Filipe Blanco: sustentabilidade no surf

  • TEXTO FILIPE BLANCO
  • DATA: 23/02/2021

Como o surfista, shaper e designer decidiu fazer pranchas recicladas, se tornando uma referência mundial no assunto

O mar, o ferro velho, os esportes, arte e viagens são coisas que desde criança me fascinaram.

Embora sejam coisas distintas, me trouxeram muitos ensinamentos, conhecimento, conquistas e grandes amizades mundo afora.

Nasci em Santos, no litoral paulista, e morar na Ponta da Praia facilitou o meu contato com o mar e que, futuramente, eu me tornasse surfista.

Sempre vivi meu dia a dia em um mundo de coisas usadas, afinal, minha família trabalha com sucatas a 80 anos. Em diversas ocasiões, meus presentes vinham do ferro velho. Não por falta de recursos, mas por acreditar nesse conceito: comprar um novo por quê, se posso utilizar o que ainda tem utilidade?

Na década de 1990 comecei a trabalhar com meu pai no Guarujá e lá conheci vários ícones do surf, como o Paulinho do Tombo, a galera da Lightning Bolt, Shine, entre outros.

Meu sonho era viver do surf, e logo após meu pai fechar sua empresa, em 1998, decidi que era o momento. Lembro que o Paulo do Tombo me disse: “cara, ou você vira surfista profissional ou vai fazer prancha”. Não havia muita opção além disso.

Mas, se virasse profissional morreria de fome, pois meus amigos já estavam acertando aéreos naquela época.

Minhas pranchas eram feitas no Guarujá pelo shaper Luiz Fernando, o “Nando”, que além de ser cliente do meu pai , tornou se um grande amigo. Ele me ensinou as primeiras técnicas de reparo em pranchas de surf e ali percebi a quantidade de resíduos de poliuretano, fibras, resina e parafina velha. Foi um choque de realidades opostas e um grande conflito na minha mente.

Logo que meu pai fechou sua empresa, conversei com minha avó paterna e consegui convencê-la a montar minha oficina de reparos”. Era no mesmo lugar onde meu avô começou a saga da família de sucateiros. Quando comecei a consertar pranchas, percebi que tinha talento pra coisa e fui com tudo.

Convidei um amigo, o Marcos “Toco”, pra ser meu sócio, porém ele se mudou de Santos repentinamente e continuei minha trajetória em carreira solo.

Ao passo que comecei a perceber o resíduo do reparo, comecei a criar coisas com aquilo, como troféus, brindes, sempre relacionado ao surf.

Dois anos depois, em 2000, minha avó vendeu sua casa. Sinceramente, foi um corte no coração, pois além da história ligada à sustentabilidade, foi onde cresci brincando com meus primos, onde iniciei meu sonho e todo amor que desenvolvi pelas plantas, por ajudar minha querida avó a cuidar do seu imenso jardim.

Logo em seguida, trabalhei com grandes fabricantes, como Jorge Dornelas e o Zeca da Over Reef.

Eles produziam um número considerável de pranchas e então foi um choque mesmo, pois era muito resíduo.

No entanto, eu sempre comentava que deveriam achar uma solução para tudo aquilo que descartavam, mas enfim, a missão era minha.

Inegavelmente, comparado a outras indústrias, como a do carro por exemplo, a quantidade é pequena. Porém, como surfista e vindo de uma família de sucateiros, eu não me conformava, era muito contraditório.

Até que finalmente em 2004 montei outra oficina conquistando minha independência. Assim, fui criando novos projetos, incluindo amigos, ex-presidiários, dependentes químicos, e enxergando uma nova trajetória, na busca de alternativas sustentáveis.

Em 2009, o mercado do stand-up paddle explodiu, a sobra quadruplicou! Via aquele monte de isopor nas fábricas virando lixo e aquilo me deprimiu muito. Foi então que criei minha primeira prancha totalmente reciclada.

Em 2010, realizei a exposição “Surf Consciente”, no antigo Museu do Surf de Santos, sendo a primeira no mundo com 100% das obras produzidas com resíduos da fabricação de pranchas de surf.

Tive a oportunidade de conhecer meus ídolos do surf e de outros esportes nos eventos que participei.

Os mais importantes foram os mundiais de surf em Santa Catarina (2003/2005), Saquarema(2017/2018/2019), “Viva a Mata” (Ibirapuera/2012) na comemoração de 25 anos do SOS Mata Atlântica, “The Board Trader Show (2016/2017) e o Pan Americano do Peru (2019), que foi o primeiro em que o surf foi inserido.

O projeto que mais rendeu histórias certamente foi a “OVNI Asymmetric”, que além de ser finalista de um concurso internacional de inovações, rodou por três países. Neste evento foram reutilizados vários materiais e na sua decoração pioneira foram utilizadas fotos de revistas, imitando um mural e eternizando a história impressa em papel, já que o mundo digital tomou espaço do nosso dia a dia.

Em 2018, criei os projetos “Fast Repair” e “Estação Coleta”.

O projeto Fast Repair consiste em um sistema de manutenção eficiente, que atende uma equipe de atletas, que competem nos circuitos mundiais e regionais (não só de surf). Fazemos os reparos e em contrapartida eles divulgam mundo afora a importância da manutenção e preservação de suas “ferramentas de trabalho”.

O Estação Coleta é o primeiro ponto de descarte de equipamentos de esportes radicais e náuticos em desuso ou danificados do mundo.

Acredito que agora que o surf tornou se um esporte olímpico, vai aumentar o número de pranchas quebradas e, consequentemente, o descarte.

Sigo em busca de parcerias com escolas, associações e empresas que tenham a mesma visão que eu, com foco na sustentabilidade, indústrias que queiram financiar pesquisas para a inovação, no surgimento novos produtos e processos de reutilização.


@filipeblancoart


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