Estar, acolher e trabalhar juntos

  • TEXTO André Resende
  • FOTOGRAFIA Shane Rounce | Unsplash
  • DATA: 20/10/2021

Trabalhar juntos, saber acolher e estar com o outro é essencial, não só para cada um de nós, mas para a nossa continuidade por aqui.

“Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.” A frase é do escritor português José Saramago e foi pronunciada em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo. A afirmação de Saramago faz sentido e segue atual apesar de ele ter recebido a premiação há pouco mais de duas décadas. Agir com acolhimento, interesse, compaixão e solidariedade com o outro ainda é uma invenção em curso. Mas como podemos melhorar nossa maneira de viver, pensar, agir e interagir, de um modo que, mudando em nós, mude em todos?

É esse estar junto e criar ações a partir disso que move, por exemplo, os Hortelões Urbanos, grupo brasileiro que congrega mais de 80 mil pessoas em todo o país, em um movimento que ocupa canteiros das cidades para plantar alimentos. Uma das oito mediadoras do grupo é Claudia Visoni, jornalista e ativista de muitas causas.

Hortelões em rede

Os Hortelões Urbanos interagem por redes sociais, estão em cidades, pequenas ou grandes, plantando onde dá: quintais, apartamentos, lugares espremidos de ruas e praças. “Com mais de 80 mil pessoas, fica impossível conhecer todo mundo, mas é bom saber que existe um movimento coletivo”, comenta Claudia, afirmando que não querem ser uma entidade nem têm representantes oficiais, mas estão no mundo para tornar o dia a dia mais agradável de viver.

Formam um coletivo em que o poder de mobilização e de consciência não está em um lugar, não tem um centro, mas um princípio de ação. Tornar o dia a dia mais prazeroso só faz sentido com a presença do outro. São as demais pessoas que vão tornar os esforços agradáveis e cheios de significado.

Trabalho e desafio

Pensando nisso, Eduardo Morgado alerta: “É preciso apoiar os jovens no interesse de trabalhar uns com os outros, pois facilmente as metas e expectativas se tornam desencontradas.” Em seus mais de 20 anos à frente do Laboratório de Tecnologia da Informação Aplicada (LTIA), da Unesp de Bauru (SP), Morgado foi corresponsável por desenvolver a metodologia de aprendizado por desafios, um modelo de interação para chegar a projetos a partir de ações em grupo, contribuindo com a ideia do outro.

“Para chegarmos a modelos conceituais, produtos e serviços inovadores, precisamos atuar em equipe, em coletivo. Com a perspectiva de que somente em colaboração chegaremos a algo novo”, conta. “No laboratório, o aprendizado por desafios faz com que as questões emocionais interajam com as perspectivas de criar conhecimento. Isso ajuda a estudar, a trabalhar e a viver melhor. Os estudantes querem aprender a conviver e a conversar com mais pessoas. Falta isso. Querem mais amor. Isso também falta”, assegura Morgado.

Nas artes

Do ativismo socioambiental para as práticas de inovação tecnológica, até chegar às artes, tem sido um diálogo de propósito e construção de interesses em comum. Nas artes isso também é algo essencial, conta Isabel Pinheiro, galerista e orientadora de projetos artísticos. “A maioria dos artistas plásticos e visuais tem a percepção da importância de trabalhar com os outros, como decisivo para que aconteça algo impactante e original”, diz ela.

Izabel, na interação com o outro, precisa construir relacionamentos a todo instante. “Ao longo do tempo, houve uma mudança na conversa: as novas gerações tentam aprender a trabalhar entre si. E isso só é possível quando existe um que olha o outro, que ouve o outro, que reconhece o outro, que aceita o outro como o outro é e quer ser”, diz.

O trabalho em grupo e a criação de ações coletivas fazem parte de todas as esferas sociais. Nos grupos criativos, trabalhar junto é um entendimento que pode levar meses de interação. Quando começou a preparar o espetáculo de dança Silêncios, em 2018, a diretora Marina Nogaeva Tenório pretendia colocá-lo em pé em três meses. Ao longo do percurso, ao lado de mais três bailarinos, o processo de aprofundamento se intensificou e o grupo resolveu seguir criando o espetáculo por mais 14 meses.

A ideia do outro

“É comum, quando se começa a trabalhar com uma ideia levada para o grupo, que a expectativa se transforme. Tem-se uma compreensão, que acaba se modificando pela participação das pessoas”, diz Marina.“Para começar a criar é preciso estar amigado da ideia. Isso leva tempo. A presença de mais gente revelou novas dimensões do trabalho e despertou uma grande vontade de todos de explorar essas descobertas.”

Quem colocou a ideia do outro no centro do trabalho foi também a artista Carolina Paz. “Há alguns anos, tenho sentido que meu trabalho está nas relações, contatos e afetos. O objeto de arte, a instalação e o contexto artístico são como um pretexto, uma oportunidade para que essa aproximação aconteça de uma forma especial, poética. Cada pessoa é única e a forma como participa também é.” Carolina é cientista social, mas seu olhar de artista transborda para as artes.

Fazer juntos

Desde que decidiu incluir o outro em seus projetos, a obra em si parece ter tomado outra dimensão. A aceitação, a participação e a conversa acontecem de forma espontânea, e os projetos tendem a ser porosos e generosos ao outro. “As pessoas são mais que bem-vindas, e isso gera uma participação engajada e intensa.”

Seja nas artes, na tecnologia, nos grupos coletivos ou nas ações do dia a dia, a importância está em perceber que a vida, como se apresenta hoje, depende não só da gente, mas do outro, do outro e do outro. E esse fazer junto, no fundo, nem é só sobre a gente mesma, mas sobre a nossa manutenção no mundo – o equilíbrio de um faz o equilíbrio de todos, e vice-versa.


ANDRÉ RESENDE é escritor e psicanalista. Autor de diversas peças de teatro e de livros. Sua obra mais recente é Penélope Africana.


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