A agroecologia pode nos salvar da crise climática

  • TEXTO Alessandro Fernandes
  • FOTOGRAFIA Annie Spratt
  • DATA: 02/08/2022

As consequências da crise climática, que afetam o Brasil e o mundo, ocasionam secas extremas, enchentes e alterações nas condições normais do clima. Como uma das principais aliadas na redução das emissões de gases do efeito estufa e na preservação dos biomas nativos, a agroecologia é um caminho possível para uma transição sustentável na agricultura brasileira.

 

A crise climática passou a ser uma realidade nas nossas vidas e não mais uma previsão feita por cientistas. É inegável que o planeta passa por alterações profundas – muitas irreversíveis – na fauna e na flora terrestre.

Enchentes, secas extremas, queimadas e escassez de água são fenômenos recorrentes no Brasil, especialmente por ser um país com biomas tão diversos e atravessados por suas particularidades, contextos geográficos, climáticos e também políticos.

Segundo um estudo da Embrapa, as terras brasileiras são responsáveis hoje por alimentar cerca de 800 milhões de pessoas por ano no mundo, seja produzindo grãos ou animais em áreas de pastagem. O impacto dessa produção tem produzido consequências graves, que precisam ser alteradas.

Pensar a agroecologia como um sistema que respeita o meio ambiente e promove um mundo mais sustentável é uma alternativa que combate a crise climática e promove uma harmonia maior entre a humanidade e a produção de comida.

 

O modelo de agricultura moderno

A Revolução Verde – ou Revolução Agrícola -, ocorrida durante a década de 1970, foi um movimento intenso de mecanização da agricultura, otimização de processos produtivos no campo e aceleração do ritmo da colheita, plantio e trato com as plantas. É considerado um marco que transforma a produção de comida em um grande sistema industrial permeado pela tecnologia e empresas interessadas na produtividade do solo do planeta.

O agronegócio brasileiro, responsável por 70% do consumo de água no país, é também o principal poluidor, ao lado das queimadas, presentes especialmente na Amazônia. Com um sistema tecnológico, é possível a plantação de infinitos hectares de soja, trigo e outros grãos usados para consumo interno e exportação, embora necessitem de uma quantidade assustadora de agrotóxicos para prosperarem.

Essa é uma das características da agricultura moderna, mas isso nem sempre foi assim. Para Alessandra Nahra (@alenahra), jornalista especializada em sistemas alimentares e mestranda em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), “se você for pensar, o modelo de agricultura moderno é um modelo antiecológico: ele força a natureza, força os ciclos naturais, é uma agricultura de imposição, de controle, para tentar chegar em um resultado que é artificial.

 

Como cultivar comida que não seja dessa maneira?

A agricultura é hoje um dos principais vetores da emergência climática que vivenciamos hoje, o que nos coloca em um grande dilema, já que a produção de alimentos é uma das atividades essenciais para a sobrevivência dos seres humanos, ao mesmo tempo em que ela polui de forma incompatível com os limites apontados pela ciência.

Os dados do relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), divulgados em março deste ano, revelam que cerca de mais da metade da população do planeta está exposta aos efeitos das mudanças climáticas – algo em torno de 7,8 bilhões de pessoas. Repensar o nosso sistema de produção de alimentos é uma necessidade urgente para combater a crise climática e promover a sobrevivência de espécies de plantas e animais.

Mas que metodologias de cultivo de comida podemos utilizar para que não sejam tão poluentes? As práticas de agricultura sustentável e agroecológicas são alternativas adotadas no Brasil e no mundo que provaram serem benéficas ao solo e ao planeta, sem o uso de insumos prejudiciais à vida de outras espécies.

 

O que é agroecologia?

Embora possam ser interpretadas como técnicas de cultivo, as práticas agroecológicas são muito mais que isso, porque envolvem questões políticas, culturais e sociais relacionadas ao cultivo. “Tem toda essa questão que a agroecologia fala, quem é a pessoa da terra, como manter a pessoa na terra, por que ela saiu da terra? Métodos agroecológicos dizem respeito a fortalecer o camponês e a família agricultora para que eles não precisem sair dali e procurar outra ocupação”, explica Alessandra Nahra. 

 

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Campo x Cidade

O campo e a cidade são dois lugares que se dissociaram fortemente ao longo da história e desenvolvimento do país. A maior parte da população do Brasil vive nas capitais ou em regiões litorâneas, com uma grande densidade populacional, poucos espaços verdes e práticas de agricultura reservadas quase que exclusivamente ao campo.

Praticamente tudo o que consumimos de frutas, legumes e verduras foram produzidos em áreas rurais, embora surjam magicamente nas prateleiras dos supermercados das cidades. Não nos questionamos sobre em que condições aqueles alimentos foram produzidos ou de onde vieram.

“O jeito que a gente se organizou em cidades, combinado com os métodos de agricultura moderna, fizeram isso, o campo está de um lado, a gente de outro. Então, a comida tá longe e a gente precisa de muita coisa para chegar até nós”, comenta Alessandra Nahra.

Ainda assim, é preciso reconhecer a importância da agroecologia para o país, para o sistema alimentar e como aliada no combate à crise climática. O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), presente em diversos estados brasileiros, é um dos principais protagonistas da agroecologia e agricultura familiar da América Latina. A organização tem, por exemplo, uma das maiores produções de arroz orgânico e ações que buscam doar parte dos alimentos para famílias empobrecidas.

Outra possibilidade é a adoção das práticas agroecológicas em ambientes urbanos, como nas grandes cidades. Os sistemas de hortas nos bairros, por exemplo, é uma das iniciativas comunitárias mais importantes, porque diminui a alienação sobre a produção dos alimentos e ainda alimenta a população.

 

Ações para incluir a agroecologia no cotidiano

Quando Cuba se viu em meio à crise econômica em decorrência do fim da URSS, o país passou a incentivar uma grande produção local de comida para que a população não sucumbisse à fome. Hoje, como consequência do incentivo estatal, Havana é hoje uma das grandes cidades referência em sustentabilidade, autossuficiência e cultivo de hortas comunitárias.

Alessandra Nahra explica que pode ser simples colocar a agroecologia como prioridade, seja organizando uma horta comunitária no bairro, plantando canteiros de alimentos em praças ou até mesmo em uma área verde do condomínio. Ainda assim, “a ação individual sozinha não vai resolver, mesmo que seja uma ação com vários indivíduos. Precisa ter política pública, o Estado precisa estar junto nisso, se não a gente vai ficar enxugando gelo. É importante a gente pensar nisso, fazer esse enfrentamento de maneira coletiva e institucional”, defende a pesquisadora. 

Incluir a agroecologia na agenda pública do Brasil é contribuir para uma discussão sobre a forma como praticamos a agricultura no país hoje, se ela é necessária e benéfica ao meio ambiente na forma em que é praticada: altamente mecanizada, baseada na monocultura e na utilização de insumos químicos.

Alessandra Nahra finaliza afirmando que “a quantidade e a intensidade de eventos climáticos extremos está crescendo muito. O negócio está urgente e a nossa atuação de formiguinha é muito importante, mas talvez não dê tempo.”

 

 

 


ALESSANDRO FERNANDES é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará e estagiário na Vida Simples. Natural do Rio Grande do Norte, acredita no veganismo popular como uma das ferramentas de transformação da sociedade e no potencial da escrita e do Jornalismo em tocar as pessoas.


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