Essa tal economia criativa

  • TEXTO Ana Holanda
  • FOTOGRAFIA Rachael Gorjestani | Unsplash
  • DATA: 08/06/2019

Para uma das maiores especialistas no tema, Ana Cainha, o termo está relacionado, também, à capacidade de reconhecer a própria história e, assim, olhar para o futuro com mais humanidade

Ela nasceu Ana Carla, mas logo se transformou em “Cainha”. É que o irmão não conseguiu falar “Carla”. Ficou Cainha, até hoje. Filha de pai psiquiatra e mãe psicóloga, quis fazer medicina quando terminou a escola, aos 16. O pai a levou para assistir uma aula na Faculdade de Medicina da USP, como ouvinte. Ela foi e não gostou. “Percebi que durante a faculdade as pessoas deixavam de ser pessoas para serem pacientes. Não havia humanidade e concluí que não era para mim.” Foi, então, fazer administração pública na Faculdade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Depois se embrenhou pela economia, na USP, e, em seguida, mestrado em marketing cultural. Trabalhou com comportamento do consumidor. Morou em vários países por conta do emprego.

Quando o cargo que ocupava passou a não fazer mais sentido, abriu a Garimpo de Soluções, onde faz curadoria de eventos e atua com projetos ligados a economia e à cidade. Ana Cainha é hoje um dos principais nomes quando o assunto é economia criativa ou o futuro do trabalho. Autora de livros, é membro do Corpo Mundial da Unesco em Diversidade e foi apontada pelo jornal El País Brasil como uma das oito personalidades brasileiras que impressionam o mundo.

De fato, Ana Cainha impressiona pelo jeito leve de falar, pelo constante brilho nos olhos, pela paixão em aprender sempre. O objetivo dessa conversa era trazer um olhar mais claro sobre o termo que ouvimos tanto, economia criativa, e o que essa expressão tem a ver com a nossa vida. Na fala de Ana, é possível perceber que a tal da economia criativa não tem necessariamente relação apenas com números, tecnologia e a capacidade de criar. É um pouco de tudo isso, claro, mas é principalmente sobre “a importância em resgatar o que é nosso, a nossa história, as nossas raízes”.

O que é economia criativa?
Mais do que um conceito, é uma lógica econômica desse século. Toda fase da economia começa na esteira de alguma revolução. E a criativa surgiu em meados da década de 1990, junto com a revolução digital, que transformou, entre muitas coisas, a maneira como a gente se comunica. De ideias a dinheiro, tudo começou a circular com facilidade. Por conta disso, os serviços ficaram cada vez mais parecidos e seus ciclos de vida, mais reduzidos. Assim, aquilo que se mostrou como diferencial para fazer a inovação passou a ser a criatividade [na Revolução Industrial, as pessoas eram pagas para fazer, e não para pensar]. Na minha concepção, a economia criativa trouxe o resgate da importância do ser humano dentro da economia. Se tudo está tão parecido, o que se destaca é você conseguir fazer algo que tenha valor agregado para o outro.

Poderia me dar um exemplo?
Desde uma Apple, que consegue fazer produtos com uma cara própria, até a Insecta Shoes [empresa brasileira que fabrica acessórios ecológicos], que reconhece que o produto mais verde é o que já existe, pega as sobras de outras produções e transforma em artigos veganos, artesanais, com olhar diferente. Qualquer uma das duas tem ofertas que não são facilmente copiáveis e, mais do que isso, são vistas como valor agregado junto ao seu público. Você compra também uma ideia.

A criatividade está em alta?
Sim. E entenda-se por esse talento criativo a capacidade de fazer coisas que não são copiáveis, repetitivas ou substituíveis por máquinas.

Isso está relacionado com o futuro do trabalho?
Todas as profissões serão impactadas pela tecnologia e algumas deixarão de existir. E daí o discurso deixa de ser individual para ser coletivo. Porque não adianta você ser criativo se não existe uma sociedade, que gere produtos e serviços diferenciados. A perspectiva é que quem está ingressando no mercado de trabalho hoje tenha até cinco carreiras ao longo da vida. A discussão não é se um setor é mais criativo ou não, mas como você aperfeiçoa o talento criativo das pessoas para que todas possam desenvolver essa capacidade.

E como cada um pode se desenvolver?
Parando de pensar em profissão e começando a pensar em habilidades. É isso que fará a diferença. E, no final, o que faz a diferença é o que é humano: a inteligência social, emocional, o raciocínio crítico, a nossa capacidade de tomar decisões em cima de valores éticos. Saber colocar intenção em tudo o que faz. Não apenas fazer por fazer. E também focar na capacidade técnica, no sentido de esmiuçar detalhes, questionar, aprofundar.

Como o empreendedorismo entra nisso tudo?
Na economia criativa é essencial saber empreender. Estamos nessa passagem em que o emprego do jeito que a gente conhece está sumindo, mas o trabalho não. Para isso, precisamos ser mais proativos, saber o que queremos. Empreender tem a ver com autoconhecimento. Para se desenvolver como empreendedor, você tem, necessariamente, que se perguntar “o que eu quero?”. E isso tem que estar relacionado com a sua essência. É ter alegria no que você faz.

Você fala sobre a importância de se relacionar com a cidade. Como isso se mistura à economia criativa?
A partir do momento em que você amplia a capacidade de conexão com a cidade, também amplia a conexão consigo. É como a jabuticabeira, que floresce para cima o tanto que cresce para baixo. Tenho um amigo que gosta de caminhar observando as calçadas, porque acredita que isso mostra a urbanidade da cidade. Temos que saber apreciar o que é cotidiano. Não existe mais essa história de reciclar a cabeça nas férias. Tem que ser uma prática de todo dia. E a cidade é maravilhosa para desenvolver isso.

Percebo que a curiosidade foi que a levou a pesquisar e entender o mundo de hoje.
Sim, minha mãe sempre me disse que sou muito xereta. Na verdade, acho que foi um misto de duas coisas, a curiosidade e saber olhar para o outro. Quando era criança, tinha um problema respiratório que não curava, e o ar de São Paulo não ajudava. Tínhamos um apartamento no litoral paulista e o pediatra sugeriu que passássemos um tempo por lá, que isso iria me auxiliar no tratamento. E deu certo. Então, minha família decidiu que moraríamos um tempo ali, por mim, para que eu ficasse bem. As decisões em casa eram assim, pautadas pelo respeito e bem-estar do outro. Foi uma lição que aprendi para a vida.

 


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COMENTÁRIOS

  • Fernanda Silveira

    Que materia linda!

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