O que aprendi ao falar inglês

  • TEXTO Ana Signorini
  • FOTOGRAFIA Photo by Ben White on Unsplash
  • DATA: 30/11/2020

O idioma ajuda a construir a nossa identidade, nos aproxima e nos faz perceber o quanto somos iguais, apesar das diferenças.

Sinto o trem se desprender da plataforma. São 10h15 da manhã e saio para meu primeiro dia de trabalho como intérprete de português e inglês na Inglaterra. Estou a caminho de uma clínica perto de Londres e vou acompanhar a consulta de um paciente português com o neurologista. Já conferi o caminho no mapa do celular. O paciente se chama Antonio e o médico, Ivan (os nomes das pessoas citadas neste texto foram trocados por questões de confidencialidade). Grandes nuvens cinza se misturam a uma torre com luz amarelada na neblina. Devia ter botado um casaco mais forte. Devia ter comprado café com leite na estação. O trabalho de intérprete em serviços públicos é comum na Inglaterra e os profissionais atuam em tribunais, escolas, presídios, imigração, instituições de saúde e serviços sociais. Interpreto para portugueses, mas também para africanos, indianos e brasileiros.

Antonio está nervoso porque foi encaminhado para uma cirurgia de hérnia de disco. Ele fala olhando para mim, e eu falo com o médico usando a terceira pessoa: “Ele quer saber se deve fazer a cirurgia, se é seguro”. Doutor Ivan responde que na Inglaterra quem toma as decisões é o paciente, mencionando estatísticas e possíveis efeitos colaterais. “Você pode morrer na sala de cirurgia, pode ficar numa cadeira de rodas, pode ter uma hemorragia.” Olho para Antonio e, driblando a vontade de sugerir uma fisioterapia, traduzo o que o médico diz. Ao fim da consulta, sou parabenizada. “A maioria dos intérpretes fica paralisado em algum momento, mas isso não aconteceu.” Saio feliz e desejo boa sorte a Antonio. Não digo a ele que, além da língua, compartilhamos uma hérnia de disco.

No treinamento para me tornar intérprete, aprendi que é preciso ser neutro, sem emitir opiniões ou julgamentos. Assinei código de conduta e não posso aceitar presentes. Devo usar sempre a primeira pessoa, incorporando o outro, como um ator no teatro, o que nem sempre é fácil. O médico deve olhar para o paciente, e não para o intérprete, assim como o paciente deve olhar para o médico.

Traduzindo a notícia

Saio cedo de casa e o verão, definitivamente, acabou. A chuva fina me acompanha no trajeto. Chego a um enorme hospital. Uma bandeira da Inglaterra balança contra o céu na Bradford Royal Infirmary. Com meu crachá de intérprete, caminho por departamentos que me causam medo. Eu me sinto dentro de um filme quando cruzo com enfermeiras de cabelos presos e sapatos pretos marchando pelos corredores.

Sento para aguardar o paciente, confortável na certeza de que a conversa entre Patricio e o doutor Winston não poderia acontecer sem minha presença. Já quis ser médica quando criança, igual ao meu pai, e isso provavelmente é o mais perto que chegarei desse velho desejo de infância. Patricio tem um pré-câncer e precisa ser operado. Já não me sinto mais em um filme, porque tudo ali é bastante real e as decisões são imediatas. Estou sentada ao lado dele e traduzo a notícia. O médico sai da sala e nos deixa ali por alguns minutos. Burlo as regras e puxo conversa. Sou do Brasil, de onde é em Portugal? Patricio diz que gostaria muito de visitar o Rio. Sorri quando falo sobre os muitos brasileiros indo morar em Portugal. O anestesista diz que ele precisa entender a gravidade da doença e que sua aparência não está boa. Traduzo.

A língua inglesa sempre fez parte da minha vida. Desde que escrevia histórias em inglês com minha mãe, que me matriculou em um curso quando fiz quatro anos. Agora que moramos na Inglaterra, minhas filhas aprendem depressa a língua. Elas corrigem minha pronúncia. Conto para elas sobre meu trabalho e concordamos que ir para o hospital é ruim, mas sem falar a língua dos médicos é pior.

Penso na insistência da minha mãe para que eu e meu irmão aprendêssemos inglês.
O trem se arrasta. Hoje a consulta acontece no Ward 5, que abriga pacientes que estão prestes a entrar em cirurgia. O paciente é português. “Falo um pouco de inglês”, ele diz. O hospital público é espartano e movimentado. Se meu pai fosse paciente aqui, provavelmente iria simpatizar com a intérprete e pedir a ela que o tirasse dali. Ao que eu responderia: “Não posso, mas vou tentar ajudá-lo a se sentir melhor”.

Passo a me sentir próxima de pessoas que falam minha língua, mesmo que venham de países que não são o meu. O clichê “minha língua, minha pátria” nunca fez tanto sentido. Qual a queixa do paciente? Como é a dor que está sentindo? Sou a voz daquelas pessoas. Tudo entra pelo meu ouvido e precisa sair em outra língua. Definitivamente, esse é o trabalho mais humano que já fiz. Na consulta de hoje, Maria sofre de enxaquecas. A neurologista faz perguntas e a paciente, no meio da descrição dos sintomas, menciona que tem cinco filhos e se sente estressada. A médica descarta a informação e prescreve remédios. Depois da consulta, Maria me diz que já foi ao Brasil e gostou muito. Quebrando o protocolo, digo a ela que deve ser difícil ter cinco filhos e que eu provavelmente também sofreria de enxaquecas se estivesse no lugar dela.

Há um belo hospital pediátrico em Sheffield, mas tenho receio de ver crianças sofrerem. A agência me liga oferecendo um trabalho no setor de oncologia e hesito em aceitar, mas penso nesta mãe, com um filho doente e que não sabe falar inglês para entender o médico. Não posso deixá-la sozinha e aceito. No centro de reabilitação em Sheffield, acompanho um casal de portugueses com problemas com drogas e alcoolismo. Após ouvir e traduzir as mazelas pelas quais estão passando, a moça, que aparenta ter o triplo da idade que realmente tem, com pele, unhas e cabelos acabados, me diz: “gostaria que você viesse na próxima consulta”. Passo duas horas com uma mãe e sua filha da Guiné-Bissau em uma sala de pré-operatório. “Você é muito corajosa”, digo para a menina. E ela me responde: “É porque sei que tudo vai dar certo”.

Penso em como comecei e nunca parei de aprender o inglês, que sempre me abriu caminhos, e em como a cada trabalho aprendo mais sobre minha língua. Penso em minhas filhas na escola, conversando com colegas que vêm de países tão distantes do Brasil. É também no inglês que se encontram. Já aprenderam a gostar da língua que, desde cedo, me ofereceu um mundo novo para explorar. Digo a elas que saber duas línguas é ter sempre, pelo menos, duas formas de enxergar as coisas. É saber se colocar e se impor quando for preciso. É poder participar e ocupar um espaço, tendo meios para acessar seus direitos. E, às vezes, é poder também ajudar um falante da sua língua-mãe.


Ana Signorini é tradutora e intérprete de inglês e português. Carioca, mora na Inglaterra há pouco mais de um ano.


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