Fashion Revolution: a moda como um setor do bem

  • TEXTO Eloisa Artuso
  • FOTOGRAFIA Raden Prasetya (Unsplash)
  • DATA: 20/04/2021

Movimento propõe uma indústria da moda limpa, segura, justa, transparente e responsável — para nós e para o planeta.

Tudo está acontecendo agora. Passado, presente, futuro… Só recentemente tomei real consciência desse único espaço de tempo que ocupamos de verdade – o presente. Estamos vivendo aqui, agora, este momento. O passado já ocorreu e o futuro está sempre por vir. O que torna o presente, ao mesmo tempo, constante e efêmero. É o que fazemos neste instante o que importa. E isso muda a perspectiva de encarar o mundo. Sabe esse futuro que tanto esperamos? Ele é vivo, orgânico e se transforma continuamente, à medida que nós nos transformamos. O futuro nada mais é do que uma sucessão de presentes em movimento.

Percebe a oportunidade e o poder que essa consciência sobre o tempo nos oferece? Temos em nossas mãos, a capacidade de criar (e recriar) constantemente o mundo onde desejamos viver. Nossas mãos, mentes e corações vão tornando a vida realidade, o tempo todo, porque não temos o tempo, nós acontecemos nele. O ambientalista e líder indígena, Ailton Krenak, acredita que a nossa forma de contar e enxergar o tempo, como uma flecha que está sempre indo para algum lugar, “está na base do nosso engano, na origem do nosso descolamento da vida”. De acordo com ele “os outros seres são junto conosco e a recriação do mundo é um evento possível o tempo inteiro” .

fashion revolution

Flaunter (Unsplash)

Somos parte do todo

Então, o que eu e você podemos recriar dentro desse espaço-tempo onde nos encontramos? Somos de forma individual e coletiva na Terra. Somos diversos e plurais e o mundo deveria refletir isso. O pluriverso, um conjunto de todos os possíveis universos, capazes de coexistirem em harmonia e respeito. E, para explorar esses possíveis universos, precisamos descolonizar nosso olhar, reaprender como fazer, como pensar. Dar espaço para a promoção de narrativas ecológicas e humanas, propor novos paradigmas que contemplem as agendas feministas, indígenas, negras, LGBTQIA.

Podemos recriar o que for necessário no mundo, ele precisa urgentemente de nós — e nós precisamos ainda mais dele. Isso envolve a recriação de um novo mundo para a moda também. As modas, os modos, as narrativas, as histórias – e as pessoas – precisam, definitivamente, aprenderem a conviver em harmonia. Entre si e com a natureza, em um mesmo tempo e espaço, sem que haja dominadores e dominados, opressores e oprimidos. O mundo da moda tem sua parcela de responsabilidade pela crise climática e pelos abusos dos direitos humanos e, portanto, pela criação desse pluriverso, que permita dar lugar a uma nova sociedade baseada no Bem Viver.

Fashion Revolution

A moda é feita de laços, que se cruzam e vão tecendo novas histórias, novas conversas, novos olhares. E nela podemos encontrar outras formas de fazer e pensar. Se quisermos mudar essa indústria, precisamos fazê-lo de dentro para fora, por meio de uma revolução sistêmica. O Fashion Revolution — movimento global do qual eu faço parte — vislumbra uma indústria da moda que ajude a conservar e regenerar o meio ambiente e valorize as pessoas acima do crescimento e do lucro. A sua missão é tornar isso uma realidade. Somos um movimento feito por pessoas que acreditam no poder de transformação da moda e sabem que podem recriar o mundo no presente, cada dia um pouquinho.

Somos designers, acadêmicos, escritores, empreendedores, empresários, marcas, varejistas, comerciantes, produtores, criadores, trabalhadores e amantes da moda. Somos a indústria e o público. Somos cidadãos do mundo. Somos eu e você. Somos a revolução. O movimento foi criado após um conselho global de profissionais da moda se sensibilizar com o desabamento do edifício Rana Plaza, em Bangladesh. O acidente causou a morte de 1.134 trabalhadores da indústria de confecção e deixou mais de 2.500 feridos. As vítimas trabalhavam para marcas globais, em condições análogas à escravidão. O Fashion Revolution nasceu para dar um basta e dizer que as pessoas não podem morrer pela moda. Hoje, estamos em 92 países e no Brasil temos redes espalhadas pelo país, que contam com mais de 50 docentes embaixadores, mais de 70 estudantes embaixadores e representantes locais em cerca de 70 cidades.

