O que aprendi como carteira

  • TEXTO Daniela Pires
  • DATA: 28/05/2020

Colocar-se no lugar do outro, mesmo que por um breve momento, ajuda a enxergar com mais clareza e, dessa forma, criar uma verdadeira empatia

 

No ano em que trabalhei nos Correios, as operações de entrega foram interrompidas durante alguns meses. De um lado, envelopes e caixas se amontoavam em centros de distribuição à espera do momento em que chegariam ao seu destino. De outro, pessoas ansiavam por suas cartas e encomendas. Como esvaziar todo esse acúmulo? A solução
foi recrutar funcionários de outros setores da empresa para serem carteiros por um dia. E assim eu fui alistada. Foi uma experiência curta, mas suficiente para que eu sentisse na pele o que é ser responsável por levar objetos e lembranças ao outro.

Lembro-me bem da reunião em que tudo isso foi definido. Era uma sexta-feira à tarde. A chefe do setor de comunicação, os jornalistas e os estagiários se sentavam em torno de uma mesa. A gestora, então, anunciou: “Preciso de um voluntário para ser carteiro por um dia”. Resmungos e reviradas de olhos, iniciou-se um jogo de resta um. Cada um tinha uma justificativa. “Vou acompanhar meu avô em uma consulta médica”, esquivou-se uma. “Tenho aula”, escapuliu outro. Restou um. Eu restei.

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O domingo seguinte ganhou um novo significado para mim: era dia de trabalhar. Acordei cedo, tomei banho e fiz uma refeição reforçada. A cada garfada e gole de café, cresciam em mim a aflição e o medo. Eu não fazia ideia do que iria acontecer comigo e pensava incessantemente: “Será que vou dar conta do recado?”. Em meus sonhos de Pollyanna, sempre estive cercada de livros e computadores, nunca de cartas e sedex. Colocar-me no lugar do outro seria um grande desafio.

Novas oportunidades

Espantei as nuvens negras da minha mente, tomei fôlego e segui adiante. Segui para o centro de tratamento de encomendas de Brasília, um galpão cheio de pessoas que se organizavam tal como instrumentistas de uma grande orquestra. Em meio às prateleiras recheadas de envelopes e de encomendas, cada pessoa tinha uma função para que tudo funcionasse em harmonia. Havia os transportadores, os gestores, os coordenadores e os organizadores do fluxo das correspondências. E havia eu, que estava vivendo aquela rotina pela primeira vez. Naquele momento, me senti perdida. Atordoada, pedi ajuda ao responsável pela sinfonia. De cara, ele me perguntou: “O que você faz na empresa?”. Respondi que era jornalista e trabalhava na área de comunicação. Ele rebateu: “Você deve ser bem comunicativa. O que acha de entregar pacotes?”.

Aceitei de bom grado a função e fui apresentada ao motorista que seguiria comigo nessa jornada. Ele era um homem simpático, cordial, com muitos anos de experiência. Eu, uma menina idealista, recém-formada e recém-contratada. Será que nossos caminhos se cruzariam não fosse essa situação? No estacionamento, o tão conhecido furgão amarelo com letras azuis nos aguardava. O carro estava lotado de caixas, organizadas pelas ruas que deveríamos percorrer. Nosso destino? Um dos bairros nobres da cidade. Durante o percurso, pensava: “O que vou dizer ao entregar a encomenda?”. Ansiosa, imaginava diálogos e treinava expressões faciais. Até que o furgão estacionou e o ensaio foi interrompido.

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Desci do carro e respirei fundo. Chequei o endereço, procurei a encomenda no bagageiro e caminhei rumo ao portão. Interfonei. Aguardei uma resposta durante os segundos mais longos da minha vida. O morador apareceu. Ao avistá-lo, disse: “Bom dia! Sou a Daniela e vim trazer o seu Sedex!”. Encomenda entregue, recebi um “muito obrigado”. Não foi igual ao que havia ensaiado, mas, consegui.

