Como usar a bike no dia a dia

  • TEXTO Adriana Marmo
  • FOTOGRAFIA Chris Barbalis | Unsplash
  • DATA: 23/02/2019

Além de ser um jeito mais econômico e saudável de chegar ao seu destino, pedalar lhe traz uma sensação nostálgica de infância e de liberdade e muda (para melhor) sua relação com a cidade

Tinha mais de 13 anos quando aprendi a pedalar. Andei pouco e só fui retomar aos 22 anos, quando morei em Roma. Lá, descobri que a bicicleta pode ser um meio de transporte econômico e divertido. Mas, por mais que gostasse, abandonei o hábito quando voltei para o Brasil, em 1994. Eu acreditava que São Paulo não era para ciclistas. Só mudei meu ponto de vista em 2012, por empenho de uma amiga, que me arrastava para a ciclovia do rio Pinheiros e depois, aos poucos, foi me colocando na rua. Mês que vem, vai fazer quatro anos que vendi o carro para só ficar com a bike. E, quando vi meu carrinho indo embora, entendi que a revolução já estava feita.

Essa revolução, na verdade, começou em agosto de 2014, quando decidi fazer tudo de bicicleta, mesmo com o carro na garagem. A confirmação de que eu estava fazendo a coisa certa veio na noite em que voltei para casa sozinha pela primeira vez. Fui a um bar encontrar duas amigas, tinha chovido e eu estava com muito medo. Mas, ao pedalar para casa, por volta de meia-noite, me dei conta do quanto a cidade fica brilhante e cheia de cores quando está molhada. Segundos depois, percebi que eu não estava mais sentindo medo. Não vi os “monstros” que imaginava existir e senti que São Paulo é uma cidade possível. Em menos de um mês veio a constatação: a bicicleta aumentou a minha mobilidade, felicidade e fé na vida.

Hoje, preciso de bem menos para viver. Gastos com combustível, manutenção e impostos foram banidos das despesas. A rua ganhou outra dimensão: conquistei intimidade com meu bairro, com as pessoas e os animais e já entendi os ciclos das árvores. Passei a reconhecer algumas avenidas pelo cheiro, saber o horário pelo som e avaliar a velocidade pelo vento que bate no rosto. Reconheço que não é uma mudança fácil, mas é possível. A prova é que atualmente os caminhos são mais legais que os destinos. E não tem volta! Ai, juro que não queria tocar neste assunto, mas não resisto: bicicleta também emagrece e deixa as pernas lindas!

Um passo a passo para você começar:

A bicicleta
Para começar a pedalar, aquela bicicleta encostada na garagem é perfeita. Basta uma revisão. Com o tempo, as necessidades vão aumentando, especialmente para carregar livros, bolsa, compras de supermercado etc. Existem vários modelos e, além de escolher o que melhor se adapta às suas necessidades, é essencial optar por uma bike do seu tamanho. Vá em várias lojas, onde os vendedores poderão ajudá-lo na escolha. Além de itens obrigatórios de segurança, como luzes dianteiras e traseiras, retrovisor e campainhas, há duas peças que considero fundamentais: para-lamas e bagageiro. O primeiro evita que a água suja da rua salpique você. Já o bagageiro é onde dá para acomodar a bolsa, o alforje, a caixa para compras e tudo o mais que a sua capacidade de fazer gambiarras permitir. Em gambiarras, aliás, a gente vai ficando craque!

 

Suor, como lidar?
Muita gente imagina que ir pedalando a um compromisso é sinônimo de chegar ao destino feito uma imagem milagrosa de santo vertendo água. Essa é uma das desculpas que impedem a maioria de subir na bike. A tática para suar menos é pedalar devagar e fazer paradas para tomar água e baixar a temperatura. Com o tempo e o condicionamento, a velocidade vai aumentando e o suor reduz. O “suador” de verdade acontece quando a gente para. O segredo é aceitar que o corpo está trabalhando para equilibrar as funções e que isso vai passar. Nessa hora, o melhor é ficar parado, respirando e, se necessário, secar o excesso com uma toalha. Há quem que leva uma blusa extra  para trocar. E, se você já está pensando que vai chegar fedendo, saiba que boa parte dos ciclistas costuma tomar banho antes de pedalar, ou seja, é um suor limpo e sem cheiro.

Beleza
Para as mulheres o cabelo pode ser um drama. A combinação suor com capacete, de fato, não rende o mais belo dos penteados. Assim como a maquiagem, que pode durar menos ou borrar. A primeira questão é que o mundo está mudando e nosso referencial de beleza também precisa seguir o mesmo ritmo. Ao mesmo tempo em que a aparência pode não estar impecável, o bem-estar por chegar pedalando transforma a cor da pele e o brilho nos olhos. Eu continuo usando filtro solar, o mesmo rímel lavável e batom mate. Incluí um sérum cheio de ácidos e vitaminas para combater os agressões da poluição e do sol e também um cuidado extra na limpeza do rosto. Um lenço amarrado na cabeça absorve o suor e impede que o capacete deixe marcas, assim como elásticos, grampos e finalizadores podem ajudar a mudar a história dos seus fios.

