Meu filho não quer fazer nada
Preguiça, rebeldia ou um pacto secreto com o universo? (E eu me pergunto: e se ele estiver certo?)

Têm dias em que olho para meus filhos espalhados pela casa, corpos relaxados, olhos perdidos num ponto qualquer do teto, e me pergunto se estão num momento de reflexão profunda ou se simplesmente descobriram o grande segredo da vida: não fazer nada é bom pra caramba.
Não à toa que um dos mais famosos ditados italianos é dolce far niente (doçura de não fazer nada, traduzindo da cultura e culinária: a inação tem o poder de gerar o mesmo prazer que um doce causa em nosso paladar).
A gente cresce acreditando que estar ocupado é sinônimo de estar bem. Que produtividade é um tipo de moralidade. Que quem acorda cedo, arruma a cama e preenche todos os espaços do dia com atividades úteis vai, de alguma forma, alcançar uma vida mais plena. Então a gente se torna mãe e começa a achar um absurdo que nossos filhos não compartilhem dessa urgência. (Leia também Heranças Invisíveis)
A economia do esforço
Parece preguiça. Parece desafio. Parece uma missão secreta para testar nossos limites. Mas, e se for só cansaço?
O que chamamos de “preguiça” pode ser muita coisa. Pode ser um cansaço físico real porque, apesar da nossa tendência de romantizar a infância, ser criança ou adolescente dá trabalho e “cansa” crescer. O corpo está em constante transformação, a escola exige mais do que deveria, as emoções transbordam. Pode ser que o cérebro deles, ainda aprendendo a lidar com o mundo, tenha decidido que o melhor uso do tempo é ficar olhando para o teto.
E pode ser também uma resistência de um corpo que se recusa a entrar na lógica produtivista, que diz que só merece descanso quem já se exauriu. Um adolescente que simplesmente não vê sentido em dobrar roupas porque, daqui a dois dias, elas estarão bagunçadas de novo. Uma criança que ainda não entendeu porque brincar precisa acabar para que o quarto fique organizado.
Entre a cobrança e o abandono, o espaço para a descoberta
A gente quer que eles aprendam sobre responsabilidade. Que entendam que viver em grupo significa dividir tarefas. Que compreendam que o cansaço do outro também importa. Mas será que ensinamos isso com palavras ou com olhares impacientes?
É insuportável conviver com alguém que nunca se responsabiliza por nada. Mas também é triste demais ser criado num ambiente onde o tempo inteiro alguém diz que você deveria estar fazendo outra coisa.
E, no meio desse cabo de guerra entre “faça alguma coisa” e “me deixa em paz”, a gente mal percebe o que está deixando de fazer. (Mais sobre o assunto em Me dá um tempo…)
O tempo, o esforço e o desgaste
Quanto tempo gastamos cobrando, exigindo, corrigindo? E quanto tempo realmente passamos ali, do lado deles, apenas existindo juntos?
A gente pergunta “fez o dever?”, mas não pergunta “esse livro tá interessante?”.
A gente reclama “larga esse celular!”, mas não se interessa pelo que eles estão vendo.
A gente diz “arruma esse quarto”, mas não se deita um pouco ali pra ouvir sobre o dia.
Ficamos presentes, ausentes. Nossa energia está ali, mas nosso olhar, nosso afeto, nossa escuta não. E depois nos perguntamos por que eles preferem os fones de ouvido, o videogame, o celular. (Sugiro ler também O tal do Tempo)
Qual o valor do tempo você está ensinando?
Talvez, no fundo, a pergunta mais importante não seja como eu faço meu filho fazer as coisas?, mas sim o que estamos ensinando sobre o valor do tempo?. Estamos dizendo que a vida é uma sequência de tarefas a serem cumpridas? Que tudo precisa ser funcional? Que existir tem que ser útil?
Ou estamos ensinando que há espaço para o esforço e há espaço para o descanso? Que cuidar do que é nosso é bom. Que contribuir pode trazer prazer. Que fazer junto é melhor do que obedecer.
Porque, no fim, o que fica não é a obrigação de arrumar o quarto ou o peso da cobrança eterna. O que fica é o sentimento de pertencimento, de colaboração, de equilíbrio entre o fazer e o ser.
E se você (se) permitir o tempo do ócio?
Talvez seu filho continue jogado no sofá. Talvez amanhã ele resolva arrumar o quarto sem que você peça. Talvez nunca aconteça. Mas se ele aprender que seu tempo tem valor, que a vida não é só produção e que descanso não é crime, já é um bom começo.
E se, no meio disso tudo, você também lembrar que estar ali, de verdade, com ele, vale muito mais do que qualquer tarefa cumprida, então talvez sejam os dois aprendendo juntos.
Obrigada por estar aqui e até o mês que vem!
Para ler: Eu escrevo todos os meses em Vida Simples, mas se você quer acompanhar conteúdos que não aparecem por aqui, eu mantenho uma curadoria do que escrevo em meu site Correnteza no Substack.
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