Campeão de caratê ensina a arte marcial para jovens carentes

  • TEXTOS Sibele Oliveira
  • FOTOGRAFIA Alci Alliata | Unsplash
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Eduardo Nascimento tinha sete anos quando viu um livro do lutador Bruce Lee. Admirando as posições de kung fu, o menino decidiu que seria mestre de artes marciais. Nunca pensou que a rotina difícil que levava com a família em Campos Sales, no Ceará, seria um obstáculo para isso. Aproveitava o tempo livre, quando não estava engraxando sapatos, vendendo frutas, picolés ou fazendo carretos, para treinar. Comprou um segundo livro para aprender mais e viu o endereço de uma academia de São Paulo. Foi para a estrada e pediu carona até chegar à capital paulista. Era adolescente. Passou as primeiras noites no banco de uma praça até que um funcionário de uma lanchonete se ofereceu para ajudá-lo e o levou à academia, onde ele encontrou Michizo Buyo. “Você é o índio do nordeste que veio treinar aqui?”, perguntou. Fizeram amizade na hora. Eduardo escolheu a favela da Vila Prudente para morar porque queria conviver com outros nordestinos. Para se manter, trabalhava num posto secando carros. Aluno dedicado, logo começou a vencer campeonatos. Até hoje se emociona quando lembra os gritos do público: “Vai, Índio”.

Nessa época, Michizo disse a Eduardo que ele precisava dar aulas antes de receber a faixa preta. Foi assim que o Sensei Índio, como é conhecido, começou a ensinar caratê na comunidade. De 1977 até hoje, cerca de mil alunos, com mais de cinco anos, já passaram pelo seu tatame. “O caratê é importante para as crianças e os jovens da favela porque eles aprendem a ter disciplina, concentrar-se na escola e tirar notas altas. É uma luta que prepara para a vida”. Mas não é só técnica que Índio ensina; ele faz questão de transmitir valores como respeito e honestidade.

Há três anos, ele e um amigo criaram o Projeto Função, que prepara jovens das comunidades do entorno para o mercado de trabalho. Além de caratê, aprendem informática, inglês e espanhol. Eduardo é uma espécie de faz-tudo por lá. Substitui o professor de informática quando ele falta, auxilia o padre nas missas, ajuda voluntários que cuidam de doentes, organiza eventos, é amigo e conselheiro de todos. É um homem realizado, mas que ainda tem um sonho: montar um circo na comunidade. “Não quero fortuna, nem riqueza. Tudo o que quero é para os meus alunos”.


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