O segredo do carisma

  • Rodrigo Vergara
  • FOTOGRAFIA: Arthit Longwilai | IStock

O que faz com que as pessoas se interessem por nós, queiram estar perto da gente, nos procurem? Afinal, qual é a chave do carisma?

Em 2013, eu estava falido emocionalmente. Já escrevi sobre isso antes, diversas vezes. De repente, me dei conta de que não me reconhecia em nenhuma das escolhas que estava sustentando na vida. 

Estava tratando mal meu corpo, distante dos amigos e da família e dedicando meu tempo a um trabalho que não tinha sentido para mim. Na época, eu trabalhava de forma independente, produzindo conteúdo ou desenvolvendo conceitos de branding para marcas. Trabalhava em casa, ganhava bem (o triplo do que ganho hoje, oito anos depois!), viajava quando queria. Mas nada disso me trazia satisfação.

Foi então que decidi romper com esse estilo de vida e tirar um sabático, que eu estava adiando por anos. Era abril e eu decidi sair em outubro. Avisei os clientes com quem eu tinha projetos em andamento que precisávamos cuidar dos prazos. E todos os que me procuraram depois disso foram avisados que, no dia 11 de outubro, a caneta ia cair e eu não estaria mais acessível.

Lufada fresca

Desde o instante em que tomei a decisão, alguma coisa mudou em mim. Difícil explicar, mas saber que eu não estava mais condenado a fazer aquele tipo de trabalho abriu espaço para brincar com aquilo. As horas ficaram mais leves. Para um dos projetos, chamei um amigo para ajudar e passamos tardes deliciosas cozinhando, comendo e discutindo o trabalho.

E então a mágica começou a transbordar para o meu entorno. O primeiro sinal foi na entrega de um texto para uma ação interna de uma empresa. Eu já tinha redigido esse tipo de coisa dezenas de vezes. E o processo de aprovação é sempre um parto. Idas e vindas, pedidos de alteração conflitantes e cricrizices com coisinhas mínimas, depois que tudo está pronto.

Já prevendo o calvário, fiquei ressabiado quando o cliente não deu sinal de vida, semanas depois de eu enviar a primeira versão do documento. Escrevi lembrando que eu iria viajar, que tínhamos um prazo para terminar, que eu precisava de uma devolutiva para começarmos a fazer os ajustes. 

— Oi, Rodrigo. Esqueci de te avisar. O texto foi aprovado e o material já está em fase de produção.

Aquilo nunca tinha me acontecido antes.

carisma

Crédito: Hjalmeida | IStock

Sonho meu

Comentei a história entre risadas com o amigo com quem estava tocando outro projeto e, naquele dia, nossa conversa enveredou por umas ideias bem fora do comum. A certa altura, ele sugeriu, brincando, que aquela viagem toda poderia ser uma das entregas. E, no espírito de leveza que nos dominava, registramos o que discutimos.

Na semana seguinte, tomei coragem e apresentei aquelas ideias ao cliente, que adorou nossa produção, deu o trabalho como encerrado e pediu que enviássemos a nota fiscal! Pisquei duas vezes antes de comemorar.

Me lembrei do filme “Foi Apenas um Sonho”, de 2008. A história se passa nos anos 50. Frank, vivido por Leonardo DiCaprio, é um engenheiro farto do seu trabalho em uma grande empresa americana. Em uma conversa com sua mulher, representada por Kate Winslet, eles decidem ir embora para Paris, para se dedicar aos seus sonhos de escrever, pintar, nem lembro mais. 

Uma onda de entusiasmo arrebata o casal, que começa a fazer planos. Já no dia seguinte, mesmo antes de anunciar sua demissão, Frank chega ao trabalho com um brilho novo no olhar. Fala com colegas que nunca falou antes, participa ativamente das reuniões, toma decisões sem pestanejar. 

Finalmente, ao pedir demissão, ele aproveita para, num memorando ao chefe, dizer o que ele pensava de verdade a respeito da área e dando ideias malucas do que deveria ser feito. Dá risada ao escrever a carta.

A Matrix chama

Então, dias depois, é chamado à sala do chefe e recebe uma proposta de ficar e tocar, com uma promoção, aquele projeto que ele havia esboçado. 

Confesso que, quando meus projetos começaram a ser realizados com enorme leveza e aprovados com improvável facilidade, eu cheguei a pensar que havia entendido e hackeado o sistema. 

— Se a vida por aqui pode ser tão fácil, por que ir viajar? 

Por sorte, uma intuição me soprou ao ouvido. E eu percebi, sei lá como, que toda aquela boa vontade comigo era fruto de um encantamento. Todo mundo à minha volta queria um pedacinho daquele vigor e vida que eu estava carregando, fruto da decisão de seguir minha vontade mais profunda. 

Chama interna

Assim como no caso de Frank, a gentileza do mundo era a fome de vida querendo me jantar. Era a Matrix querendo se apropriar dos frutos do entusiasmo que só um coração inteiro e encarnado consegue produzir. Desvencilhei-me daqueles braços macios e saí no sabático no final daquele ano. 

Mas Frank, infelizmente, se deixou seduzir pelo canto da sereia. Trocou a chama interna pelo brilho do ouro e do sonho de se ver realizado a serviço do sonho dos outros.  Não vou contar o final do filme para você poder ver, se quiser. Mas você já pode imaginar que a troca não foi vantajosa para o casal e nem para Frank.

Achei que você gostaria de ouvir essa história.


RODRIGO VERGARA se sente vivo no palco, como ator e improvisador. Sente-se realizado quando consegue conduzir uma equipe a encontrar a melhor versão de si mesma. E adora sentar-se à frente do computador para escrever sobre essa experiências aqui na Vida Simples.


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