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Agrotóxicos: como evitar o consumo de alimentos contaminados?
Kelly Sikkema

Os cuidados com a alimentação sempre foram uma preocupação antiga desde os nossos parentes mais distantes, seja na busca pela carne fresca quando o Homo erectus era a espécie predominante, ou no cultivo e manejo da agricultura, milhares de anos depois, quando o ser humano decidiu se fixar em pequenas comunidades e povoados.

Séculos de história, revoluções industriais e um período que marcou a agricultura mundial conhecido como “Revolução Verde” (1960) foram marcos para mudanças profundas que impulsionaram o desenvolvimento e fortalecimento do que conhecemos hoje como agronegócio. A partir daí, os agrotóxicos se tornaram centrais para o cultivo de alimentos e considerados fundamentais para a sobrevivência humana em diferentes sociedades.

O que isso quer dizer? Os agrotóxicos surgiram a partir da década de 1960, na Guerra do Vietnã. Eram substâncias utilizadas primeiramente para a guerra, depois essa tecnologia foi reaproveitada e recolocada no mercado como a salvação da agricultura“, explica Alene de Godoy, geógrafa, agricultora e criadora de conteúdo nas redes sociais. 

Apesar dos debates e preocupações em torno do consumo de substâncias utilizadas para o cultivo, o Brasil foi se consolidando aos poucos como um dos principais consumidores de pesticidas do mundo. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, o país despeja hoje mais de um milhão de toneladas de agrotóxicos anualmente, cerca de 5 litros por habitante. As substâncias acabam contaminando o solo e os rios, que, por serem interligados, levam os resíduos para diferentes localidades e chegam até o ser humano de forma direta, em frutas e vegetais, ou indireta, no consumo de água e animais, que acumulam as substâncias ao longo da cadeia alimentar.

Quais as consequências dos agrotóxicos nos alimentos?

Apesar do uso de agrotóxicos ter sido consolidado, as consequências e problemas decorrentes da contaminação por pesticidas podem se manifestar de diferentes formas. Em excesso no organismo, os principais sintomas são irritação na pele, ardência, desidratação, alergias, tosse, dor no peito, dificuldade para respirar, dor no estômago, náuseas e vômitos.

“Isso se deve ao fato de que esses elementos são estranhos e tóxicos (como o próprio nome sugere) ao corpo humano, e precisam ser eliminados do organismo após ingeridos, o que pode alterar diretamente nossa saúde intestinal, hepática, renal e hormonal, trazendo inflamação, desvitalização e as mais diversas alterações fisiológicas“, é o que explica Bruna Frasquetti, nutricionista holística.

A profissional alerta para a forma como os alimentos afetam a nossa saúde a partir das emoções e das sensações que desenvolvemos durante a alimentação, o que pode nos nutrir ou adoecer, dois caminhos diferentes. “O medo de se alimentar e o cultivo de pensamentos em prol de uma alimentação ‘100% pura’ poderá ser tão ou até mais tóxico para nossa saúde“, acrescenta Bruna. A chave, segundo ela, é buscar um consumo responsável e baseado na própria realidade, com os recursos e ferramentas disponíveis naquele momento.

Além disso, os processos de perda da biodiversidade do solo são os principais efeitos aparentes que podem surgir na lavoura, o que leva, aos poucos, à morte do terreno. “No nosso país, o solo que temos não dá para fazer magicamente, é um processo de milhões e milhões de anos. Ele possui uma forma correta de manejo que não é respeitada pelos grandes latifundiários”, explica Aline de Godoy, que usa práticas agroecológicas no cultivo de frutas, verduras e hortaliças.

Outro ponto importante é ficar de olho em quais alimentos contêm uma maior presença de agrotóxicos, assim, conseguimos listar quais podem afetar de forma mais intensa a saúde humana e precisam ser substituídos por produtos orgânicos ou similares.

A Agência Pública e a Repórter Brasil, iniciativas de jornalismo independente, compilaram os dados do último relatório do Programa de Análises de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos com testes realizados em 2017 e 2018, e identificaram os alimentos com a presença de contaminantes acima do normal ou com uso de substâncias proibidas pela legislação ambiental. O pimentão, por exemplo, ficou no topo da lista, com o maior número de amostras com valor alterado, como você pode ver no quadro abaixo.

quadro com desenho de frutas e indicação das porcentagens da presença de agrotóxicos

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Alternativas à contaminação

A correria do trabalho e a facilidade do acesso a frutas e legumes no supermercado fazem com que a busca por alimentos mais saudáveis seja sempre colocada em segundo plano. Além disso, alimentos orgânicos e agroecológicos são mais caros e, por isso, ainda inacessíveis para grande parcela da população, que não consegue adquirir alimentos com uma melhor qualidade sanitária à preço justo. Uma das maiores críticas a essa elevação é a falta de financiamento dos governos à agricultura familiar e agroecológica, o que encarece o produto final.

