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6 livros para começar 2023 com tudo
Dollar Gill

Há quem diga que contar dias, meses e anos é só uma forma mais prática de dividir o tempo. Talvez uma invenção humana com base nos ciclos da natureza. Ao contrário dessas pessoas, eu sempre dei extrema importância às datas, especialmente as comemorativas. Encaro como uma chance de fazer tudo diferente, de mudar. É como se a vida dissesse: “Vem, te dou de presente um novo ciclo. Toma essa chance, tenta outra vez.”

Sendo assim, pensei em algumas leituras que podem dar aquele empurrãozinho necessário para que o novo ano não seja só 2023, mas a mudança que – você, eu e todos nós enquanto sociedade – precisamos para fazer e ser mais. Em 2022 eu abracei o pensamento estoico e busquei me aprofundar na leitura de alguns pensadores dessa corrente filosófica que me ajudou em um dos momentos mais difíceis da minha breve passagem pela terra: o fim de um relacionamento longo e que eu julgava ser a coisa mais importante da minha vida. Pensando que muita gente todo dia sofre decepções de toda sorte, convive com o luto, com diferentes tipos de perdas e com muitas quebras de expectativas, trouxe um pouquinho do estoicismo facilitado para quem quiser conhecer os infalíveis – e nada indolores – ensinamentos de Marco Aurélio, Sêneca, Zenão e Epicteto. Garanto que vale mais do que muitas palestras e livros motivacionais por aí. É uma leitura que reverbera por dias, até se tornar uma mudança palpável na forma de ver e abraçar a vida

Para quem quer se conectar com o belo e com a natureza, encontrar um livro que seja bonito, delicado e ainda dê valiosas dicas sobre o cultivo das mais variadas plantas é um bálsamo. Eu já tinha como meta para 2023 investir na energia das plantas e no poder curativo que só um arranjo bem fresco e lindo na sala pode ter. Pois bem, encontrei um livro que me desse o incentivo que faltava para me tornar a menina do dedo verde que nunca fui. Já estamos aceitando dicas e mudas. Grata.

Mas, nem tudo são flores. O ano precisa começar com uma boa dose de ciência e verdades difíceis de engolir. Por exemplo, você já parou para pensar o quanto pode estar viciado em dopamina? Sim, aquele neurotransmissor famoso por dar uma maravilhosa sensação de felicidade. Ou ainda, já resolveu investigar a fundo a qualidade do seu sono e avaliar se o que você insiste em chamar de insônia não passa de um conjunto de maus hábitos? Pois bem, eu tive esse choque de realidade bem no finzinho de 2022, como se já não bastasse ter vivido os momentos mais difíceis da vida e enfrentado a tensão de uma eleição presidencial polarizada, um restinho de pandemia e a eliminação do Brasil em uma Copa cheia de expectativa. Agora, sigo lutando, com muito mais afinco no próximo ano, para ter consciência dos meus atos e não ser tragada pela tecnologia, pelo estilo de vida contemporâneo – ou a parte nociva dele – e por escolhas ruins. Se conhecimento e poder, já diz a máxima, imagina só do que é capaz aquele que conhece a si mesmo?

Antes de me despedir, deixarei vocês com um alento. Ou melhor, dois diferentes carinhos na alma: uma linda história real de iluminação, amor ao próximo e de como é possível superar o que parece o pior cenário possível, e poemas inesquecíveis de uma das maiores poetisas da língua portuguesa. São dela os versos que encerram essa coluna, deixando explícito assim o meu desejo para 2023: um ano de paz, entendimento, equilíbrio e: “Que o tempo que nos deste seja um novo recomeço de esperança e de justiça.”

 

Um café com Sêneca: Um guia estoico para a arte de viver – David Fideler – Editora Sextante (240 páginas)

A sinopse diz que a obra é: “Perfeita para ser apreciada como parte de um ritual diário, como uma xícara de café revigorante, a sabedoria de Sêneca nos oferece sábios conselhos sobre a condição humana – que, como se vê, não mudou muito nos últimos 2 mil anos”. Eu, da minha parte, trago uma das mais impactantes frases que já li, daquele que deu nome ao livro, o filósofo, escritor, político romano, mestre da retórica e conselheiro do imperador Nero: Sêneca. “Se quer ser amado, ame. Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico. Toda arte é imitação da natureza. Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.”

 

Cultivando alegria: O guia dos amantes das plantas para cultivar a felicidade (e as plantas) – Maria Failla – Editora VR (selo Latitude) (240 páginas)

Cultivando Alegria não é propriamente sobre as plantas que cultivamos, mas sobre os sentimentos que resultam ao observarmos a nossa existência sob uma nova perspectiva. Não se trata apenas de celebrar um novo broto ou uma floração, mas seguir confiante durante o outono enquanto observamos as folhas que perdemos ao longo da vida. Trata-se de celebrar os períodos pelos quais nossas plantas e nós mesmos passamos, acreditando que tudo é cíclico e tudo retornará quando for a hora.” A autora, Maria Failla, é uma ex-atriz da Broadway que agora se dedica a fazer crescer uma comunidade de “amigos-planta”. Além do livro, lindamente ilustrado pela artista Samantha Leung, a autora também tem um canal no divertidíssimo no YouTube.

