Cubano libre

  • TEXTO Diogo Antonio Rodriguez
  • DATA: 08/08/2019

Celebrado por seu romance O Homem Que Amava os Cachorros, Leonardo Padura cria ficções históricas nas quais a política é importante, mas o principal é contar uma boa história

O fato de Leonardo Padura ser cubano traz consigo a tentação de encaixá-lo no debate político que sempre surge ao se falar da ilha caribenha. Mas o escritor não se deixa inserir em definições simplistas.Apaixonado por história, recorre a episódios marcantes, como o assassinato de Leon Trotsky, para compor o molde de suas narrativas. Mas Padura deixa claro: seu ofício é a literatura. Tentar enxergá-lo dentro de algum espectro político específico, diz ele, é ignorar sua missão de ser independente – mas sem perder a ternura.

Realidade e ficção

De onde surgiu a vontade de misturar ficção e história?  Sempre fui muito interessado na história, nas origens das coisas. Como jornalista, fiz muitas reportagens de investigação histórica sobre a cultura, a identidade cubana. E isso me ajudou muito a desenvolver as ferramentas de pesquisador que tenho utilizado para preparar meus romances. Mas, quando um romancista escreve sobre acontecimentos históricos, não o faz como historiador. Afinal, o  romance é, fundamentalmente, ficção.  E aí se produz o cruzamento entre realidade e imaginação que realizo.

Como é sua relação com Havana?  Sou um escritor cubano, mais que cubano, havaneiro. E nunca poderei ser outra coisa que não um escritor havaneiro. Por isso não faz sentido ir para outro lugar, mesmo que pudesse ter condições materiais melhores para viver, inclusive mais tranquilidade para escrever. Minha dependência é visceral, cultural, vai além de toda consideração política ou econômica, e entra no terreno da relação espiritual, que é decisiva para alguém que faz literatura.

Homem livre

Em suas obras, percebemos como a política se mistura à vida íntima das pessoas. Como é sua experiência particular com isso? Minha experiência não é importante, na medida em que eu nunca fui um homem
político, não militei em nenhum partido. Por escrever o que escrevo, por pensar o que penso, algumas pessoas em Cuba me consideram um inconformado com o sistema.

Mas, pela mesma razão, outros de fora me olham como um porta-voz oficial do sistema. Minha opção sempre foi manter minha independência, não colocar minha literatura a serviço da política, tratar na medida do possível de ser um homem livre, com um pensamento livre. Não é fácil, mas tento.

 


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