Apesar do valor alto, os lucros acabam não sendo retornados para os produtores, como no caso de Alene, que critica a maior presença de atravessadores no processo de compra e o baixo valor pago aos agricultores.Hoje a gente trabalha com o PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar] e algumas vendas diretas, mas todo esse tempo que a gente está aqui [no assentamento] eu acho que a maior dificuldade é ter uma renda justa”, explica Alene. 

Ela, que conseguiu junto com o marido fundar um banco de sementes para manter a cultura alimentar da América Latina, explica que evitar o consumo de agrotóxicos, apesar de difícil, pode ser possível. Embora a presença de pesticidas possa estar na água, em alimentos industrializados e outros produtos alimentícios, há algumas alternativas importantes para uma alimentação mais saudável.

É possível remover os agrotóxicos dos alimentos?

É importante identificar o caráter integral da alimentação, ou seja, o que comemos está diretamente relacionado com nossos hábitos, questões financeiras, políticas públicas e manejo do solo. “Nos alimentamos também de todo o caminho percorrido até que determinado alimento chegue a nós. Basta uma visita a uma propriedade de alimentos agroecológicos, orgânicos ou biodinâmicos  para sairmos completamente nutridos por tudo que vemos envolver essa produção”, explica Bruna Frasquetti.

Segundo a nutricionista, o maior cuidado com o manejo, cultivo, colheita e distribuição, em integração com a natureza e os produtores, geram alimentos mais saudáveis e ricos nutricionalmente. “Isso se reflete em produtos não somente mais ricos em nutrientes, vitaminas e minerais, mais também em vitalidade, o que hoje, vem sendo inclusive mensurado por algumas técnicas científicas (como biocristalização e cromatografia, por exemplo)“, defende.

Para Alene, um dos pontos mais importantes é compreender a sazonalidade dos alimentos, a época em que cada fruta, legume ou verdura é mais propícia ao plantio. Se caju e manga são mais comuns nos meses de agosto, setembro e outubro, não faz sentido algum que eles estejam à venda em abundância nos outros meses do ano, o que significa um uso de agrotóxicos e fertilizantes para sustentar a produção fora de sua época natural.

Para Bruna, os alimentos orgânicos podem trazer maior vitalidade e uma saúde, física e mental, em maior harmonia com as nossas necessidades, o que ela chama de nutrição consciente. “Além de um produto fisicamente mais saudável, isento de toxinas e mais rico em nutrientes, o indivíduo que opta por consumir orgânicos sente-se mais cheio de vitalidade, pois de fato nossa estrutura vital se nutre, entre outros fatores, de alimentos cultivados de maneira mais natural”, explica a nutricionista.

qaudro branco com dicas sobre como remover agrotóxicos das frutas e verduras.

Por um sistema de agricultura sustentável

Sabe quando a gente vai ao supermercado e procuramos as frutas mais redondas, limpas, esterilizadas e bonitas das prateleiras? Parece até normal, mas deveríamos nos questionar cada vez mais sobre os fatores que fazem com que um alimento vindo da terra, que naturalmente pode ser disforme, apresentar curvas e algumas imperfeições, se torne esteticamente tão formatado.

Alene explica que muitas vezes esses alimentos passam por mudanças genéticas ou uso de produtos industriais durante o plantio para que tenham características X ou Y, o que não significa que sejam necessariamente mais nutritivos.

Do outro lado, o consumo de orgânicos vem crescendo no país e a oferta tem tentado atender à uma nova demanda de pessoas de diferentes classes econômicas que buscam algo em comum, uma alimentação mais integrada com a natureza. “Hoje encontramos com muita facilidade produtores que entregam caixas semanais, quinzenais ou mensais em casa com os produtos da época”, orienta Bruna Frasquetti. Outra iniciativa, segundo ela, é a CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura), que funciona em um sistema relativamente simples. Nele, cada consumidor (que é chamado que co-agricultor) faz uma contribuição mensal e recebe em casa uma cesta de alimentos orgânicos.

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E se você ainda está em dúvidas sobre por onde começar a reduzir o consumo de alimentos com agrotóxicos na sua mesa, comece com passos simples, como ir mais a feiras ou fazer uma pequena horta em casa. “Vá primeiro a feiras, converse com os produtores, peça sugestões de preparos com determinados produtos, depois, já em sua casa, prepare-os e consuma-os em presença, ou seja, olhando, sentindo a textura, aromas, sabores“, orienta Bruna.

A nutricionista conta que, se possível, visite propriedades, sítios que praticam agroecologia ou permacultura e se conecte com o lugar onde seu alimento é produzido. “Para nutrir-se em verdade, é preciso reconectar-se com a natureza que vive dentro e fora de nós“, conclui.

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