(Re) Construindo a vida com a ajuda das palavras

  • TEXTO Andreia Ferraz Marini
  • FOTOGRAFIA fotografierende | Unsplash
  • DATA: 08/01/2019

Desde muito pequena as palavras me despertaram interesse e curiosidade. Meus brinquedos preferidos eram caderno, lápis, lousa e giz. Comecei a ser alfabetizada em casa pela minha mãe e senti enorme satisfação e alegria ao aprender a desenhar as letras, formar palavras e adquirir a capacidade de ler.

Talvez, por isso, tenho mais habilidade em me expressar através das palavras escritas. Adoro escrever, anotar insights, entender o significado dos vocábulos, guardar frases e textos que me inspiram. A leitura é uma das minhas paixões e os livros são meus companheiros inseparáveis.

E nesse contexto, lendo o texto “A Palavra do Ano” de Luciana Pianaro na edição de dezembro (202) de Vida Simples, no qual ela relata que sempre define uma palavra para ser sua companheira no próximo ano, me pus a pensar por vários dias: qual teria sido a minha palavra de 2018?

Entretanto, por ter sido um período tão intenso e transformador, foi impossível definir esse ano em uma única palavra. Na verdade, fazendo uma reflexão profunda, cheguei à conclusão de que 2018 representa o fechamento de um ciclo que se iniciou em 2014. E esse ciclo foi um caminho composto por uma sucessão de palavras.

Primeiro, descobri a palavra esgotamento – que veio acompanhada dos adjetivos físico e mental. Conheci também as palavras insônia, ansiedade, taquicardia e as expressões “falta de ar”, “dor de cabeça” e “dor de estômago”. Na sequência, fui apresentada aos palavrões nódulo e carcinoma maligno, que carregaram consigo os termos cirurgia, dor, recuperação e cura.

Para complementar o vocabulário surgiu a expressão “Síndrome do Pânico” e as palavras psiquiatra, ansiolítico, psicóloga e terapia.

Nesse período turbulento também tive contato com a palavra decepção. Descobri que algumas pessoas não sabem o significado de reciprocidade, respeito, consideração, compaixão e empatia.

Por outro lado, surgiu a palavra surpresa trazida por pessoas que não eram tão próximas e que demonstraram sensibilidade, carinho e disponibilidade.

Também tive a oportunidade de aprender o verdadeiro significado das palavras amor, família, companheirismo, fé e amizade.

Diante de tantos aprendizados, ao chegar em janeiro de 2018 uma palavra gritava aos meus ouvidos: mudança. Mudança de postura diante da vida, do trabalho, das pessoas, da passagem do tempo.

Era hora do recomeço. Se tornava urgente revisar o texto, corrigir os erros, adequar a concordância e o tempo verbal para o presente. Era preciso só deixar o que acrescenta, o que faz bem e quem merece compartilhar da minha história.

Escolhi, então, viver o meu projeto de vida e não mais o script traçado por outras pessoas. Busquei ousadia para dizer não, uma palavrinha tão pequena, mas tão libertadora. Passei a me preocupar muito menos com o julgamento alheio, pois tomei consciência que não tenho que agradar às outras pessoas a qualquer custo ou buscar a aprovação de quem quer que seja.

Nessa trilha de mudanças, cursos, leituras e músicas foram acrescentando várias palavras ao repertório: amor-próprio, autoconhecimento, aceitação, resiliência, espiritualidade, gratidão.

Aos poucos, os dias foram se tornando menos ansiosos e transcorrendo com mais leveza, serenidade e paz interior.

No percurso, fui adquirindo a percepção de que a palavra pode ser usada para ferir, para agredir, para magoar, mas também para acalmar, para inspirar, para transformar. Palavras podem ser positivas ou negativas, doces ou amargas. Palavras podem ser vazias ou significativas, carregadas de amor ou de rancor. Tem palavras que assustam. Há palavras que aproximam, outras afastam.

Existem palavras que precisam ser vivenciadas e experimentadas para se descobrir o seu verdadeiro significado. Uma delas é o amor. Não há uma única descrição, um único sentido, uma explicação concreta e específica. Só colocando em prática para sentir a definição.

E é assim, com a ajuda das palavras que sigo construindo e reconstruindo a minha vida, escrevendo e reescrevendo os capítulos da minha história.

Para o próximo ciclo a palavra inicial é CORAGEM, que significa agir com o coração. É seguir em frente mesmo com medo do desconhecido. É enfrentar os riscos e encarar os desafios com força e dignidade. É se conectar com a luz interior, tendo a certeza de que tudo vai dar certo.

Devido à impermanência das coisas, muitas outras palavras poderão se juntar a esta ao longo do novo ciclo e fazer morada em mim. E estarei pronta para recebê-las e acrescentá-las ao meu dicionário da vida.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 212, outubro de 2019 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Nem tudo vai dar certo: É possível encontrar novos caminhos quando as coisas não saem como o planejado


COMENTÁRIOS

  • Janice

    Gente que forte esse texte

    Responder
  • Jaciara gonçalves

    Que texto lindo,fui me vendo nas entrelinhas,maravilhoso!

    Responder
  • Vanessa Carvalho

    Amei… Fez eu pensar sobre minha vida também. Obrigada

    Responder
  • Stella

    Lindo texto. Parabéns.

    Responder
  • Lenita Brasil Pacheco

    Gosto muito de palavras tambêm. Amei este texto .Palavras falam mesmo de você…

    Responder

  • TAMBÉM QUERO COMENTAR

     

    Campos obrigatórios*