desci, ouvi vozes de criança antes de tocar a campainha, e tive ainda mais compaixão. Se está difícil para mim, com criança em casa deve estar bem pior. Toquei, vi seu olhar pelo olho mágico. Mágico seria se ela me ouvisse e entendesse, mas não podia esperar isso dela.

Ela abriu, me identifiquei, ela apresentou parcialmente sua sala. “Nossa que bonita!”, tudo pintado, móveis bonitos, lustre elegante, e sim, as infiltrações na janela. Tinha argumento para aquilo? Não! Eu atrapalhei a vizinha e logo fui corrigida por ela, pois segundo a mesma, a vizinha do segundo andar reclamou também. 

Senti tristeza, mas acho que ela também teve empatia, “como alguém nesse estado bateria à porta dela para explicar-se”, pensei que talvez ela tivesse pensado nisso. Argumentei que não limpava as janelas e ela horrorizou-se em um sonoro “Não?!”. Sem outros argumentos, disse sobre minha atual condição humana e ofereci parte da minha mistura milagrosa, lágrimas. Ela cada vez mais convencida que estaria lidando com alguém fora do normal, desculpou-me e prontamente fechou a porta. Subi, envergonhada, mas aliviada. Aquela vizinha que nunca vi teve empatia comigo. Tem gente que me conhece de longa data e não tem… Seria por me conhecerem é que não teriam empatia? 

Concluí que a minha limpeza interior abalou o interior e exterior de todos os vizinhos que me cercavam. Até os do prédio da frente, pois eles olhavam a água traçando novos trajetos. As faxinas interiores reverberam.

A porta de acesso à sacada limpei com pano, foi bem mais rápido e sustentável do que com as demais. Mas eu tinha segurança ali, eu poderia limpar dentro e fora.

Ao terminar olhei as janelas. Fiquei encantada com o resultado, principalmente o da sacada. Pendurei um pássaro de madeira em substituição da cortina e apesar de não ter a melhor vista, desfrutei cansada os resultados benéficos de minha limpeza. Tanto a casa quanto eu estávamos bem mais limpos. Daqui para frente, não vou deixar a poeira tomar conta, nem na janela e nem no coração.

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