Não espere pelos outros, valida-te!

  • TEXTO Gisela Garcia
  • FOTOGRAFIA Gomides Manduca
  • DATA: 06/05/2021

Nesta entrevista, a psicóloga Tatiane de Sá Manduca explica a importância de sermos validados pelos outros. Porém, ela ressalta que não podemos esquecer que também devemos validar a nós mesmos.

No nosso dia a dia é muito comum ficarmos confusos sobre o que sentimos ou pensamos. Quando entra em campo a relação com os outros, a confusão pode ser ainda maior. Porque além de precisarmos administrar o que sentimos, precisamos também da compreensão e da empatia do outro. Esse processo chama-se validação. Quando o que sentimos ou pensamos é validado pelo outro, aumentamos a compreensão de nós mesmos e a nossa identidade ganha contornos mais definidos. Validar o outro significa reconhecer, respeitar e valorizar os seus sentimentos. Validar quer dizer que eu não acho que o que o outro sente é bobagem, exagero ou frescura. Mesmo que a minha maneira de sentir ou ver uma situação seja diferente, validar é não desqualificar o sentir do outro.

Conceito caro nos processos de psicoterapia, a validação — ou a falta dela — pode ter um grande impacto na nossa vida — principalmente na infância, fase determinante do nosso desenvolvimento. Porém, mais do que sermos validados, precisamos também validar a nós mesmos. A psicóloga Tatiane de Sá Manduca que acaba de lançar o livro Valida-te (Literare Books), reforça a sua importância e aponta os caminhos para a autovalidação.

O que é autovalidação?

Significa reconhecer quem você é, reconhecer a sua história. Quando a gente começa uma terapia, quando falamos com o outro — no caso o terapeuta — a gente se escuta também. E esse é o começo da jornada da autoaceitação.

De onde veio a ideia para escrever sobre esse tema?

Quando me tornei psicóloga sentia uma inquietação enorme, e pensava: “e se mais pessoas pudessem ter acesso à terapia, se pudessem ter a chance de olhar para si mesmas como algo novo? Então pensei em escrever um livro que pudesse ajudar as pessoas. Sempre tive vontade de escrever algo sobre isso.

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Paola Aguilar (Unsplash)

Validar-se seria reconhecer seus desejos e seus defeitos e, então, mudar?

Sim. A gente não aprendeu a lidar com as nossas angústias. Vamos deixando essas questões de lado, até que a “coisa explode”. Não é à toa que temos tanta gente tomando remédios, sofrendo com depressão, ansiedade. A cura da angústia pode se dar através da verbalização das nossas questões, de falar com o outro e se enxergar através do outro.

No seu livro, você fala de aceitação como o primeiro passo para um processo de mudança. Por que é tão importante esse primeiro passo de se aceitar, de aceitar a própria história?

Conhecer e aceitar sua trajetória é reconhecer-se constituído pela sua história. Validar-se é, além disso, viver a sua autenticidade. Todos temos sofrimentos escondidos. A gente sabe dessa dor, mas não quer aceitar. Quando o processo de aceitação começa, a primeira coisa que acontece é reconhecer que existe um problema. E a partir disso, começa a “cura”.

Então, a aceitação é um processo doloroso, mas inevitável?

Sim. E todos nós temos uma bagagem emocional para carregar. Isso tem a ver com as primeiras experiências de amor, no jeito de amar. Todas as nossas experiências de vida compõem nossa história e moldam nossa personalidade. Entrar em contato com as experiências mais difíceis é o início de uma travessia de autoconhecimento. Então é preciso entender de que forma nossa história e a carga emocional que ela carrega nos faz repetir padrões de relacionamentos.

 

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Afif Kusuma (Unsplash)

Valida-te é um livro de histórias, narrativas que acontecem em sessões de psicoterapia. Por que você optou por esse formato?

Eu queria que o Valida-te fosse exatamente isso: um livro de histórias. Que não fosse para acadêmicos e que mostrasse um pouco sobre como é o dia a dia em uma clínica. Eu quero democratizar a terapia. E acho que assim, é possível abranger um público muito maior, porque aumenta as chances de mais pessoas se enxergarem nas histórias. Porque posso falar de vários temas, mas quando a pessoa se vê no que estou falando, é mais fácil o entendimento.

Os personagens são inspirados em histórias reais? Essas pessoas existem?

Na verdade, são personagens mesmo, inspirados na clínica psicológica, na minha vida cotidiana. Criei seis personagens com inspirações na psicologia clínica porque queria que as pessoas se vissem nesses personagens.

O primeiro caso do livro, por exemplo, é a Danila, um relato da violência contra a mulher. Tem a história do Dado, um rapaz que foge dos relacionamentos por medo de se aprisionar. A Dona Flora, uma senhora que ficou viúva e tenta resgatar um amor da juventude.

A percepção de que temos que nos aceitar aumentou com a pandemia? Tem mais gente procurando isso?

Aumentou. Eu vejo na minha clínica — que é um espelho da sociedade — que as pessoas começaram a buscar ajuda após perceberem alguns sintomas. A hiperconvivência em relações conjugais, por exemplo, fez muitos casais perceberem que tinham questões a resolver. Às vezes viviam um relacionamento morno, não existia mais convivência, só se viam a noite. A pandemia colocou todo mundo dentro de casa e aumentou o convívio. Foi então que muitos casais perceberam que tinha algo acontecendo e que não era possível fugir. Tinham que resolver. Muitos conseguiram resolver, outros não, e se separaram.

E quando falo que as pessoas começaram a lidar com sintomas, faço uma analogia: muitas vezes a gente espera começar a chover para consertar o telhado. A dor já pode ser sentida no corpo. É quando começa o aperto no peito — quando não se consegue mais dormir, quando não se suporta mais — busca-se ajuda.

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Noah Silliman (Unsplash)

Por que as pessoas tendem a “escapar” desse caminho para dentro?

Porque o mundo nos oferece “quase tudo” para que não precisemos lidar com as nossas angústias, com as nossas faltas. Será que a nossa sociedade, que dá valor a aparência — com os seus variados filtros e selfies — não está nos orientando a “mascarar” nossas dores. Será que ela não impede de legitimar nossos afetos tão comuns e inerentes à nossa maneira de ser? Temos que pensar nisso.

As selfies…

Sim, as selfies nas redes sociais é uma forma de buscar a validação do outro. É uma questão de autenticidade, que vem sendo citada como um dos segredos para a visibilidade nas mídias online.

Mas o que é ser autêntico, afinal?

É ter coragem. Coragem de não seguir roteiros prontos, ou desejos alheios. Entender quem nós somos diante das nossas histórias. É dar verdade ao que a gente é. A gente se preocupa muito com o que o outro enxerga da gente. A gente é o que a gente é. E precisa legitimar essa nossa subjetividade tão única. Porque só eu tive as minhas experiências, minhas histórias, amores, lutos. Isso tudo é um arsenal de quem eu sou. Por que estamos, o tempo todo, esperando a validação do outro, se podemos enfrentar com coragem nosso vazio enquanto caminhamos rumo à descoberta e à aceitação de nós mesmos?


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