Abrace seus dias estranhos

  • TEXTO Ana Luísa de Oliveira
  • DATA: 20/04/2020

Eu já quis sentir menos. Já desejei mais constância, mais organização interna, mais sentido para minhas emoções. Hoje, acolho todas que vierem

 

Era segunda-feira, o que por si só não é uma frase muito animadora. Primeiramente, acordei atordoada depois de sonhar com uma infinidade de cenas sem sentido algum. O tempo resolveu acompanhar meu estado de espírito. Ora calor, ora frio. Sol e chuva, vento e calmaria. Céu azul e céu tão preto que parecia o fim do mundo.

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Mas o mundo não acabou. Pelo contrário, ele continuou girando sem ligar para a estranheza que se desenrolava dentro e fora de mim. O dia seguiu: trabalhei, escrevi, dei risada, senti moleza no corpo, fiquei animada, fiquei com preguiça. Mais do que tudo, levantei a bandeira branca para a minha montanha-russa interna. Ao sair do escritório, não sabia mais o que esperar do tempo. Por via das dúvidas, coloquei meu casaco e deixei meu guarda-chuva a postos.

O acolhimento

O que me acolheu do lado de fora foi inesperado. Um clima perfeito. Cheirinho de chuva sem chuva. Frio sem vento e sem intensidade. Céu indefinido, mas sereno. E mais uma vez, a natureza entrou em equilíbrio comigo. Acolhemos, juntas, a estranheza do nosso dia. Abraçamos a loucura das mudanças de humor. E entendemos que tudo bem sentir tudo em intervalos tão pequenos. E tudo bem ter dias estranhos. Eles fazem parte tanto quanto os outros.

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Sobretudo, eu já quis sentir menos. Decerto, já desejei mais constância, mais organização interna, mais sentido para minhas emoções. Hoje, acolho todas que vierem da forma como quiserem aparecer – e na hora que bem entenderem também. Reconheço o motivo e, na maioria das vezes, lido bem. Percebi que ter um dia bom e um dia ruim é simplista demais. Temos dias com mais momentos bons e dias com mais momentos ruins, e no final das contas, a gente que escolhe como classificá-los. E tem os dias completamente estranhos como essa segunda. Mas nesses, nem vale a pena rotular. Só sentir. Viver. Deixar passar. E, na medida do possível, ficar em paz com a nossa própria estranheza de sentimentos. Afinal, é isso o que conta.


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