Literatura para todos

  • TEXTOS Sibele Oliveira
  • FOTOGRAFIA Hannah Wei | Unsplash
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Tatiany leite passou a infância respirando histórias. Bisneta e neta de escritores, sobrinha de uma poetisa e filha de uma professora de latim, ela era daquelas crianças que perdem a noção do tempo com um livro na mão. Estudou jornalismo quando cresceu, mas o amor pela literatura nunca acabou. Um dia, conheceu Augusto Assis, formado em marketing e escritor desde adolescente. Os dois tiveram a ideia de criar um canal no YouTube e incentivar os jovens a lerem livros, no papel ou digitalmente. Foi assim que nasceu o canal Vá Ler um Livro. A dupla faz vídeos sobre vários tipos de obras, principalmente as que são leitura obrigatória nos vestibulares mais importantes do país. Tatiany conta que se sente tocada ao saber que suas aulas atravessam a tela do celular ou do computador e transformam-se em histórias quando chegam ao outro lado.

Quem acompanha o Vá Ler um Livro?

É um público misto, mas os pré-vestibulandos que não têm condições de pagar um cursinho ou que querem complementar o conhecimento são maioria. Tanto é que nossos vídeos de maior audiência são as aulas. Mas também tem muita gente que nos segue e comenta que não vai prestar vestibular, mas gosta das nossas opiniões e debates

É o amor pelos livros que leva as pessoas ao canal?

Quando as pessoas chegam, dificilmente elas têm um amor absoluto pela literatura. Mas acabam se apaixonando depois que perdem o preconceito. Entram no canal porque precisam estudar ou buscam uma opinião sobre alguma coisa específica, como uma série que viram na Netflix e ficaram curiosas sobre o título que a originou. O nosso intuito é que todos pensem: “eu não gostava de literatura antes, mas agora adoro e quero saber mais sobre o que vocês estão falando”.

Vocês dizem na descrição do canal que o objetivo é tirar o “peso” da literatura. Como fazem isso?

A literatura geralmente é vista como uma leitura muito acadêmica. Desmistificamos isso falando de maneira tranquila, fazendo links com a atualidade, mostrando que ela está em vários lugares e que não é só o clássico, apesar de ser possível entender um clássico de forma diferente. Como Iracema, de José de Alencar, que tem uma linguagem muito rebuscada. Essa narrativa, que já era difícil na época do romantismo, é passada para os alunos lerem hoje. A nossa função é, por exemplo, pegar Iracema e analisar o que José de Alencar quis dizer com esse livro. Explicar por que ele usou palavras em guarani, por que a personagem principal é uma índia, o que retrata essa história, quem foi o autor. Mostramos de uma maneira desconstruída as coisas que são colocadas num patamar inalcançável.

Dá trabalho atrair os jovens?

Bastante, porque muitos colocam as artes num patamar elitista. Além disso, há várias coisas acontecendo, muito conteúdo sendo publicado diariamente. Prender a atenção de alguém falando de literatura não é fácil porque a tendência é que o aluno ache que não vai gostar. É difícil fisgá-lo de primeira. O bom é que, quando a gente consegue derrubar essa barreira, ela não sai mais do canal.

O que vocês fazem para produzir um conteúdo leve e acessível?

Consumimos muita atualidade e por isso a nossa linguagem e gestos são joviais. Isso agrada o público. E tentamos sempre fazer um link com o que achamos que as pessoas vão querer assistir.

É diferente aprender literatura na sala de aula e no YouTube?

É preciso entender as aulas no YouTube como uma atividade complementar, porque nada substitui a escola. As aulas no colégio variam de acordo com o humor do professor e do aluno, porque acontecem várias coisas na vida de cada um que está ali. Eu e o Guto gravamos quando estamos bem. E o aluno é ativo na escolha, porque ninguém clica num vídeo a que não quer assistir. Como é uma decisão dele, acaba ficando mais atento.

O que ensinar significa para você?

Tudo. Infelizmente o método de educação aqui no Brasil deixa muito a desejar, ainda mais para quem não tem dinheiro. O ensino deveria ser a base de qualquer menino ou menina. Levar conteúdo para pessoas que talvez não tivessem acesso, para mim, é a melhor coisa de todo esse projeto. Isso é realmente ensinar. Transformar os alunos em pessoas boas, em cidadãos. Todo livro promove um grande exercício de empatia. Quando ensino as pessoas, acabo treinando essa empatia. Essa troca é essencial.

Por que ler é importante?

Porque acabamos criando uma compreensão muito maior de nós mesmos e do mundo. É através da leitura que exercitamos a criatividade, o olhar para o próximo, que entendemos melhor nossa história e do nosso país.

Os livros influenciam a sua vida?

Leio desde muito cedo e isso acabou ajudando a moldar a minha personalidade, a reação aos problemas e ao mundo. Cresço tanto no sentido psicológico quanto no trabalho e na vida.

Qual obra marcou mais você?

Várias. No momento é o Ponciá Vicêncio (Pallas), da Conceição Evaristo, uma escritora brasileira negra que vem de uma favela mineira. Ela ensina como ninguém a história do Brasil e nos faz compreender a questão racial. É um exercício de empatia muito grande. Eu, enquanto uma mulher branca que talvez não tenha a menor ideia da realidade de uma negra pobre, consigo entrar nessa história e entender muito melhor o mundo à minha volta.

Você poderia compartilhar uma história de como o canal transformou a vida de alguém?

Há pouquíssimo tempo uma pessoa comentou no canal que nunca tinha tido acesso a um ensino de qualidade, que estudou em escola estadual a vida toda e só conseguiu aprender literatura com a gente. Ela passou no vestibular para medicina em uma universidade pública. Isso não tem preço para nós. Alcançamos uma parcela da sociedade que não teve acesso a um ensino gratuito de qualidade, e contribuímos para que essas pessoas cheguem à universidade. Estudando conosco, essa moça entrou em um curso super concorrido. Choramos quando recebemos o comentário dela.


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