O que aprendi ao correr

  • TEXTO Carolina Barboza
  • FOTOGRAFIA ilustracão Tiago Gouvêa
  • DATA: 16/11/2020

Colocar um par de tênis nos pés e sair por aí, ganhando velocidade, vai além do exercício físico. Corrida de rua é algo que também pode nos ajudar a lidar com nossas dificuldades emocionais e até mesmo com as dores da alma

A motocicleta do meu pai foi meu primeiro par de asas. Corríamos para a estrada para experimentar uma das sensações mais gostosas de liberdade: o vento batendo fresco no rosto, enquanto andávamos de Harley-Davidson, às vezes sem destino definido.

Juntos, experimentamos boas aventuras percorrendo cidades vizinhas – e próximas da nossa casa, no interior de São Paulo – para explorar bistrôs, cafés, lojas de antiguidades ou qualquer destino que rendesse algumas horas de estrada. Eram viagens que nos proporcionavam fotos (que eu clicava de cima da garupa, enquanto ele pilotava) e muitas histórias para contar: das pessoas que conhecíamos, sons, cheiros, paisagens e vivências (lembro-me da chuva alfinetando gelada, em nós, num dia em que o tempo subitamente mudou e estávamos desprovidos de capa ou qualquer tipo de proteção, mas mesmo assim seguimos viagem).

Um diagnóstico que mudou tudo…

Era libertador voar pelas estradas. Eu já tinha me acostumado com esse tipo de “fuga” em cima de duas rodas quando meu pai foi diagnosticado com um câncer severo no estômago, avançado em seis meses quando descoberto. O ânimo ficou encostado na parede, assim como a motocicleta na garagem.

Em poucos meses, as sessões de quimioterapia deixaram meu pai fraco e debilitado, e era estranho imaginar como aquele homem forte de 49 anos se sairia pilotando uma máquina de mais de 300 quilos sob os efeitos da doença. As viagens tornaram-se escassas e o pó fazia uma fina camada sobre a capa que protegia nossa querida Harley-Davidson branca.

Os motores silenciaram pouco tempo depois, quando meu pai faleceu no quarto gelado de um hospital, exatas duas semanas antes do Natal. O luto veio repentino e aprisionador. Inicialmente, atordoada pela falta que aquele hobby me trazia, busquei conforto na psicologia e na atividade física, com aulas de Pilates. Aqueles compromissos semanais eram minha principal distração.

Saindo do sofá e do luto

Movimentar o corpo gradualmente me fornecia disposição e fôlego. Um fôlego que também vinha de dentro, e era capaz de manter a esperança de encontrar dias melhores. Meses depois, motivada por um tio, que corre há pelo menos duas décadas, decidi acrescentar alguns treinos de corrida à minha rotina. Dali em diante, eu estava mais estabilizada para encarar o luto (literalmente) com as minhas próprias pernas.

Não foi fácil adaptar a sensação que a estrada me proporcionava à esteira de uma sala fechada. Eu frequentava a academia enquanto não tinha fôlego para correr na rua, mas constantemente pensava em assumir a motocicleta deixada pelo meu pai (mesmo ainda não sendo habilitada a pilotá-la ou tampouco tendo músculos suficientes para manobrar aqueles quilos todos daquela máquina de duas rodas).

Enquanto meus pensamentos amadureciam, as caminhadas rápidas ganhavam mais ritmo e distância. Meu tio também insistia para que eu saísse do ambiente confortável da academia e fosse para a rua correr, mas eu ainda pensava na Harley-Davidson. Mas, aos poucos, passo após passo, o suor e a endorfina dos treinos me trouxeram ânimo para persistir naquela nova modalidade, que me tirou do sofá molhado pelas lágrimas do luto recente que eu enfrentava.

Da esteira à rua

Cerca de seis meses se passaram até que decidi me aventurar: eu me inscrevi em uma prova de 5km para correr em uma área rural da minha cidade. Era um percurso íngreme, cheio de pedras, com uma estrada de terra, cercada por pinheiros altíssimos, e algumas fazendas – paisagem, coincidentemente, parecida à que eu experimentava nas estradas, de motocicleta, com meu pai.

Era uma experiência inédita fora do ambiente controlado da esteira. No dia da corrida, garoava fininho. Encarei uma subida logo nos primeiros metros, mas corri o percurso todo, atenta a tudo que via ao redor, enquanto minhas pernas cumpriam a missão tão recente. Descobri que o vento batia gelado no rosto da mesma maneira que acontecia quando andava de moto. Veio, então, a sensação de que meu pai me abraçava. Aquela manhã nublada me acolheu como eu jamais imaginei.

Perto do final, ouvia os nomes dos atletas sendo anunciados pela organização do evento, e eu ganhava confiança para prosseguir os últimos metros com ânimo. Foi intenso e exaustivo. Cruzei a linha de chegada afobada pelos novos estímulos físicos e psicológicos, e estava sedenta por mais experiências como aquela. Parecia que eu tinha enfim recuperado a sensação de liberdade na corrida de rua.

Novas sensações depois da primeira corrida de rua

No caminho de volta à casa, questionei meu tio: “Quando será a próxima?”. Os passos seguintes me deixavam ansiosa a cada novidade: entrei em um grupo de corrida, estabeleci uma meta de provas para participar no ano seguinte e passei a treinar com mais frequência e intensidade. A vontade de aumentar a quilometragem vinha do resgate de experimentar o conhecido vento batendo no rosto.

Assim como em cima da Harley-Davidson, na corrida de rua eu me sentia parte da paisagem, exposta para interagir com todo tipo de aroma, clima ou sensação que o percurso permitia. O luto já não trazia mais tanta dor, e as sessões de terapia vinham acompanhadas dos meus relatos e crônicas de rua – dessa vez correndo.

Inspiração para a vida

O entusiasmo crescia à medida que os 5km avançavam para 8km, depois 10km e o sentimento de liberdade era prolongado. “Você trocou a moto pelas próprias pernas”, minha terapeuta disse, animada. E eu me emocionei enchendo os olhos d’água. Eu ainda não tinha me dado conta, e repeti baixo para mim mesma: “parece que sim”.

A partir do momento em que a ajuda psicológica despertou minha nova potência, fui movida pela possibilidade de me expandir (em corpo, mente e espírito) enquanto desafiava a própria capacidade de lidar com o desconhecido explorando as cidades.

A dor do luto até hoje ainda existe dentro de mim, mas foi ressignificada pela minha reconstrução de uma lembrança forte (o vento no rosto) e a persistência de sentir inspiração pela vida porque eu me vi capaz de progredir, avançar e, sobretudo, dar conta (apesar da dor). Ganhei asas e recuperei a força que me libertou com todo o amor e a vontade de (re)viver. Já não precisava mais de rodas. Eu consegui prosseguir com as minhas próprias pernas.

Carolina Barboza


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