Meus dias de Amyr Klink

  • Juliana Reis

Como uma viagem náutica foi transformadora

A prainha na ilha de São Francisco do Sul dava para um canal cercado de mangue. Dali deveríamos partir navegando para, dentro de 3 dias, chegar ao nosso destino final. Eu ainda nem sentia a areia úmida e fofa entre os dedos porque continuava usando o tênis. Estava ressabiada, olhando as águas obscuras do canal, totalmente confiante de que… afundaríamos assim que colocássemos nossa embarcação na água.

Como não sou boa em ler manual, deixei essa parte para a Viviane. E quando olhei para trás procurando apoio para chorar o naufrágio iminente, lá estava ela, séria, com facão na mão já cortando os bambus e dando ordens a uma obediente Caroline, que desdobrava energicamente a lona.

Carol era a mais malandra entre nós, mas quando se tratava de seguir as instruções de quem pudesse garantir nossa sobrevivência, era exemplar.  “Sim, chefe!”, ela sempre dizia, e só os mais chegados eram capazes de distinguir se a expressão acompanhava deboche ou respeito. Dessa vez veio como um sussurro preocupado – toda a concentração de Carol estava em identificar qualquer possível furo na lona.

Separar os bambus de mesmo tamanho e uni-los com amarras de sisal foi tarefa confiada à sempre disciplinada Giovana. Como seus delicados dedos de pontas redondas e inchadas por causa das unhas roídas, não é que ela tecia agilmente dando forma ao estrado de bambu que uniria as duas canoas e serviria de bagageiro?

Estávamos construindo uma jangada para viajar pelo canal!

Sem habilidades específicas, eu ficava no faz-tudo, me esforçando para fazer valer meu lugar no barco. Puxava uma corda ali, segurava uma lona lá, apertava mais um nó aqui, buscava água… E a jangada ia ficando pronta – duas canoas de lona, bambu e sisal unidas por um estrado. Nesse estrado iam nossas mochilas e em cada canoa, duas viajantes, cada uma sentada num banco feito com as taquaras, manejando remos improvisados com ripas de madeira.

Não sei quanto tempo eu duraria até minha falta de destreza com tudo aquilo ser notada e eu desmascarada. Então quando arrastamos a embarcação pela areia até a água e ela realmente – ufa! – boiou, pulei logo para dentro e assumi meu posto e um remo. Só quando apoiei meus pés no esqueleto da jangada é que notei: eu continuava de tênis, tal era meu medo de pisar desprotegida naquele leito lodacento e misterioso. Eu, hein!

Sou ignorante na linguagem náutica, mas sei que quando se constrói uma embarcação, a hora de colocá-la na água tem um quê de celebração. E um tanto de ansiedade envolvida. Espera-se que boiem,  mas sei de algumas que foram fiasco assim que lançadas à água: a nau Vasa, montada em 1628, durante período de glória da marinha sueca, só tomou uma lufada de vento e já foi majestosamente para o fundo d’água; a réplica de caravela portuguesa do século 15, construída no Brasil para celebrar os 500 anos do Descobrimento do país, ficou de fora da festa por problemas de construção; e as jangadas de outros vários colegas viajantes agora afundavam uma a uma conforme a nossa se afastava da margem, firme e estável, para seguir viagem.

O viajante-navegador Amyr Klink, de quem sou fã, disse uma vez:  “Eu gosto de barco porque barco afunda. A certeza de que você fez algo errado é educativa”.

QUATRO AMIGAS E UMA JANGADA VIAJANTE

Após as primeiras horas remando duvidei que sol, vento, chuva, marolas e noção de equilíbrio fossem mais ameaçadores do que a convivência entre a tripulação. Extremamente racional, Viviane me assustava, enquanto Carol e Giovana, que carregavam há anos uma história de rivalidade, agora estavam mais próximas que nunca e em cima d’água. Qualquer movimento brusco viraria a jangada.

Então decidi cantarolar e isso demarcou o ritmo dos remos. Aos poucos, a tripulação cantarolava junto, o que mantinha a velocidade – e a calma – constante.

Avançávamos remando sob sol forte, às vezes sob chuvisco, parávamos à noite para descansar em ilhas. Era tempo para armar as barracas, cozinhar, lavar louça e dormir.

Durante o dia, seguíamos remando num ambiente de água doce e salgada cercada de manguezais e um pouco de mata atlântica. Às vezes, a exaustão desequilibrava a toada e os humores. Quando uma se exaltava, o lado dela balançava e arriscávamos virar. Então outra fazia força contrária para compensar o peso e nos manter seguras.

