Brincar é coisa séria

  • TEXTO Ana Holanda
  • FOTOGRAFIA RafaPress | iStock
  • DATA: 10/08/2019

Em documentário, educadora mostra a importância das brincadeiras para o desenvolvimento e autoconfiança das crianças

Durante dois anos a educadora Renata Meirelles, junto com o marido, David Reeks, viajou pelo país visitando comunidades rurais, indígenas e quilombolas, para retratar as brincadeiras das nossas crianças. O marido filmava, ela fotografava e conversava com as pessoas. O projeto acaba de virar um lindo documentário, “Território do Brincar”. “Por meio dos gestos das crianças conseguimos fazer um retrato de nós mesmos”, conta Renata, que estuda o universo das brincadeiras há quase duas décadas.

Como foi registrar tantas brincadeiras?

Ficávamos de um a três meses em cada comunidade. O objetivo era se aproximar das pessoas, das crianças, conviver com todos e mergulhar naquela infância. Levamos nossos dois filhos, que na época tinham 2 e 4 anos. Percorremos 9 estados e 14 comunidades. E priorizamos lugares onde não havia muito a influência do mundo contemporâneo. Queríamos saber o que elas tinham de mais genuíno na hora de se divertir. E também o que no brincar se relaciona a todos nós.

Quais as brincadeiras mais comuns?

Meninos e carrinhos, a gente vê em todos os lugares. Eles gostam de qualquer meio de transporte. Alguns são construtores e se colocam nesse papel, que provavelmente vão levar para toda a vida. Outros, são inventores. E gostam de fazer coisas a partir do zero. As meninas preferem as atividades que envolvam o corpo ou a casa. Pode ser amarelinha, pular corda, elástico. Mas quando elas brincam de casinha, não é só uma cópia do mundo adulto, é uma recriação da vida. Ela está ali criando um espaço, um mundo próprio que ninguém a ensinou.

O que você descobriu sobre a relação entre a brincadeira e a vida adulta?

O brincar começa quando você deseja alguma coisa. É a diferença entre a criança falar ‘vamos brincar de casinha’ e alguém montar um espaço desses e dizer ‘venha se divertir aqui’. Tem que respeitar o que é espontâneo. Só que, às vezes, queremos oferecer experiências prontas para os filhos. E isso gera seres humanos enfraquecidos daquilo que desejam.

Se você não faz isso na infância e tem alguém sempre dando algo pronto, acaba se acostumando apenas com o que é de fora para dentro. Quando adulto, você se torna uma pessoa mais suscetível ao patrão, ao político, ao companheiro. A brincadeira é um exercício pleno da vontade e do desejo, do qual, aliás, o ócio também faz parte.


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COMENTÁRIOS

  • Marinete Oliveira

    Eu acho muito importante as crianças viver seu momento,nos adultos devemos impor regras,elas não tem noção do que espera no futuro.vamos fazer nosso parte.
    Cada momento tem que ser vivido ao seu tempo.

    Responder

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