Entrega

Conversa vem, sedex vai, passamos por diferentes lugares e situações. Uma das residências em que paramos parecia abandonada. Eu podia ver pilhas de areia, madeiras e materiais de construção empoeirados, mas não conseguia visualizar um sinal de vida. Acontece que existia um pacote destinado àquele endereço. Então apertei a campainha. Ninguém apareceu. Interfonei de novo e aguardei, ainda tínhamos tempo para esperar. Minutos depois, um rapaz de feições orientais finalmente apareceu. Ele coçava os olhos e caminhava lentamente, como se tivesse sido acordado pelo som do interfone. Tentei me comunicar, mas o jovem parecia não se interessar por uma palavra do que eu dizia. Arrisquei novamente: gesticulei e sorri. Ele apenas estendeu as mãos, pegou o Sedex, deu meia-volta e se foi.

Mais uma parada. Pressionei a campainha e um cachorro logo se manifestou. Era um latido estridente, capaz de afugentar qualquer ameaça. Porém, do outro lado do muro, havia apenas eu e um pacote de Sedex. Quando o portão da casa se abriu, o latido foi se aproximando. Era um cão enorme, que pulou em cima de mim. A proprietária da casa veio correndo me acudir. Ela rapidamente pediu desculpas, agarrou a encomenda e o cachorro, e fechou a porta. Mal tivemos tempo de trocar palavras, de nos olharmos.

Cordialidade 

Mas também houve cordialidade e gratidão pela entrega. Em uma das residências, uma simpática senhora abriu as portas da casa e do coração. Entre olhares e sorrisos, conversamos sobre a vida e a felicidade. Entreguei a encomenda e fui presenteada com o afeto. Durante o dia, também ganhei outros presentes: conselhos profissionais e um copo de água para refrescar o calor. Ao longo daquele domingo, passamos por cerca de dez endereços diferentes. Nessa dezena de universos particulares, tive contato com a frieza e o calor humano, com o silêncio e a partilha, com a invisibilidade e o olhar. A cada pessoa e casa que visitávamos, uma parte das minhas próprias barreiras ia sendo quebrada. E a minha admiração pelos carteiros crescia. Ouvidos atentos, aprendi lições de resistência, paciência e, sobretudo, de respeito. Eu começava a enxergar o mundo através das lentes do outro.

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Em certo momento, interfonei em mais uma casa. Aquele seria o último pacote do dia. Através das grades do portão, o máximo que eu podia ver era um gramado verde em frente a uma casa térrea, pintada com cores sóbrias. Com os olhos encobertos por grandes óculos escuros, uma mulher sorridente me atendeu. Eu prontamente lhe disse: “Boa tarde! Vim trazer sua encomenda!”. Sedex em mãos, a simpatia se transformou em surpresa quando ela me questionou: “Obrigada! Mas você, tão bonita e novinha, não tem cara de carteira! Você tem certeza de que é carteira mesmo?”. E eu lhe disse que, naquele dia, eu era, sim, uma carteira.

Conexão

No caminho de volta para o centro de encomendas, as palavras daquela moça me fizeram pensar sobre quem seria o carteiro. Aquele que sabe exatamente onde nos encontrar, mas que não sabemos onde vive. Aquele que leva diversas histórias em forma de cartas, pacotes, encomendas, mas para quem não escrevemos sequer uma linha. Alguém como eu e você, só que não enxergamos. Mas por que tamanho desinteresse e desprezo? Percebi que nos falta conexão.

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Percebi que o diferente é importante. Porque sempre podemos aprender com o outro, seja um carteiro, um motorista, uma moradora de um bairro chique. Todos têm algo de valioso a nos ensinar. Somos “cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”, como bem disse o escritor português José Saramago. No fundo, somos apenas pessoas, com a mesma necessidade de pertencer e de ser amadas, com os mesmos medos e traumas. Basta enxergar. Para limpar o preconceito, aprendi naquele dia tão incomum, é preciso limpar primeiro o olhar.

 

Daniela Pires procura, todos os dias, limpar o próprio olhar para ver o conteúdo do outro além da forma


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