Eu também, passarinho

  • TEXTO Diana Silva
  • DATA: 26/06/2020

O amor é o que nos faz seguir cantando, ainda que de dentro da gaiola, sem perder a esperança de poder voltar a voar

 

Da minha janela não vejo prédios, não vejo ruas movimentadas, não vejo pessoas circulando pelas ruas. Mas vejo o céu e vejo pássaros enfeitando os fios enquanto tomam banho de sol.

Há alguns dias comecei a deixar frutas na varanda, um convite para que eles me visitassem. Sempre me senti mais viva em meio à natureza. Qual não foi minha surpresa ao acordar e ver que não só aceitaram meu convite, mas que também fizeram da minha varanda um lugar de passagem ao longo do dia.

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Desde então, temos um encontro marcado no café da manhã e da tarde, eu com meu café e uma fatia de bolo, eles com as frutas. Eu os observo da minha janela enquanto brincam com as frutas, os assisto alçar voo quando se cansam de ficar no chão; livres e leves.

Ficamos próximos, mas separados pela janela da minha cozinha. Respeito essa distância necessária para que eles fiquem confortáveis em me visitar. Proximidade demais (ao menos nesse momento em que ainda estamos nos conhecendo) poderia assustá-los. Prefiro poder vê-los de longe do que não vê-los mais.

Deixar de voar

Me pego pensando naqueles que vivem em gaiolas, vítimas de quem acredita que é preciso aprisionar o que é belo para tê-lo por perto. Me identifico com o sentir-se aprisionado já que nesse momento eu também não posso voar.

Também me sinto a mercê de algo mais forte do que eu, que me ameaça com a perda da vida, a minha e a de quem eu amo. Posso viver nessa gaiola, posso até cantar aqui de dentro, mas não posso deixar de querer voltar a ser livre e leve para escolher aonde ir.

Ontem a angústia também resolveu me visitar e, diferente dos pássaros, ela decidiu ficar mais um pouco. Pensei nas vidas perdidas lá fora, transformadas em números e estatísticas. Pensei na vida aqui dentro, impotente e vulnerável.

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Através de outra janela, dessa vez a tela do celular, me chegam outras visitas. Mensagens de amigas queridas que, apesar de estarem em meio ao mesmo turbilhão, conseguem me oferecer palavras de carinho para dizer que estão comigo; mesmo de longe, assim como eu e os pássaros, a uma janela de distância. Mas perto o suficiente para oferecer amor.

No final do dia e das contas, o amor é o que nos faz seguir cantando, ainda que de dentro da gaiola, sem perder a esperança de poder voltar a voar.


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Ao olhar para nossas emoções, compreendemos que a estabilidade é um empenho permanente. O caminho para harmonia surge quando estamos bem com nós mesmos.



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