Minimalismo e uma reflexão sobre o que importa

  • TEXTO Nara Siqueira
  • FOTOGRAFIA Bench Accounting | Unsplash
  • DATA: 07/08/2019

Documentário “Minimalism”, da Netflix, nos faz pensar sobre a maneira como estamos consumindo e a importância que damos aos objetos como fonte de felicidade

Ryan Nicodemus e Joshua Millburn são dois amigos que compartilhavam de estilos de vida semelhantes: trabalhavam muito, gostavam de frequentar bons bares, tinham o armário lotado de roupas de grifes caras, guardavam centenas de livros e filmes nas prateleiras de suas casas. Até que sentiram haver algo errado. “Eu tinha absolutamente tudo o que queria, todos olhavam para mim e diziam que eu era um cara bem-sucedido, mas eu estava infeliz”, conta Ryan. “Sentia um vazio enorme e, para tentar eliminá-lo, tentei fazer o que grande parte das pessoas faz: consumir. Muito”. 

Foi quando Joshua conheceu o minimalismo e o apresentou ao colega. Decidiram, então, apostar nesse estilo de vida de viver só com o essencial, sem excessos. Em um primeiro momento, a postura dos dois pode parecer radical: eles se desfizeram de muitas coisas, vivem agora em espaços bem pequenos, conseguem contar todos os itens que possuem. Mas, em seu próprio nome, a obra carrega uma pista que desmistifica essa impressão: Minimalism – um documentário sobre as coisas importantes.

“O que nós defendemos é que as pessoas tenham coisas que sirvam para um propósito ou que as tragam alegria. Antes de fazer qualquer compra, a pergunta que deve ser feita é “isso adiciona valor à minha vida?”. Não estamos tentando converter ninguém ao minimalismo. Só queremos compartilhar nossa receita e ver se há ingredientes valiosos para outras pessoas”, afirma Joshua.

Só nós somos capazes de definir aquilo que realmente importa para nós mesmos. O principal é refletir sobre os hábitos de consumo e quais são as consequências que eles trazem não só no aspecto individual, mas para o coletivo e para o meio ambiente. Separamos alguns pontos abordados no documentário sobre os quais vale a pena refletir quando o assunto é o modo como nos relacionamos com o consumo. 

Sempre ele: o autoconhecimento
Estamos todos em busca de um sentido para a vida. Nesse percurso rumo a uma descoberta de quem somos e do que viemos fazer aqui, encontramos muitas pessoas e, por vezes, acreditamos que precisamos ser semelhantes a elas, o que nos leva ao caminho do ter para ser. Compramos no piloto automático, sem parar para pensar sobre o que estamos adquirindo e se podemos fazê-lo nesse momento. Por isso o autoconhecimento é tão importante: uma vez que sabemos exatamente o que precisamos, o que conversa com nossa essência, as chances de comprar só por comprar diminuem muito.

Para ter, é preciso…
Dinheiro. Acabamos entrando em um ciclo vicioso de dedicar cada vez mais tempo à função profissional, por entender que é ela que nos permite ganhar mais, para que, assim, possamos consumir mais também. 

Disso, surge uma outra questão: por querermos sempre mais quantidade, e para não comprometer tanto a renda mensal, optamos por produtos mais baratos, vindos de países distantes. Acontece que não fazemos a mínima ideia de quais são as condições de trabalho a que as pessoas são submetidas para que essas mercadorias cheguem às nossas mãos. Sem nos darmos conta, estamos incentivando práticas exploratórias de mão de obra, com jornadas extensas, espaços insalubres, pouca (ou nenhuma) remuneração. Estamos distantes dos processos produtivos, desconhecemos a origem das matérias-primas, não fazemos ideia da cadeia logística – e nada disso é positivo quando pensamos em sustentabilidade e na valorização da vida humana. 

E onde guardar tudo isso?
Graham Hill, um dos empreendedores entrevistados, diz que, atualmente, nós dispomos de um espaço três vezes maior do que os que viviam as famílias na década de 1950. Mesmo assim, não há onde guardar tudo o que consumimos. As casas são maiores, mas nossas compras são ainda mais abundantes. O resultado? O nascimento da chamada indústria do armazenamento, que são empresas que dispõem de galpões para que seus clientes deixem os pertences que não cabem onde moram. São mais de dois bilhões de metros quadrados reservados a essa prática. “Estamos vivendo de acordo com o espaço que temos”, diz o arquiteto Frank Mascia, “em vez de criar um espaço que se ajuste à nossa vida”. 

Sobre ter menos
Ryan e Joshua defendem que ter menos coisas significa também lidar com menos distrações, menos estresse, menos desordem. “Uma vida com menos distrações que permitem ter mais. Mais tempo de qualidade, mais relações verdadeiras, mais crescimento pessoal”, resumo Ryan. 

 

Viver com menos é o tema da edição de julho de Vida Simples. Você pode encontrá-la em nossa loja virtual ou na versão digital, assinando o pacote que dá acesso ao acervo da revista. 

 

Minimalism: um documentário sobre as coisas importantes
Disponível na plataforma Netflix
78 minutos
2016


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