Um lindo dia na vizinhança, de Marielle Heller

  • Suzana Vidigal

Cheio de ternura, Um Lindo Dia na Vizinhança não só é um tributo a esse artista que fazia questão de frisar que cada criança é única. É também um filme que instiga diversas reflexões sobre educação e sobre a importância de falar daquilo que nos aflige

 

Fred Rogers, apresentador de um programa infanto-juvenil por mais de 30 anos nos Estados Unidos, dizia que perdoar é decidir libertar ou não a pessoa da teia de raiva em que a aprisionamos. É possível mantê-la ali, imobilizada – o que implica, imagino eu, conservar a teia firme, consistente, trabalhar duro para que ela se mantenha. Ou seja, um trabalho de imersão na raiva. No entanto, se a escolha for libertá-la, é preciso desatar os nós da teia e, para isso, dissolver a raiva que sentimos. Ele, mais conhecido como Mr. Rogers, tinha seus truques: dizia que quando batia aquela raiva, soltava uns berros, tocava piano só usando as teclas graves ou nadava. Só então teria como resolver que rumo tomar.

Foi aqui que Fred Rogers, apresentador do programa Mister Rogers’ Neighborhood de 1968 a 2001, me ganhou. Pra mim é igual – nadar espanta os males. Braçadas fortes, que impulsionam e furam a resistência da água, dão um jeito de dissolver a raiva. Ficamos incomunicáveis com o mundo exterior, o único som é o da água, estamos imersos no mundo interior. Voltamos à tona um pouco mais preparados para pensar. Rogers ficou conhecido por sua extrema bondade – característica que fazia dele uma personalidade difícil de entrevistar: interessava-se tanto pela vida do entrevistador, que os papéis se invertiam e eles acabavam se tornando amigos.

Fred Rogers

Pra quem não conhecia Fred Rogers (1928-2003) como eu, não percam a oportunidade. O filme Um Lindo Dia na Vizinhança, da diretora Marielle Heller, traça o perfil desse apresentador, educador e cantor americano que encantou gerações com sua fala mansa, seu olho-no-olho e sua preocupação genuína com o outro. Seu foco no programa era preparar as crianças para lidar com os problemas da vida – uma conta que chega para todos, cedo ou tarde.

O recorte do filme é a amizade de Rogers (Tom Hanks) com com Lloud Vogel, um jornalista amargo e pessimista. Ao ser escalado para escrever o perfil do apresentador na revista em que trabalhava, Vogel (Matthew Rhys) conhece Mr. Rogers, irrita-se com a sua compaixão e altruísmo extremos, mas acaba mudando seu olhar depois dessa convivência. Cheio de ternura, Um Lindo Dia na Vizinhança não só é um tributo a esse artista que fazia questão de frisar que cada criança é única. É também um filme que instiga diversas reflexões sobre educação e sobre a importância de falar daquilo que nos aflige. Rogers dizia que o que é dizível, é administrável. E é nessa administração que entra a decisão de desfazer-se da teia de raiva, de libertar o outro e a nós mesmos das experiências que nos sufocam, e de seguir adiante.

Onde assistir: filme estreia nos cinemas dia 23 de janeiro

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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