Por que caminhar pela cidade

  • TEXTO Mauro Calliari
  • FOTOGRAFIA Javier Garcia | Unsplash
  • DATA: 29/04/2019

Sair por aí, com ou sem destino certo, pode ser um ótimo exercício não só para o corpo, mas também para a alma

O estranho desejo começou há anos: sair por aí, andando pela cidade. No início, era uma atividade tímida. Ia até a padaria, tomava um café e voltava. Aos poucos, os trajetos foram ficando maiores. Para comprar um jornal, por que não andar até aquela banca lá longe? Assim foi, até que não precisava mais de pretexto para ir andando sem rumo. Afinal, um lugar vai levando a outro. De Pinheiros, sem perceber, chega-se a Paulista, ao Centro. Ou, em outra direção, começa a parecer natural atravessar o Itaim, cruzar o Brooklin e terminar no Largo Treze de Maio, a tempo de tomar um trem ou taxi para casa. Cansado, vazio, feliz. Afinal, em cada passeio, experimentam-se sensações fortes. Há o medo de se perder, o calor, o cansaço. Mas também há as surpresas: uma estátua, uma escadaria, o jogo de dominó numa praça.

As caminhadas urbanas são o oposto das caminhadas nos matos e campos. Nesses lugares, a solidão e o silêncio permitem o encontro consigo mesmo. Uma vez, fiz uma caminhada pelo parque estadual de Ibitipoca (MG). Sozinho, o único som era o do vento. Consegui ter uma conversa bastante decente comigo mesmo. Na cidade, encontra-se a multidão e, imerso nela, dá até para perder-se de si mesmo, o que, às vezes, pode ser bom.

O flâneur de Baudelaire é o personagem que se perdia na Paris de um milhão de habitantes, encantado com a possibilidade de andar entre desconhecidos. Mas, em São Paulo, na cidade de 11 milhões de habitantes, onde a regra é o anonimato, há o impulso oposto. Uma vez, depois de uma caminhada até o Ipiranga, senti vontade de saudar um desconhecido apenas pelo prazer de contar-lhe que eu era um forasteiro em seu bairro. Assim são as ideias do caminhante urbano, que tem a ilusão de encontrar respostas para suas perguntas ou mesmo de encontrar as perguntas que ele julgava não ser capaz de formular, apenas pela imersão no barulho hipnótico dos seus passos. São ideias incompletas, mas que talvez possam fazer sentido para um eventual leitor disposto a compartilhar o ato mais banal e mais importante numa cidade: andar a pé.

Mauro Calliari é autor do blog Caminhadas Urbanas, gosta de caminhar pela cidade e acredita que andar é a experiência mais essencial de cidadania


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COMENTÁRIOS

  • Fabiana

    Andar a pé (parece redundante) é (re)descobrir a cidade. É percorrer pela primeira vez os milímetros das calçadas que de carro nem se vê. É dar zoom na vida cotidiana daquele metros quadrados. É deixar nossa marca nos cantos que nunca havíamos deixado antes — mesmo já tendo passado por ali várias outras vezes.
    Ao andar a pé nunca se passa duas vezes pelo mesmo lugar.

    Grata por poder ler o seu texto.

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