Uma reflexão sobre trabalho, relações e felicidade

  • TEXTO Nara Siqueira
  • FOTOGRAFIA Divulgação
  • DATA: 14/09/2019

Pedrinho Salomão, escritor e empreendedor, defende a ideia de negócios focados em pessoas e acredita que a felicidade mora no saber viver um dia de cada vez

Neto de sírios e libaneses, Pedro Salomão, ou Pedrinho, como gosta de ser chamado, carrega o bom humor e a paixão por pessoas no DNA. “Eu nunca fui o cara do intelecto”, diz. “Nasci em uma família de muitas mulheres, todas inteligentíssimas. Ao invés dos livros, minha praia sempre foram as relações. O olho no olho, o abraço, o calor humano”. Fundador da Rádio Ibiza e autor de Empreendendo felicidade e LYdereZ, ele se prepara para lançar Valor Presente: Um dia de cada vez,  no qual discute a importância de colocarmos toda a nossa presença no hoje. Entusiasta das perspectivas propostas pelos mais jovens, ele viaja o país estimulando empresas e profissionais a refletirem sobre o peso que estamos dando ao trabalho, de que forma estamos impactando a vida das pessoas e o que queremos deixar para as futuras gerações – tópicos que também foram tema desta conversa com Vida Simples. 

Seu primeiro livro chama-se Empreendendo felicidade. O que é a felicidade?

Ela é uma percepção do momento de presente. De como a gente pode, aqui e agora, ajudar as pessoas. Nós já tivemos épocas mais previsíveis, mas, atualmente, não fazemos a mínima ideia do que pode acontecer amanhã, no sentido de que as mudanças são muito, muito rápidas. Sendo assim, a única coisa que temos é o presente. E, se só sobra ele, pela primeira vez, estamos todos no mesmo nível. O que vale é a capacidade que cada um tem de lidar com o agora. 

 

Mas nem sempre ela foi vista como tal…
Para os nossos avós, a felicidade estava atrelada a coisas materiais. Trabalhava-se por trinta e cinco anos e, só depois da aposentadoria, começavam a desfrutar do que entendiam por uma boa vida. Com o dinheiro guardado, as pessoas compravam um carro, um imóvel. Durante esse tempo de trabalho, não se falava em propósito. Era levantar, cumprir as demandas do dia e voltar para casa, sem refletir sobre isso. As novas gerações não entendem a felicidade como material, mas como experimental. É sobre sermos quem quisermos ser, mas sempre olhando para o coletivo. 

 

Há uma corrente muito forte que diz que precisamos buscar um ofício que amamos, mas isso não é possível para todo mundo. Como, então, encontrar a felicidade na vida profissional?
O caminho para a felicidade não é fazer o que a gente gosta, mas colocar todo o amor que temos naquilo que fazemos. Fomos doutrinados a pensar que, para sermos felizes, deveríamos fazer só o que brilhasse aos olhos. Isso é tão egoísta. As pessoas querem encontrar todas as respostas no pensamento positivo, como se ele fosse o grande ponto de mudança. Acontece que, sozinhos, eles trazem inércia. Ao invés disso, eu aposto na força avassaladora das atitudes positivas. São elas que mudam o mundo, que transformam a vida dos outros. E o que são essas atitudes? Aquelas onde tem amor. 

 

Em suas palestras, você aborda bastante as visões de mundo adotadas pelas gerações Y e Z, que contempla as pessoas nascidas de meados da década de 1980 para cá. Por que?
Muitas vezes, elas são tidos como desfocadas e desinteressadas, mas são as primeiras a levantar uma discussão sobre o mundo que queremos deixar para aqueles que ainda virão, seja no campo ambiental, social ou político. Isso é incrível! Além disso, esses jovens viraram de cabeça para baixo o que entendíamos por líder. Gosto de citar o exemplo do serviço militar. Nós poderíamos ter aprendido muita coisa com ele, como foco, patriotismo, trabalho em equipe, mas extraímos a importância da patente. Aprendemos que liderança era um exercício de poder que se dava por meio das relações de hierarquia. Viemos de um racional no qual o empresário sempre sabe mais que o seu estagiário, mas isso não é verdade. Sabe mais em que sentido? O CEO de uma empresa se comporta como tal até na padaria, porque essa é a coisa mais importante da vida dele: o cargo. Se você precisa de todas essas siglas, você é chefe, dono, qualquer coisa, menos líder.  A liderança proposta por essa geração é completamente diferente. Os jovens não querem mais títulos, eles buscam uma dinâmica colaborativa, que olhe para pessoas, não para métricas.

 

Além da liderança, há uma nova reflexão sobre sucesso também?
Com certeza. Gosto de dizer que não existe sucesso profissional que justifique o fracasso familiar. E eu não me refiro à família só como marido, mulher, filhos e pais. Estou falando de relações, de quem temos e trazemos para perto. Se, para ter sucesso, você tem que abrir mão das pessoas que estão ao seu lado, você está caminhando para qualquer lado oposto a ele. Se, para ser alguém bem-sucedido, você deixa de ter tempo para escutar seus filhos, seus funcionários, tem alguma coisa errada. O foco não é no eu, é no nós.  

Sobre o olhar mais direcionado para as pessoas e não só para os resultados, você acredita que as empresas estão realmente engajadas nisso ou ainda é uma questão muito restrita ao discurso?
As empresas estão mudando, e falo isso pela minha experiência com elas. Há uns cinco anos, quando uma empresa me chamava para palestras, ela me passava um briefing, uma série de pontos que eu deveria tratar com mais cautela. Havia uma série de nãos: não diga isso desse jeito, não fale de tal tema. Hoje, o cenário é completamente diferente. Elas me convidam porque querem refletir junto. Por vezes, chego para ter uma conversa com os caras que lidam com perfomance, aqueles que são tidos como insensíveis, que não estão preocupados com essas discussões. Em 100% dos casos, ao término, eles me agradecem pela oportunidade de ressignificar o olhar. Muitos se emocionam. Todos precisamos entender a dinâmica das relações. A transformação já aconteceu, não tem como fugir dela. Só precisamos saber quem está acompanhando e quem está com medo. 

 

No próximo dia 17/09, Pedrinho vai compartilhar mais de seu olhar sobre felicidade, liderança e comportamento humano em uma palestra aberta ao público no Teatro XP Investimentos, no Rio de Janeiro. Mais informações e ingressos em: https://bileto.sympla.com.br/event/62155/d/71101/s/369766

 


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 223, setembro de 2020 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Colocar atenção no que é essencial em nossa existência é um caminho para viver de forma mais íntegra e verdadeira. Saiba reconhecer o que é mais valioso para você



TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*