Isso não é da sua conta

  • TEXTO Paula Abreu
  • DATA: 15/01/2020

Para ajudar verdadeiramente o outro, precisamos cuidar de nós mesmos e respeitar os limites daqueles que amamos

 

Muita gente me escreve querendo saber como ajudar alguém de quem gosta, como o cônjuge, os pais, o melhor amigo. O objetivo é sempre fazer com que essa pessoa abandone um hábito tido como negativo, ou que adote outro positivo. É ajudar o outro a “melhorar”. Mas, ao tentarmos fazer o outro melhorar, o que, em geral, acontece é criarmos um plano para esse objetivo baseado naquilo que nós acreditamos, e não no que o outro acredita. E qual é a chance de isso funcionar? Bem, nenhuma.

De um lado, a pessoa que você ama não quer mudar o hábito que você acredita que ela deveria mudar, para então se tornar a pessoa que você idealiza. Mas, do outro, você também não quer mudar o hábito de acreditar que outras pessoas devem alterar aquilo que você acha que deveriam. O que aprendi é que só adianta colocar nossa energia para mudar o outro quando este alguém somos nós mesmos. Porque só temos o poder de fazer isso com a gente mesmo. Só que não dá para estar 100% focado em mudar você mesmo se uma parte ainda quer mudar o outro.

Aí, vale observar de onde vem a sua preocupação. É porque o outro está sofrendo ao não mudar ou é você que se sente incomodado ao ver o outro sofrer (ou supor que ele passará por isso no futuro)? Percebeu? É sempre sobre você. O nome disso é ego. Mas está tudo bem: o que vale é começar a tomar consciência quando dentro de você acontecer esse impulso, esse movimento, essa dinâmica. Assim, da próxima vez que pegar seu ego no pulo, querendo “ajudar” alguém a mudar, pergunte-se: “Eu mesmo, aqui do alto da minha sabedoria sobre ‘o que é melhor para o outro’, já fiz tudo o que poderia fazer para modificar os incômodos na minha vida? (Talvez, inclusive, começando pela vontade irresistível de mudar o outro?!)”.

Ajuda

Caso a resposta seja não, abrace esta missão. Se ama essa pessoa a quem gostaria de ajudar, mude a si mesmo, torne se mais paciente, compassivo, generoso. Assim, também se tornará a pessoa adequada para ajudar quem tanto ama. E você vai saber quando essa hora chegar: quando a própria pessoa vem até você pedir ajuda. Nesse momento, ela vai participar com você da construção do plano dessa mudança e vai colocar a energia dela junto com a sua nisso. E aí, sim, tem chance de acontecer alguma coisa.

Mas, se para chegar a esse momento a pessoa que você ama tiver que passar por uma fase de sofrimento, tudo bem. Porque faz parte do processo. Fique por perto e escolha ter compaixão ao observar que ela também está agindo e tomando decisões nesse momento com toda a sua capacidade. Acredite na habilidade de quem você ama de sair das próprias enrascadas. E diga isso a ela: “Eu acredito em você”. Essa será sempre a melhor ajuda que você pode dar.

Paula Abreu é coach e autora do livro Escolha Sua Vida (Sextante). Seu site é escolhasuavida.com.br


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