Poesia para libertar o silêncio

  • TEXTO Débora Zanelato
  • FOTOGRAFIA Neel | Unsplash
  • DATA: 03/05/2019

Uma poesia que se inspira no silêncio para rompê-lo e ganhar escuta. Foi no silêncio imposto que Louise Queiroz criou seus versos. Jovem, negra, lésbica, baiana e candomblecista, a poeta e estudante de letras lança seu primeiro livro de poesias, girassóis estendidos na chuva (ParaLeLo13S). Em tempos tão duros mas também de tanta reflexão por equidade e igualdade, Louise faz da sua poesia sua voz. “Porque o meu corpo é um corpo político, o meu corpo é esse corpo indócil. E isso é resistência. A poesia me faz ser poeta e ser uma mulher negra lésbica e poeta é resistência”, ela diz. girassóis estendidos na chuva traz a expressão dessa mulher que também representa tantas outras, recorda suas memórias e sua história e ecoa, em nós, toda a complexidade de ser nesses tempos atuais.

Louise Queiroz: seus poemas trazem a voz da mulher e honra sua ancestralidade


Os poemas trazem esse lugar de silêncio, de escuta. Por que o silêncio como inspiração?
Eu explico: como o silêncio não atravessaria minha escrita se ele sempre atravessou meu corpo?  Desde a minha infância eu sempre fui muito calada, muito silenciosa, muito ‘pra dentro’. Mas, além de silenciosa, eu fui silenciada de diversas formas. A minha infância não foi fácil e eu encontrei na escrita uma maneira de ressignificar e transformar essas dores em alguma coisa que – como diz a escritora Audre Lorde em A transformação do silêncio em linguagem e ação – não me desse um soco dentro da boca.  Por esse motivo, não haveria como falar da minha voz, da minha escrita, sem falar de tudo que a atravessa.  O silêncio, para mim, não é só aquilo que está além da boca, ele pode estar fazendo sentido e significando em outros lugares – às vezes como conforto, noutras como prisão – e produzindo nas próprias palavras os ecos dos trânsitos internos.  Estar em silêncio me coloca em um movimento de escuta e nesse ponto, o silêncio é conforto, é sabedoria, e é uma escolha. Mas, o silêncio que me foi imposto desde muito cedo, que me fez acreditar que minha voz não merecia ser ouvida, esse sim aprisiona e por isso precisa ser rompido.  E, claro, é sim necessário e importante romper justamente o eixo onde o silêncio aprisiona, mas sabendo preservar o ponto onde ele é conforto.

 

Sua poesia é também voz da mulher negra, baiana, mulher, lésbica. Como você se vê neste lugar e o que é ser você nos tempos atuais?
É muito difícil ser eu nos tempos atuais. São tempos cortantes, são tempos em que não há um só dia em que eu acorde e não me depare com uma notícia que me faça lembrar que meu corpo está numa posição de extrema vulnerabilidade e cada vez mais sendo empurrado pra esse lugar.  Mas, não dá pra deixar de ser o que sou e por isso a gente vai buscando estratégias para – tentar – contornar essas dores e se manter firme.

 

A gente tem falado tanto de honrar a ancestralidade, o feminino, e como isso se reverbera na sua poesia?
Não há como dissociar o que eu escrevo do que o que eu sou. A minha escrita é totalmente atravessada por todos esses trânsitos. Primeiro porque eu só estou aqui neste lugar, porque muitas mulheres vieram antes de mim e possibilitaram que eu estivesse aqui. A minha poesia é também uma forma de reverenciar e manter vivas essas mulheres, assim como é também uma forma de continuar mantendo os caminhos abertos para que outras possam também trilhá-los.

 

O que a publicação do seu primeiro livro representa para você?
Esse livro é resultado de um processo muito longo e delicado de maturação. A ideia do livro surgiu com uma proposta. Recebi de Milena Britto, editora e amiga, uma proposta para um projeto e entre muitas conversas e maturação surgiu o esboço do livro que foi sendo cuidadosamente lapidado. Foram quase dois anos num processo de escrita, reescrita, leituras, releituras, esperas e silêncios. Escrever esse livro me colocou diante de “minha própria cara” e dos meus medos, dos meus limites. Estive durante esses quase dois anos em um exercício de aprendizado, descobertas, estudos e muito cuidado.
Tocar o livro pronto, folhear e saber que logo mais essas palavras e caminhos estarão sendo descobertos por outras pessoas é colocar o meu corpo em evidencia e também colocar outros corpos como o meu em movimento junto comigo, afinal como diz Angela Davis “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.  Por isso, a concretização desse trabalho é tão importante – claro, não só para mim.


girassóis estendidos na chuva
Louise Queiroz
Editora ParaLeLo13S
76 páginas
R$35


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