O que aprendi com as artes marciais

  • TEXTO Márcia Kazue Miyamoto
  • FOTOGRAFIA Jason Briscoe | Unsplash
  • DATA: 28/10/2021

Mais do que um esporte, esssa prática ensina como seguir na vida, ter equilíbrio e serenidade mesmo nos períodos mais difíceis.

Duas perguntas sempre me inquietaram quando o assunto era arte marcial: por que algo relacionado à guerra pode ser considerado uma arte? O que ela pode representar para alguém além do esporte ou técnica de defesa? Guiada, em parte, por essa curiosidade, decidi aprender artes marciais aos 38 anos. Posso dizer que renasci depois disso.

O que também me levou a isso foi o amor pelo meu filho Tiago, de 7 anos, e a busca por um ponto de conexão com o mundo masculino dele. Nada poderia ser mais verdadeiro que isso. No entanto, esse foi, na verdade, o empurrão que precisava para mergulhar em um universo que já estava dentro de mim.

Comecemos pelo meu primeiro nome: Márcia, cujo significado é guerreira ou grande oradora. O nome se associa a Marte, deus da guerra na mitologia romana. Meu segundo nome, Kazue, de origem japonesa, significa primeiro e pacífico. Finalmente Miyamoto, o sobrenome de um dos mais conhecidos samurais do Japão: Miyamoto Musashi.

Busca interior

Sua alma buscou a paz por meio da arte, não só da espada. Foi também exímio escultor, pintor, escritor. Uma das obras mais conhecidas dele no Ocidente é O Livro dos Cinco Anéis, que revela como a arte da espada se torna um caminho para a evolução humana. Juntando tudo, poderíamos conceituar meu nome como: a guerreira pacífica da arte da espada.

Quando fiz essa análise do nome, me dei conta que não fui eu que encontrei as artes marciais, elas simplesmente já estavam em mim. E, assim, aos 38, tive a oportunidade de conectar uma forma de autoconhecimento que me faz aprender sobre como interajo e me integro ao mundo.

A partir da prática da arte da espada, minha alma foi se integrando ao conceito de servir. Um servir honrado, com virtudes e valores, nada servil. À medida que meu corpo criava intimidade com os movimentos precisos do corte da espada, minha alma se fortalecia no servir e no silêncio.

O respeito ao Sensei, o grande Mestre, e aos Senpais (praticantes mais experientes), mais o cuidado com os Kohais (os mais novatos) criam uma escala organizada de educação e serviço em cadeia.

Artes marciais vão além

alunos em aula de kung fu

Artes marciais ensina como interagir e se integrar no mundo                                                            | Crédito: Thao le Hoang | Unsplash

O mais velho e experiente serve ao educar o mais novo. Essa profunda generosidade de doação do professor, Senpai ou Sensei, de seu tempo e conhecimento, é reconhecida por meio de um profundo respeito: a única pessoa que não precisa curvar-se ao imperador no Japão é o professor.

Aos poucos, fui me dando conta de que as artes marciais não tinham a ver apenas com uma prática que se fechava em mim mesma. Ela vai além e sua filosofia é adotada até mesmo em empresas.

Um exemplo interessante da abstração de valores e virtudes aprendidos por meio das artes marciais é Jack Ma, CEO da Alibaba, a “Amazon da China”. Ele foi recusado muitas vezes por Harvard ao se candidatar a aluno. Em uma seleção do KFC na qual havia 24 candidatos, ele foi o único descartado do processo. Hoje, como um dos homens mais ricos do mundo, em seu discurso na convenção de Davos, atribuiu ao kung fu, na modalidade do tai chi chuan, a habilidade adquirida para lidar com as adversidades e a condução dos negócios.

Artes marciais até na vida profissional

Na minha vida profissional, as artes marciais também foram essenciais. Em março de 2017, tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida: mudar completamente de carreira. De executiva para coach e facilitadora de treinamentos. Para tomar coragem e fazer esse movimento, recorri a um treino intensivo de kenjutsu – a arte marcial clássica de combate com espadas de bambu. O segredo dela é estudar o adversário para encontrar uma abertura e sempre ir adiante, avançando.

Quando treinamos esse movimento é como se todas as células de seu corpo aprendessem a fazer isso. O corpo, então, passa a responder com inteligência própria, e a mente, de repente, torna-se lenta demais. A percepção do que acontece ao redor fica mais aguçada; os sentidos, muito apurados. A intuição aflora pelo treino da presença da mente e pela metáfora de vida ou morte no sopro de um momento.

Avançar, apesar do medo

E meu objetivo, nessa fase, era combater meus medos. No kenjutsu, a cada ação precisamos gritar e proferir o nome do golpe que será dado: “men” (cabeça), “do” (dorso), “kote” (punho), “tsuki” (pescoço) ou “tsunê” (tornozelo). Não é o máximo poder gritar alto para “soltar o medo”? Uma forma de deixá-lo para trás e avançar, mesmo com medo. Só que algo inesperado aconteceu. Na tentativa de acertar um “men”, dei o impulso que simbolizava meu salto de fé. Mas eis que ouço um estalo. Era o tendão de aquiles de minha perna esquerda que havia se rompido. Resultado: seis meses de molho sem poder trabalhar, justo no momento que mais precisava estar ativa para a nova fase da carreira. 

A salvação

mulher em postura de kung fu

Artes marciais: lidar com as adversidades de forma centrada e segura.                                           | Crédito: Thao le Hoang | Unsplash

Mas até em um momento como esse a arte marcial surge para me salvar. Foi nesse período de repouso que descobri a medicina tradicional chinesa, o poder do Qi Gong (ou Chi Kung) e do tai chi chuan para me recuperar.

Uma recuperação integral: da alma com medo do futuro profissional incerto e do corpo, que pediu uma pausa para que a alma pudesse voltar ao centro antes de continuar a jornada. A partir de então, comecei a descobrir uma forma diferente e profunda de trabalhar minha energia interna. 

É uma arte?

Voltando às duas perguntas iniciais por onde comecei: algo relacionado à guerra pode ser considerado arte? Se você, como eu, considerar arte uma forma de expressão da alma, espero que meu relato tenha ajudado a perceber a existência desse caminho de expressão e evolução.

Quanto a ir além do esporte, os verdadeiros artistas marciais não se dedicam à competição por princípio. Se quer competir com alguém, faça isso contra seus monstros internos.

Com relação à defesa, o que a arte marcial me ensinou foi a construir uma inteligência mental e emocional para lidar com as adversidades de forma centrada e segura. Fui assaltada e já sofri também violência moral, e o que me “defendeu” foi o que a arte marcial nutriu em minha alma: a segurança e o equilíbrio para não sentir a necessidade de proferir golpes, mesmo sob ataque.

Hoje, tanto eu quanto meu filho nos tornamos artistas marciais de modalidades de kung fu, nutrindo nossas vidas com arte, juntos.


MÁRCIA KAZUE MIYAMOTO   é idealizadora do espaço  TÀI — Vivências Educadoras, é coach e auxilia pessoas em transição de carreira.


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