fashion revolution

Nicola Styles (Unsplash)

Direito para todos

Em 2021, trazemos três mensagens-chave: direitos, relacionamentos e revolução. Partimos do princípio que os Direitos Humanos e os Direitos da Natureza são conectados e interdependentes. Nós somos parte de algo maior da vida na Terra, nós somos natureza. Se o meio ambiente não estiver saudável, nós também não estaremos. A natureza tem seus próprios direitos e eles precisam ser reconhecidos. Assim como os Direitos Humanos devem ser garantidos para todas, todos e todes.

Os impactos na natureza afetam a saúde humana. De tal modo, que precisamos revolucionar a forma como nos relacionamos, tanto na esfera individual, como na coletiva — considerando todas as pessoas da cadeia produtiva da moda e da Natureza. Para então alcançarmos a saúde, o bem-estar e a prosperidade para todas as pessoas e para o Planeta. Precisamos também resgatar nossas ancestralidades e enfrentar o colonialismo estruturante dos nossos relacionamentos humanos. Assim como combater o modelo extrativista, que rege nossos relacionamentos com o meio ambiente.

Desigualdades

Estamos falando sobre uma verdadeira revolução sistêmica, porque não podemos aceitar um mundo onde, em média, um CEO de uma grande marca de moda global receba em quatro dias de trabalho o mesmo valor que uma trabalhadora em Bangladesh recebe durante a vida inteira. Precisamos urgentemente reconhecer e fomentar alternativas e outros modelos econômicos, baseados em novos valores e que superem o que entendemos por desenvolvimento e progresso hoje. É essencial que abandonemos o paradigma vigente, baseado em uma lógica linear e veloz (como aquela flecha que está sempre indo para algum lugar) de superprodução, hiperconsumo e descarte.

Somos ensinados a nunca questionar a economia, como se ela fosse uma entidade superior, intocável e imutável. Mas lembremos que um dia este modelo foi criado e, portanto, pode ser recriado. Porque não é aceitável que os 10% mais ricos do planeta sejam responsáveis por metade das emissões de carbono no mundo. E se continuarmos produzindo como de costume, estima-se que o impacto climático da moda aumente 49% até 2030. Por tudo isso, é necessário mobilizar pessoas, amplificar vozes não ouvidas ou marginalizadas, e trabalhar juntos em prol de soluções inovadoras e interconectadas.

fashion revolution

Dieny Portinanni (Unsplash

Harmonia com o todo

Para que essas mudanças se materializem é necessário que desaceleremos e entremos em harmonia com o tempo da natureza, que é o agora, o passado, o presente, o futuro, o sempre. Quero abordar esses temas, com mais nuances e reflexões em nossos próximos encontros por aqui, porque essa jornada é individual e coletiva, tanto quanto o sonho de um planeta onde todas as pessoas caibam de forma justa, igualitária, plural e em harmonia com a natureza. Recriemos a nós mesmos e recriemos o mundo, no presente e sempre.

Aproveito para deixar o convite: participe dos eventos da Semana Fashion Revolution, que acontece de 19 a 25 de abril. Use o poder de suas plataformas durante a Semana Fashion Revolution para demandar transparência das marcas sobre suas políticas, práticas e impactos sociais e ambientais, usando as hashtags #QuemFezMinhasRoupas e #DoqueSãoFeitasMinhasRoupas. Somado a essas perguntas, diante do racismo estrutural que assola nosso país, queremos fomentar o debate sobre raça na moda. Queremos indagar qual é a cor das pessoas que fazem as nossas roupas e quais posições essas pessoas ocupam nesse sistema, usando a hashtag #aCorDeQuemFezMinhasRoupas.

Faça parte da revolução!


Eloisa Artuso acorda todos os dias com vontade de lutar pela criação de novos paradigmas que tragam justiça de gênero e ambiental. Enquanto isso é designer, cofundadora e diretora educacional do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do Istituto Europeo di Design. Com um trabalho fundado no espaço onde sustentabilidade e educação se encontram com o design, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 230, abril de 2021 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*