Tricô no presídio

  • TEXTO Simone Cunha
  • FOTOGRAFIA Alex Palmer | Unsplash
  • DATA: 11/09/2019

Estilista Raquell Guimarães ensina detentos a trabalhar com lãs e agulhas, produzindo as peças de tricô existe a possibilidade de novos recomeços

Formada em moda, a mineira Raquell Guimarães é dona da marca Doisélles, especializada em tricô e crochê, técnicas que ela aprendeu com a mãe e a avó. E quem confecciona as peças são presidiários, que nunca trabalharam com moda. A ideia surgiu quando a demanda da marca aumentou e Raquell não encontrava mão de obra qualificada. “Procurei a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores de Juiz de Fora (MG) e sugeri montar meu ateliê em um presídio. Eu precisava de gente e os presos, de uma ocupação”, conta Raquell.

Inicialmente, ela treinou 40 detentos que, mesmo sem nenhuma experiência, assumiram o trabalho com comprometimento. “Para eles, é uma oportunidade de aprender um ofício, ocupar o tempo, ganhar um salário e diminuir sua pena”, ressalta. A atividade tem carga horária definida e também prazos de entrega. 

Ateliê de tricô

O ateliê conta com detentos que desenvolvem peças em tricô, crochê e macramê. Raquell supervisiona as tarefas, três vezes por semana e também treina os novatos. “É necessário uns 40 dias para ensinar a lidar com as agulhas, mas eles são empenhados e aprendem rápido”, diz. O trabalho, que exige concentração e paciência, também melhora o desempenho escolar de alguns deles. “Para trabalhar no ateliê é imprescindível retomar as aulas que o sistema penitenciário disponibiliza. O principal objetivo é prepará-los para o regresso à sociedade”, diz.

Ao fim de cada supervisão, Raquell sai do presídio com bilhetes no bolso. “São pedidos para integrar o projeto. Eles disputam as vagas, e quem já está tricotando tenta ajudar o colega interessado. Como não podem levar as agulhas para a cela, lixam escovas de dente para ensinar os pontos a quem quer participar”, conta. 

Interesse pela moda

Raquell garante que todo esse empenho se reflete no produto. “É um trabalho contemporâneo, com uma pegada mais masculina, que nada tem a ver com o tricô da vovó”, afirma. Para a empresária, é interessante observar como o interesse pela moda vai sendo despertado, e quem nunca teve acesso ao universo fashion passa a falar sobre o look da personagem da novela ou algum estilista em evidência. “Todo mundo merece oportunidade para aprender e, mais do que isso, uma segunda chance”, conclui.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 211, setembro de 2019 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Cultive sua coragem: Entenda como dar os próximos passos para finalmente realizar aquilo que seu coração deseja



TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*