 

Nação dopamina: Por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar – Dra. Anna Lembke – Editora Vestígio (256 páginas)

Este livro é sobre prazer. É também sobre sofrimento. Mas mais importante, é um livro que trata de como encontrar o delicado equilíbrio entre os dois, e por que hoje em dia, mais do que nunca, encontrar o equilíbrio é essencial. Estamos vivendo em uma época de excessos, de acesso sem precedentes a estímulos de alta recompensa e alta dopamina: drogas, comida, notícias, jogos, compras, sexo, redes sociais.” Com uma sinopse assim, eu nem precisaria deixar aqui um dos milhares de texto que marquei (sério, o livro tem mais trechos destacados do que em branco). Mas, deixo aqui uma pequena amostra do que esse livro é capaz: “A pergunta é: por que, numa época sem precedentes de prosperidade, liberdade, progresso tecnológico e avanço médico, parecemos estar mais infelizes e com mais dores do que nunca? Talvez o motivo de estarmos todos tão infelizes seja porque estamos dando duro para evitar sermos infelizes.”

 

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Por que nós dormimos: A nova ciência do sono e do sonho – Matthew Walker – Yhsest Editora Intrínseca (485 páginas)

Os mistérios do sono e dos sonhos sempre me intrigaram (quem sabe não vem mais dica por aí em breve?). Depois de iniciar os estudos no campo da Odontologia do Sono fiquei ainda mais fascinada. Não consigo pensar em livro melhor para quem também acha mágica a nossa “pequena morte de todas as noites” ou ainda para quem se vê com dificuldades de dormir. Na verdade, o primeiro passo é talvez o mais importante: entender que “o sono é responsável por melhorar o aprendizado, o humor e os níveis de energia, regular hormônios, prevenir câncer, Alzheimer e diabetes, retardar os efeitos do envelhecimento e aumentar a longevidade.” E veja bem, quem afirma é o renomado neurocientista e especialista em sono Matthew Walker, autor desse livro capaz de fazer até o maior defensor do “deixa para dormir depois de morrer” mudar de ideia. Fascinante e de linguagem acessível, o livro conta com um prefácio do neurocientista Sidarta Ribeiro e é uma excelente análise da importância do sono e dos sonhos. Além disso, a obra ainda examina transtornos como a insônia e os malefícios do uso de remédios para dormir, além de oferecer alternativas não medicamentosas para a falta de sono e valiosas dicas práticas para dormirmos bem todas as noites.

 

O budista no corredor da morte: A inspiradora história real do homem que encontrou a luz no lugar mais sombrio – David Sheff – Editora Sextante (262 páginas)

Embora cristã, nutro uma enorme admiração pela prática e pela filosofia budista e me esforço imensamente para entender e praticar aquilo que considero compatível com as minhas crenças, especialmente no campo da meditação, que já disse mais de uma vez aqui nessa coluna o quanto mudou a minha vida. O título do livro já chama a atenção, mas a escrita do jornalista David Sheff e a investigação profunda feita por ele sobre a comovente história do homem que abandonou a violência e se tornou um farol de bondade e compaixão em meio ao caos da prisão é arrebatadora. Não precisa ter interesse sobre o budismo, para querer saber mais sobre a alma humana e se inspirar com a ajuda de uma história emocionante. Hoje, o prisioneiro injustamente condenado Jarvis Jay Master é uma referência, dedicando sua vida a ajudar as pessoas – até mesmo os guardas – a encontrarem um sentido para a sua existência. Aluno de Chagdud Tulku Rinpoche e de Pema Chödrön, Jarvis se tornou um renomado pensador do budismo. E foi lendo sobre a sua história que entendi a importância de encarar as maiores adversidades da vida de forma consciente, serena e de peito aberto.

 

Coral e outros poemas – Sophia de Mello Breyner Andresen – Editora Companhia das Letras (392 páginas)

Uma das vozes mais marcantes e comoventes da literatura portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen é, inegavelmente, uma das vozes mais cultuadas da literatura portuguesa. Seja para denunciar o mundo sombrio, seja para tratar de praias radiantes, a poeta ― com sintaxe direta e imagens surpreendentes ― alerta: “por mais bela que seja cada coisa/ Tem um monstro em si suspenso.” A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos A paz sem vencedor e sem vencidos Que o tempo que nos deste seja um novo Recomeço de esperança e de justiça. Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência Para podermos ler melhor a vida Para entendermos vosso mandamento

Para que venha a nós o vosso reino Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos Dai-nos a paz que nasce da verdade Dai-nos a paz que nasce da justiça Dai-nos a paz chamada liberdade Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

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