A imagem do nascimento

  • TEXTO Débora Zanelato
  • FOTOGRAFIA Lela Beltrão
  • DATA: 04/08/2019

Livro Nascer, da fotógrafa Lela Beltrão,  fala sobre a importância de um parto respeitoso e nos revela, através de imagens, a potência que é este momento para a mulher e a família

Aquele corpo pequenino, quentinho e molhado, e a emoção de segurá-lo pela primeira vez, depois de uma jornada de gestar e parir. Mãe e filho. Este momento é, entre as mulheres, uma das sensações mais potentes de toda a vida.

Colocar um filho no mundo é um processo poderoso mas também cheio de desafios. No Brasil, especialmente, carregado por muitas dificuldades: por aqui, uma a cada quatro mulheres sofre violência obstétrica, ou seja, escuta comentários ou sofre intervenções que violentam suas escolhas, seu corpo, seu processo emocional, e, sobretudo, deixam marcas permanentes neste que é um dos momentos mais importantes de uma família. E, ainda, mesmo diante das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para que o índice de cesárea seja de 15%, nas maternidades particulares esse número pode ultrapassar os 90%.

O livro Nascer, da fotógrafa Lela Beltrão, é não só um manifesto pelo parto com respeito, mas, mais ainda, uma oportunidade de entrar em contato com a naturalidade e a fisiologia do corpo da mulher, da capacidade de parir e, mesmo nos casos onde uma cesárea é, de fato, necessária, a possibilidade de um processo mais acolhedor para mãe e bebê. Por meio de imagens de trabalho de parto registradas por Lela, ganhamos um entendimento maior sobre o que é parir,  e sentimos a emoção envolvida nesse processo.

O livro está em campanha de financiamento coletivo, onde a compra antecipada do exemplar garante recompensas ao leitor e viabiliza a publicação da obra.

Nesta entrevista, Lela Beltrão, uma das fotógrafas de parto mais reconhecidas do Brasil, fala sobre como o parto é um momento de potência na vida da mulher e da família, reflete sobre como é fotografar esse momento tão íntimo e especial e expressa um profundo respeito por este momento.

Por que a importância de falar de parto no Brasil, um dos países com a maior taxa de cesárea do mundo?

A gente vive um momento delicado, perdemos a naturalidade de um processo tão orgânico e instintivo que é o parto. Nesses tempos onde as pessoas acreditam que “tempo é dinheiro”, não se respeita mais o tempo da mãe e do bebê. E a cesárea, cirurgia importantíssima para salvar vidas e que deveria ser exceção, acaba sendo banalizada e comum.

Perdemos de vista a importância, tanto para a mãe quanto para o bebê, do processo do parto. Do nascimento via vaginal e do contato mãe e bebê na primeira hora de vida. Existem muitos estudos dizendo os benefícios do parto normal para toda a vida do bebê, mesmo assim, nas maternidades particulares de São Paulo as cesáreas correspondem a 85% dos nascimentos, enquanto a OMS indica que não ultrapasse 15%.

Ao mesmo tempo, 1 a cada 4 mulheres sofre violência obstétrica no Brasil. E ao invés de combatermos a violência obstétrica, temos um projeto de lei a ser votado em agosto que pretende autorizar a cesárea eletiva (sem necessidade) a partir da 39º  semana no SUS. Um projeto desastroso que vai dar como opção para as mulheres um parto traumático ou uma cesárea desnecessária. Temos de olhar as mulheres com respeito, dignidade, compaixão. Temos de lutar pelo fim da violência obstétrica. Acredito sim que a mulher deve ter escolha, mas temos de cuidar pra não piorar ainda mais a situação da qual as mulheres já estão.

 

Qual mensagem você quer levar para as pessoas através do seu livro?
O livro traz imagens de mais de 50 trabalhos de parto. Quando vemos 2, 3, 4 mulheres nos mesmo momento do trabalho de parto (uma contração, na banheira, com o filho mais velho, no expulsivo) percebemos uma naturalidade no ato de parir.

Acredito que a fotografia é um agente de transformação. As mulheres, vendo outras mulheres parindo, se identificam, se questionam e buscam se informar para o seu próprio parto. Com informação elas se empoderam do seu processo e passam a ser protagonistas do seu trabalho de parto.

Então, o livro tem também uma função social, que é ampliar e despolarizar o pensar sobre o nascer. Desmistificando também o conceito de parto humanizado, que nada mais é do que um parto com respeito; seja em casa, no hospital, com anestesia ou natural. Ou mesmo uma cesárea intraparto necessária.

 

Como você vê o parto enquanto um “evento”, um momento da vida da mulher? O que o parto representa, de maneira geral, na sua visão?
Vejo o parto como um portal na vida da mulher. Depois do parto tudo muda. A mulher vira mãe, e a partir daí todas as referências de vida mudam também. Você se torna mais forte, afinal de contas agora tem uma cria para cuidar. E cuidar de filhos é um desafio e tanto! Especialmente nos dias de hoje, onde muitas mulheres não contam com uma aldeia, uma rede, uma comunidade para compartilhar o trabalho. Acredito que o parto, o trabalho de parto especificamente, com todas os seus processos e dificuldades, é uma preparação para o que vem em seguida. O puerpério e o ser mãe.
Na sua beleza, na sua grandeza e nos seus desafios.

 

Como você se sente registrando partos? O que é mais desafiador e o que é mais recompensador?
Eu me sinto muito privilegiada e muito honrada quando me chamam para acompanhar e registrar o trabalho de parto. Afinal, estou sendo convidada para partilhar de um dos momentos mais íntimos e importantes na vida daquela família. Meu desafio é contar aquela história a partir do meu ponto de vista, como se eu fosse contar para aquele bebê, através das imagens, como foi o seu nascimento. É um trabalho puramente fotojornalístico, e apesar de eu estar o tempo todo junto, presente, cuido para que o registro não interfira no processo da mulher. E acredito ser esse o maior desafio. Além, claro, de conciliar essa vida de plantão 24hs com a minha própria família e filhos.
A recompensa dessa vida de plantonista é presenciar nascimentos. É muito mágico acompanhar partos. É muito intenso ver as mulheres desabrochando, cada uma no seu processo. Eu diria que é incrível acompanhar o processo de cada uma. Acho que não tenho muitas palavras para definir; é emoção, amor, admiração e respeito que sinto por cada uma delas.

Livro Nascer
Lela Beltrão
Disponível na campanha de financiamento coletivo:
https://www.catarse.me/livronascer

 

 

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