O que aprendi ao viajar sozinha

  • TEXTO Fernanda Lagoeiro
  • FOTOGRAFIA Thom Holmes | Unsplash
  • DATA: 02/09/2021

Muitas vezes precisamos ir longe para enxergar o que nos aprisiona de perto. Conhecer o mundo e novas pessoas nos ajuda a conquistar a liberdade

“Você é muito louca de sair andando por aí sozinha!”, ouvi de uma menina que conheci jogando conversa fora, numa praça no centro de Bruxelas, três horas depois de chegar à cidade pela primeira vez. Mas Bélgica, França, Holanda e Alemanha foram, por 15 dias, o porto seguro que me acolheu no meio da tempestade que fazia dentro de mim. E foi o impulso de ir que fez o sol nascer de novo. Eu, então, estava prestes a fazer 25 anos e havia vivenciado decepções no trabalho, relacionamentos desgastantes e a pressão de não saber o que fazer. Tudo parecia estar dando errado. Em meio a uma crise existencial, só tive uma certeza: era hora de mudar. De viver um ciclo novo.

Decidi, então, que iria realizar meu sonho de fazer um mochilão… mas sozinha, pela primeira vez. Tinha esse sonho desde que li Na Natureza Selvagem (Companhia das Letras), de Jon Krakauer. Ganhei o livro de um professor, que dizia que eu tinha a mesma alma de aventureiro do protagonista. Logo eu, toda perdida. Que volta e meia me esquecia de pagar os boletos. Que manchava as roupas na máquina de lavar. Ou que tropeçava na rua em qualquer oportunidade.

Por que não?

viajar

Crédito: Danka Peter | Unsplash

Olhava pela janela do escritório na empresa em que trabalhava, em Campinas. A vista do décimo andar, apesar de não me mostrar mais do que prédios e uma avenida movimentada, sempre me fazia pensar longe. Imaginava os lugares que estão esperando pela gente, quantas pessoas fariam parte da nossa caminhada, e quantas coisas (e histórias) estão aí fora, passando, todos os dias, enquanto a gente não se dá conta e segue no piloto automático das tarefas diárias.

Os flashes viviam na minha cabeça. Salvador. Tóquio. Nova York. Budapeste. Lugares que eu nunca conheci, sempre vivos no meu imaginário. O mundo inteiro me esperando. Mas a rotina me despertava. Campinas. Textos. E-mails. Eventos. Lançamentos digitais. Faltava algo e eu sentia esse vazio… 

Então, enquanto conversava com uma amiga que mora na Holanda, fui tomada pelo impulso: por que não ir, afinal de contas? Por que não começar a minha fase nova agindo, de fato, como uma pseudoadulta de 25 anos e planejando algo legal para mim? Num ímpeto, comprei as passagens. Meu roteiro incluiu Bruxelas (Bélgica), Maastricht e Amsterdã (Holanda), Düsseldorf (Alemanha) e Paris (França). Uma escolha totalmente aleatória, com cidades que estavam no mesmo caminho. O que eu desejava era me desafiar, conhecer pessoas, lugares não tão turísticos, praticar o inglês e, sobretudo, me libertar.

Até a viagem chegar…

Eu, que adoro listar coisas, fiz um check list de tudo o que precisaria fazer ou conseguir até a data do embarque, dali a seis meses. Havia uma parte prática, como reserva de hospedagem, passaporte, vacinas, seguros, roupas. E as necessidades mais desesperadoras, como não me importar com o alto valor do euro, e me certificar de que teria dinheiro suficiente. Enquanto isso, trabalhava 12 horas por dia, equilibrando noites de sono, a ansiedade e os itens da lista. Até que o grande dia chegou – nunca havia me sentido tão ansiosa quanto naquele dia. Já no aeroporto, olhei minha mãe “pela última vez” (gosto de ser dramática). A Fernanda que ela iria encontrar na volta já não seria mais a mesma.

Meu primeiro destino foi Bruxelas. Cheguei à estação central e a primeira coisa que eu pensei foi “o que é que eu estou fazendo aqui?”. A estação era muito pior do que eu podia imaginar. Lugar sujo, com pessoas estranhas que me encaravam o tempo todo. Senti medo. Bem, mas já estava ali, então só me restava encarar. E o que veio depois me surpreendeu. Fiz amigos especiais no hostel e tive dias muito felizes, alegres e animados.

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Crédito: Myles Tan | Unsplash

O verdadeiro motivo

Quando fui para Düsseldorf, percebi um povo diferente, mais fechado. Ali, senti saudade do Brasil, da minha família, quis chorar. Ao mesmo tempo, foram dias intensos comigo mesma. E descobri que solidão é diferente de solitude. Não há nada que pague a sensação de se sentir bem e em paz em ser sua própria companhia.

Paris é, de fato, uma das cidades mais bonitas do mundo. Ali, experimentei pratos deliciosos, vi uma arquitetura impecável, mas percebi uma desigualdade social que me fez entender que, não importa em que lugar você esteja, infelizmente algumas coisas não mudam – e os excluídos sofrem. Holanda foi uma surpresa boa. Fiz novos amigos por lá, de diferentes países. Conheci lugares incríveis, seguros, acessíveis (todo mundo falava inglês). Era tudo o que eu precisava para fechar a minha mala com boas lembranças e a sensação de dever cumprido. Para lembrar, de fato, o motivo pelo qual eu estava ali, e o motivo pelo qual eu estava onde deveria e precisava estar.

Lembranças dessa jornada

É claro que enfrentei outros tantos desafios nessa viagem. Meu cartão pré-pago travou e fiquei sem poder usá-lo; daí, tive de economizar o restante de dinheiro que havia sobrado. Fui assediada algumas vezes e senti medo. Me perdi e, com a ajuda de pessoas, cheguei ao meu destino. E quer saber? Viagem sem perrengue não é viagem. Tive longas e profundas conversas com estranhos, fiz amizades, vivi amores de verão revigorantes. Explorei lugares, imergi em culturas. Sabe a tal da liberdade que fui buscar? Então, eu a encontrei. Ela está dentro de mim, e se libertou em um balanço a 100 metros de altura em Amsterdã. Para mim, era o mais próximo que poderia chamar de felicidade.

Sei que muitas mulheres não se sentem confiantes em viajar sozinhas, mas cada vez mais encontramos formas de nos sentir em segurança, e podemos planejar o roteiro levando isso em conta; há vários canais que orientam as turistas para uma viagem mais segura, além de aplicativos que também ajudam. Depois da experiência, eu tive de voltar para minha vida de redatora em Campinas. Mas a Fernanda não é mais a mesma. O corpo que a habita não é mais o mesmo. É um corpo independente, seguro, confiante, maduro, capaz de resolver problemas. Voltei, mas a viagem segue morando em mim. Aprendi que sempre haverá alguém para te acolher no caminho. Seja um completo desconhecido, um futuro conhecido ou, simplesmente, você mesma.


Fernanda Lagoeiro é jornalista,embaixadora brasileira da ONG de empoderamento feminino G(irls)20, e vê nas histórias um manifesto: das coisas simples


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