Ao nosso redor, durante o percurso, várias jangadas sucumbiam. Tinha as que desmontavam por falta de amarras fortes ou por velocidade exagerada. Ansiedade de tripulações competitivas. Outras submergiam vagarosamente por peso ou furo na lona por causa do pisão de um desavisado. Eram as cenas de derrota mais engraçadas.

Presos num banco de areia, uns meninos acenavam e cantavam – um deles de cima de um mastro improvisado. Aguardavam socorro, tinham desistido. Nos convidaram a fazer uma parada e dividir com eles um favo de mel encontrado quando acamparam em terra. Eu nunca havia visto nem provado um favo de mel. Dourado, doce, macio e mastigável. Todo mundo deveria guardar os registros das primeiras vezes de tudo. Bati uma foto das nossas mãos ansiosas dividindo o favo. E hoje nem sei onde ela está.

REMANDO COMO GAROTAS

Aos poucos, dentro da nossa embarcação, minhas cantorias foram dando lugar a frases de motivação. “Reme como um homem” teve, de fato, certa eficiência. Até notarmos que a maioria dos náufragos eram rapazes. Passamos a nos orgulhar de remar como garotas!

Relações começaram a ser curadas quando deixamos de acusar umas às outras de coisas como “não comer feijão suficiente” para remar como deveria. No lugar dessa bobagem, revezávamos as forças.

Quase no final da viagem, a jangada empacou, talvez por falta de força nossa ou vento e correnteza contrários. Caroline pulou na água e nadou por um bom tempo, puxando a embarcação, em silêncio, enquanto Giovana empenhava-se como nunca no remo, claramente tentando aliviar o peso daquela carga. Gosto de pensar que as duas começaram a se perdoar nesse dia.

Quando a patrulha de socorro da Marinha passou resgatando Carol, que perigava entrar em hipotermia, Viviane, nossa comandante natural, exausta e preocupada com a amiga, decidiu seguir junto com ela. Assumimos eu e Giovana o equilíbrio da navegação e resgatamos Ana, tripulante de uma jangada próxima que, remendada, ameaçava afundar.

Eu nunca havia conversado com a Ana até então.

Tínhamos mais algumas horas pela frente até finalmente chegarmos a Joinville, nosso destino final, onde uma profusão de jangadas nas mais diversas condições se esforçava para tocar o cais – quebradas, avariadas, tortas, meio afundadas, algumas até inteiras. Centenas de amigos nos aguardavam. Esses também nos mais diversos estados físicos e emocionais: alguns estropiados, outros eufóricos, muitos queimados de sol e uns poucos chorando pelos mais variados motivos.

Viviane nos recebeu no cais e correu diretamente até a mim sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Não queria ter abandonado o barco, mas compreendia a importância daquele gesto. Sempre fui pouco habilidosa com as mãos ou sob pressão, mas não desistia, persistia. Então muitas vezes, apesar de um pouco medrosa, eu estava lá, presente na reta final. E precisava reconhecer esse poder em mim.

Essa é a história de um desafio chamado Aventura Sênior, que anos atrás reuniu escoteiros de 15 a 17 anos do Brasil inteiro. Nossa missão era viajar por 3 dias da ilha de São Francisco do Sul para a cidade de Joinville, ambas no estado de Santa Catarina, transpondo canais e a Baía da Babitonga em jangadas montadas por nós mesmos.

Na ocasião, recebemos um manual de instrução, bambus, lona, corda de sisal e a oportunidade de sermos criativos, audazes, confiantes, empreendedores, protagonistas… E de entender como funcionam algumas coisas na vida, sendo uma delas evoluir como seres humanos interagindo com nossas personalidades variadas.

Muitas pessoas transformam experiências de viagem em exercícios filosóficos e metáforas. Amyr Klink – ele, de novo – já disse que não gosta dessa mania e acho que até entendo o porquê: quando se depara com situações adversas em suas navegações pelo globo, não há tempo para reflexões intrincadas – é hora de agir e se ajustar ao contexto, seja ele um ciclone, água entrando no barco ou qualquer outra força da natureza.

Espero que ele me perdoe, mas não sou contra metáforas, não. Carrego os ensinamentos dessa viagem histórica comigo até hoje.


JULIANA REIS é uma viajante de coração inquieto em  busca de histórias, pessoas, lugares e experiências  que a modifiquem. Escreve mensalmente na edição impressa de Vida Simples


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