Como ter um trabalho com mais significado?

  • TEXTO Mônica Barroso
  • DATA: 06/01/2020

Encontrar um sentido no trabalho é primordial para uma existência mais plena e feliz. A grande dificuldade, no entanto, é descobrir um caminho que una a atividade profissional com a sua essência. Uma das maneiras de fazer isso é experimentar algo novo, que o tire da zona de conforto

 

“Os dois dias mais importantes em sua vida são o dia em que nasceu e aquele em que descobriu por quê”, já dizia Mark Twain, escritor, humorista e pensador americano do século 19. Vivemos em tempos que exigem de nós um entendimento, cada vez maior, de por que fazemos as escolhas que fazemos. É normal, por exemplo, a gente não se contentar mais apenas com o retorno material que o trabalho nos proporciona. Ele precisa ser mais do que isso: é necessário nos trazer uma realização pessoal e, sobretudo, uma vida com mais propósito – aquilo que buscamos para alcançar uma satisfação como seres humanos. Ou seja, queremos algo que esteja amplamente conectado com nossos valores e com a possibilidade de reconhecimento, quer no ambiente corporativo, quer nas relações pessoais.

O filósofo e educador brasileiro Mario Cortella traz uma dupla definição oportuna do termo “realização” que nos ajuda a entender essa dinâmica de trabalho e vida pessoal. Do latim, entendemos realização como “tornar real”, ou seja, compreender nossa existência a partir do que fazemos, da marca que deixamos no mundo. Já do inglês (to realise) temos uma interpretação relacionada à consciência, ao “dar-se conta de algo”.

A era da consciência

Vivemos a era da consciência, do propósito, em que, mais do que habilidades e conhecimentos técnicos, o mercado de trabalho busca nos profissionais inteligência emocional. E isso se expressa em criatividade, em empatia e na capacidade de dar sentido e significado a produtos e serviços. Essa é a tônica dos tempos atuais, não só na esfera profissional mas na vida que levamos todos os dias.

Como dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “Aqueles que sabem o ‘porquê’ da sua existência podem suportar qualquer ‘como’ para realizá-lo”. Essa frase resume todo o trabalho de Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, fundador da logoterapia, que se tornou uma das principais referências em pesquisas sobre propósito de vida. Ele mesmo conseguiu suportar todas as dores dos campos de concentração nazistas porque tinha uma intenção maior: ajudar outras pessoas naquele momento e depois. Mas ele não sabia que tinha esse propósito até estar diante dele. “O que realmente importa não é o que nós esperamos da vida, mas antes o que ela espera de nós”, disse ele.

Experimentar

Quem nunca se deparou com uma situação não planejada, como por exemplo receber uma oferta de emprego, e de repente essa possibilidade se tornar a coisa mais importante para alcançar a realização, a chave para a felicidade? Situações como essa nos mostram que não precisamos necessariamente saber de antemão o que queremos ou do que gostamos para então buscar fazê-lo.

Muitas vezes, precisamos apenas experimentar, fazer sem saber se aquilo fará sentido, abrir espaço para o desconhecido agir. Isso, sim, pode nos indicar o caminho da realização. Afinal de contas, a vida é feita de planos e circunstâncias externas. O importante é observar quais os sentimentos que brotam dentro da gente quando nos colocamos nesse tipo de situação inesperada ou nova. Uma sugestão: nunca deixar de se perguntar “Por que estou fazendo isso ou aquilo?”. Isso é estar consciente dos seus atos, estar presente no mundo e fazendo valer essa breve existência.

Essa consciência é alcançada através do hábito, assim como toda virtude humana. Aqui falamos do hábito do reconhecimento a partir de duas lentes. A primeira é a lente do autorreconhecimento, ou seja, aquela que nos permite nos reconhecermos naquilo que fazemos. E, aí, vale fazer perguntas simples, como: “Por que isso é importante para mim? Por que gosto de fazer isso? Quais são minhas qualidades e fragilidades?”.

Um círculo virtuoso

Essa é a lente do autoconhecimento. A segunda é a da empatia, ou seja, do reconhecimento do que é importante e significativo para o outro, para o mundo. A combinação dessas duas perspectivas, como Aristóteles já dizia há mais de 2 mil anos, aproxima o homem da grande busca pela felicidade: “Onde as necessidades do mundo e os seus talentos se cruzam, aí está a sua vocação”. Entendendo vocação como nossa missão ou propósito maior. Portanto, é importante ter sempre a seguinte questão em mente: “Qual o significado do meu trabalho para mim e para os outros?”.

Ao fazermos esse tipo de reflexão estaremos conectados com o sentimento de reconhecimento – que é chave nessa busca por sentido e significado. Por sua vez, uma atividade que permita um autorreconhecimento é fonte de motivação. E a motivação gera a busca por excelência naquilo que fazemos. E assim por diante, em um círculo virtuoso.

Talentos e paixões

“Mas e se mesmo assim não consigo identificar do que gosto ou o que tenho a oferecer? Quais são minhas paixões e meus talentos?” Uma forma simples de exercitar esse hábito é passar a identificar e reconhecer as boas coisas da vida, começando sobretudo pelos pequenos prazeres. Por trás deles podem estar escondidos possíveis talentos e paixões. Por exemplo: o que pode estar por trás do cheirinho de café logo cedo?

Uma forma de aprofundar essa reflexão é fazer o mesmo exercício identificando as frustrações do cotidiano: primeiro as próprias, depois as dos outros, e a partir daí conseguimos enxergar necessidades, lacunas, que são possíveis espaços de atuação profissional. Cruzando as duas reflexões (prazeres e frustrações) conseguimos entender em que medida nossos talentos e paixões podem atender às necessidades do outro e do mundo e, nesse momento, vamos ficar mais próximos do pensamento aristotélico citado anteriormente. Afinal de contas, apenas gostar do que se faz não traz a satisfação plena, se ninguém mais se interessar ou se beneficiar daquilo. O economista Muhammad Yunus, criador do microcrédito, define esse estado como a suprafelicidade (super happiness).

Piloto automático

Portanto, quanto maior nosso autoconhecimento, maior nossa sensibilidade e capacidade de servir a interesses maiores do que apenas os nossos e, portanto, de sermos mais felizes. O autoconhecimento nos proporciona sair do “piloto automático”, que nos distancia de nós mesmos e não nos torna autores de nossos feitos, mas meros reprodutores. Uma pessoa consciente das razões pelas quais faz o que faz é mais eficaz e motivada.

Construir uma carreira com significado é, de certa maneira, empreender a si mesmo. É criar condições para que a vida profissional contribua para a realização de nosso propósito maior. Lembrando que, para alcançar isso, não basta apenas a paixão pela sua atividade, mas também o sentido do que você faz para o outro e para a sociedade, tudo na justa medida.

 

Mônica Barroso viveu com comunidades na Amazônia e desde então trabalha com o desenvolvimento de soluções econômicas a partir da cultura e do meio ambiente. É professora da The School of Life, onde dá aulas sobre Como Encontrar um Trabalho Que Você Ame.


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