Mulheres de fibra

  • TEXTOS Maju Duarte
  • FOTOGRAFIA Leila Fugii
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Entre amarrações e dobraduras de tecido, Renata Rizzi e Beatriz Duarte transformam vidas. Há pouco mais de um ano, elas começaram a realizar oficinas de Shibori – técnica japonesa de amarração para tingimento de tecidos – na Associação Fala Mulher, Zona Norte de São Paulo. Juntas, elas vêm costurando uma relação com as usuárias deste espaço que já atendeu mais de 25 mil mulheres vítimas de violência doméstica nos últimos 14 anos. Ali nasceu, em meio a agulhas, linhas e histórias de superação, a Utopiar: um negócio de moda sustentável e de impacto social.

Foi em 2016 que a marca delineou os primeiros traços em meio a conversas despretensiosas entre as duas amigas. Da expertise com criação e vendas, elas compartilhavam da mesma preocupação: criar um produto cuja produção fosse sustentável de ponta a ponta. Formada em jornalismo, com atuação em marketing, Renata acumulou experiência em empresas nacionais e multinacionais do segmento da moda. Um mercado corporativo que a incomodava pela falta de equidade de gênero.

“Somada à falta de oportunidade de emprego, me deparei com o fato de que em 50% dos lares brasileiros, milhares de mulheres sofrem com diversos tipos de violência doméstica. Agora, imagine o impacto que é não ter trabalho, renda, e ainda perder a autoestima justo no momento em que você mais precisa romper um ciclo de violência”, questiona.

Outra reflexão era feita por Beatriz, que na época estudava sobre a finitude de recursos naturais do planeta e consumo consciente. Formada em desenho industrial, com pós graduação em Administração pela University of Otago School of Business, ela trabalhou por muitos anos na área de inovação e de planejamento de produção para empresas nacionais e multinacionais. Beatriz também já empreendeu na marca Lumiar, onde foi responsável pela criação do modelo de negócio e gestão da empresa. Mas foi depois de fazer um MBA em Gestão da Sustentabilidade, e se aprofundar em dados da indústria têxtil e seus impactos socioambientais, que ela desenvolveu soluções que ampliam a competitividade das empresas enquanto geram valor para a sociedade.

“A Utopiar foi criada a partir de todas essas preocupações. Por isso, pensamos em desenvolver um negócio de valor compartilhado: que fosse positivo e que gerasse renda para as mulheres em situação de violência doméstica, além de estar em sintonia com um modelo circular de produção, em que houvesse uma preocupação tanto com a criação do produto (matéria-prima, tingimento, mão de obra), quanto com a venda (comprar, alugar, devolver). Dessa forma, teríamos impactos positivos para todos os agentes do processo”, explica Bia.

Tudo se transforma

Todas as peças da marca são de viscose certificada OEKO-TEX ou de algodão orgânico, proveniente de plantações sem fertilizantes e pesticidas. Já os tingimentos são vegetais e ecológicos e foram incorporados por uma questão de saúde e de bem-estar para quem produz e veste os tecidos. “Também nos responsabilizamos por todo o ciclo de vida de nosso produto. Usamos sobras de tecidos da indústria em nossas coleções e em nossas embalagens, estimulamos reparos e realizamos reformas de itens usados. Quando já não é possível vestir o produto, o encaminhamos para a reciclagem”, explica Bia.

No final de 2018, as sócias levaram as coleções Casulo e Alquimia de lenços, bem como roupas feitas em parceria com a Amarela Upcycling, para a 2ª edição da Brasil Eco Fashion Week (BEFW), realizada em São Paulo. Na ocasião, lançaram o site da marca, uma plataforma criada para a comercialização dos produtos e para manter contato com os compradores que podem trocar ou devolver (em troca de créditos) uma peça. Na página, elas também compartilham textos e pesquisas sobre violência doméstica, moda sustentável e de impacto social.

Por enquanto, é possível encontrar as peças da Utopiar na loja Goiaba Urbana, no bairro de Pinheiros, na capital paulista. Um espaço em que a curadoria abraça a produção de pequenos artesãos. Para Renata, mesmo em pouco tempo, o novo negócio já transformou a rotina das mulheres da Associação Fala Mulher que fazem parte do negócio e já se tornaram microempreendedoras. “Dessa forma, elas exercem protagonismo e bancam suas próprias decisões”, conta Renata.

Diante deste cenário, o nome Utopiar, segundo as sócias, fala sobre um mundo ideal que também é possível, e para o qual elas caminham em direção todos os dias.


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