Manutenção
Antes mesmo de aprender a dirigir, meu pai fez questão de ensinar as filhas a trocar o pneu, onde se coloca água, onde se vê o nível do óleo e abrir o tanque de gasolina. Isso me deu autonomia. Por isso, assim que adotei a bicicleta como meio de transporte, repeti os ensinamentos. Há várias maneiras de aprender o básico, que é trocar pneu, remendar a câmara, colocar e consertar a corrente, além de regulagens de freio e marcha. Em São Paulo existe o Mão na Roda, uma oficina colaborativa onde, em dois endereços, estão disponíveis ferramentas, estrutura e ciclistas experientes para estimular os novos a consertar as suas bicicletas. Além disso, existem cursos e sites muito legais que podem ajudar. O meu preferido é o Chave 15, que está repleto de tutoriais para resolver o básico das bicicletas

Ladeiras
Assim, de longe, elas são desanimadoras. Algumas, de perto, são menos duras do que parecem. Eu moro em um dos bairros mais acidentados da cidade e precisei logo achar uma forma de me relacionar com elas. Uma maneira é criar caminhos alternativos. É impressionante o que isso faz a gente descobrir a cidade, especialmente em tempos em que wazes e googles da vida vão tirando a noção e a capacidade de se criar os próprios trajetos. Depois de conquistar condicionamento, subir uma ladeira deixa de ser uma missão impossível, além disso há a possibilidade, honrosa, de empurrar a bike. Outra alternativa interessante e que, em países da Europa, está ganhando espaço são as bicicletas com pedaladas assistidas, as chamadas elétricas. Com elas, as longas distâncias e as subidas ficam infinitamente mais fáceis de ser superadas.

Com que roupa
Muita gente imagina que ir de bicicleta ao trabalho significa adotar para sempre o uniforme de ciclista. Não, não e não. Para tornar um meio de transporte prático, o ideal é sair de casa com a roupa com que você deseja chegar ao destino. Dá, sim, para andar de bicicleta vestindo saia, vestido, calça, terno, jeans, short… E calçando até saltos altos. Tudo é uma questão de testar alternativas até achar a melhor solução individual. Há  ciclistas que preferem sair de casa de bermuda e camiseta para vestir-se no destino, especialmente quem trabalha em empresas que tenham chuveiros para os funcionários. Mas ninguém precisa mudar o guarda-roupa porque começou a pedalar. É certo que, com o tempo, você vai preferir as roupas de algodão, as peças que tenham bolsos, mas a maior parte do que existe em um armário está ótimo para pedalar.


Deixa chover
Umas das maiores alegrias é pedalar na chuva, especialmente se você está voltando para casa. É uma felicidade infantil. Ir a um compromisso é sempre mais complicado e desconfortável, mas também é possível. Cada ciclista encontra o seu jeito. O que melhor funciona para mim é sair de bermuda com uma capa de chuva tipo casaco com capuz, levar roupa extra e toalha. Para quem prefere sair até mesmo sob um “pé d’água” existem as capas que formam uma espécie de cabaninha para o corpo do ciclista e seus pertences. O problema é que você sempre vai chegar molhado, neste caso por conta do suor. Vale sempre a pena em dias de chuva, mesmo que fraca, levar roupa e sapatos extras. Aliás, manter os pés secos é fundamental e aqui vale a tecnologia no melhor estilo Organizações Tabajara: calce saquinhos de supermercado.


Os carros
A malha cicloviária está crescendo. Mesmo assim é preciso dividir a rua com os carros. Dá medo, mas é possível! A discussão sobre a expansão das ciclovias trouxe um ótimo efeito colateral: os motoristas estão mais atentos e cuidadosos. Ter feito o curso que a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) oferece a distância foi um ganho, pois entrei em contato com a lei e aprendi onde o ciclista pode estar. Em 2015, a Prefeitura de São Paulo lançou a cartilha do ciclista, leitura obrigatória para quem deseja ir de bike. Mas decisivo mesmo foi a assessoria do Bikeanjo, projeto no qual ciclistas experientes ajudam os que estão começando, desde a aprender a pedalar até escolher os melhores caminhos e como se comportar na rua. Com um bikeanjo aprendi também a regra de ouro: o maior cuida do menor, portanto o pedestre é sempre prioridade.


Aplicativos
A tecnologia em alguns casos é uma mão na roda. A seguir, alguns aplicativos que podem ajudar:

strava – um dos mais populares, monitora deslocamentos, informa velocidade média, distância, altimetria, trajeto, batimentos cardíacos e calorias queimadas.

bicidade – traça rotas e sugere mapas com caminhos alternativos para evitar zonas de risco, como pontes e viadutos, na capital paulista. Também informa o nível de inclinação das subidas e a opção de evitar caminhos íngremes.

google maps – a versão para bicicletas ainda não está 100% e há quem reclame de ter ido parar em uma escada. Mas ainda é uma das alternativas para traçar rotas.

ADRIANA MARMO também viaja com a bike. Ela conta seu dia a dia e outras aventuras no blog ventonasaia.com


TAMBÉM QUERO COMENTAR

Campos obrigatórios*


VEJA TAMBÉM