Qual é seu plano B?

  • TEXTO Liane Alves
  • FOTOGRAFIA Kelly Sikkema | Unsplash
  • DATA: 18/02/2019

Ter um, acredite, é bom para todo mundo. Se a vida não está dando certo de um jeito, pode dar de outro. E essa outra maneira quem sabe esteja muito mais afinada com seus desejos

Faça uma pesquisa básica entre seus amigos. Pergunte: “Você está feliz e satisfeito com seu trabalho?” Se alguém responder “não”, e muita gente vai fazer isso, você já pode estar diante de um candidato ao plano B. É bem possível, inclusive, que ele tenha já algum projeto em formação: um esboço de livro na gaveta, uma bancada de marceneiro no quarto de empregada, onde faz casinhas de madeira, ou uma maca para massagem onde atende raros clientes. Porém, é provável que nosso hipotético entrevistado ainda esteja um pouco confuso. Não sabe se o problema é trocar de emprego (às vezes resolve), mudar de profissão (aí o enrosco é mais sério), reinventar sua vida (mais complicado ainda) ou simplesmente se apenas pular de paraglide nas horas vagas já dá conta do recado.

Temos outro tipo bem comum que diz “não”: o bem-sucedido. Para nosso personagem, a existência do plano B não é motivada por um fracasso na carreira. Bem ao contrário. Nosso entrevistado é um profissional competente, com vasta coleção de cursos de especialização, ganha bastante dinheiro, é reconhecido por seus pares e talvez até seja modestamente famoso por suas palestras. Não é por mais lucro ou prestígio que ele quer mudar de vida, mas porque trabalha insanamente, fica até tarde na empresa e não consegue estar perto da família. Pode ser que esse nosso amigo nem precise, na verdade, de um plano B: um curso de como administrar melhor o tempo ou uma terapia que o estimule a dizer “não” já pode ser suficiente para resolver seu caso. Só que ele ainda não sabe disso.

Então, como podemos ter certeza de que nosso plano B pode realmente um dia virar plano A? E que esse tão acalentado sonho vai dar supercerto? Para saber essas e outras respostas, não tem jeito: você terá de ler a reportagem todinha. Boa leitura.

Uma das funções de um orientador de carreira é tirar de você suas próprias respostas e conclusões. Se você não está contente com seu trabalho ou vida, isso tem a ver com o quê? Com suas expectativas? Seus sonhos? Suas fantasias? Seus conceitos? Sua ideia de como algo deve ou não deve ser? Enfim, o orientador de carreira, assim como o coaching, tem um saco sem fundo de perguntas à disposição. Eles fazem isso para que você chegue ao fundo de si mesmo. Só assim é possível atingir o âmago da questão: por que você quer mudar?

Mas um orientador de carreira também conhece bem o mercado, as novas profissões que estão surgindo, as que vão desaparecer e como você pode vender melhor suas qualidades ao procurar um emprego, por exemplo. Isto é, também pode apontar alguns caminhos ou estimular seu cliente a fazer isso.

Adriana Gomes é orientadora de carreiras. Para chegar a isso, ela mesma passou por um intenso processo de mudança. Formada e pós-graduada em psicologia, e pronta para acompanhar o ser humano no processo de desenvolvimento de sua psique, no correr da vida foi trabalhar numa competitiva agência de headhunters, profissionais que caçam os melhores executivos do mercado para as empresas que são suas clientes. Ali, ela deslanchou. Não bem na direção que queria, é verdade. Para sua infelicidade, seu grande talento na empresa era justamente na área de negócios. E assim, de cargo em cargo, Adriana chegou à vice-presidência. Ela não odiava o que fazia: simplesmente aquele não era seu projeto da vida. “Queria estar em contato com gente, saber delas, ajudá-las, e não traçar planos e estratégias para a empresa lucrar mais”, diz.

Como ela não se decidia, o corpo começou a cobrar. “Atendia o telefone de um cliente e tinha de sair correndo para o banheiro”, conta ela. As dores se espalhavam por diferentes partes do corpo e o pânico começou a se instalar. “Esse já é um ponto extremo. Dali para a frente, o risco é grande: enfarte, derrame, doenças crônicas graves, depressão profunda”, afirma Adriana. Mas a história não precisa chegar a esse ponto. “É preciso estar atento a si mesmo quando chegam os primeiros sinais de insatisfação: falta de entusiasmo, questionamentos sobre sua adequação à profissão, falta ou excesso de sono, dificuldade em ir trabalhar…”

Por isso, preste atenção no que a especialista sugere. Se há sintomas de insatisfação, é necessário analisar o motivo com rapidez. “Nem sempre a questão é mudança de carreira. Atendi uma advogada que se questionava se era real­mente capaz de exercer sua profissão porque seu chefe constantemente a humilhava diante de todos. Seu problema não era com a carreira, ela tinha aptidão para isso. O que ela precisava fazer era mudar de emprego”, conta Adriana, que hoje ajuda pessoas em seu consultório, dá aulas, é coordenadora dos cursos de pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo e tem, ainda, sob sua direção, um site, o Vida e Carreira.

O tema da mudança profissional parecia tão complexo e rico para Adriana que ela decidiu se aprofundar no assunto. Escreveu uma tese de doutorado que acabou virando um livro de bastante sucesso: Mudança de Carreira e Transformação de Identidade (LCTE Editora). Nele, ela analisa como a identidade vai se transformando ao longo do tempo e como a profissão pode acompanhar, ou não, essas mudanças. Alguém pode querer ser médico ou engenheiro durante uma parte da vida e depois mudar o bastante como pessoa, a ponto de não querer saber mais disso. Vamos crucificar o fulano? Não. Tem outro jeito de levar essa história.

Mas então como saber, por exemplo, se um empresário que sempre sonhou em ser fotógrafo deve abandonar sua carreira e escolher outro rumo na vida? “Ele tem de pesquisar mais profundamente sobre sua escolha. Ou seja, avaliar se esse é apenas um sonho, se é um projeto com possibilidade real, e se esse desejo desperta um interesse tão profundo a ponto de justificar uma mudança radical. Em outras palavras, é necessário alicerçar com bases reais seu plano B. Nesse exemplo, é fundamental conhecer mais de perto a vida e o trabalho de outros fotógrafos, ver que ramo de fotografia ele gostaria de fazer, quanto poderia ganhar, se é capaz de conviver com a instabilidade do mercado. “Em resumo: perguntar, pesquisar, investigar e, se for o caso, traçar seu plano de mudança estágio a estágio”, fala a especialista.

O ideal é que essa transição seja gradual, paulatina, muitas vezes convivendo com a profissão ou trabalho que vai ser abandonado por um bom tempo. Outra alternativa é tornar a fotografia um hobby a que o empresário possa dedicar bastante tempo, suavizando sua vida cheia de compromissos. Em resumo: seja uma mudança de carreira, seja uma transformação radical ou hobby, a resposta a um projeto depende de cada caso. Mas é bom saber que existem essas gradações, e que não vale a pena trocar uma pela outra.

Então, moçada, o plano B tem de estar ancorado na realidade. Não pode ser fluido, subjetivo, muito sonho de uma noite de verão. Isto é, além de gostar muito desse projeto, é preciso ter competência para realizá-lo e se capacitar para isso, seja com cursos de especializações, boa informação ou pesquisa. Se o plano é ter uma pousada (ah, o sonho da pousada na praia…), é preciso saber em que ponto do litoral, o capital necessário, a concorrência no setor e todas aquelas exigências chatas do gênero. Mais do que tudo, é necessário perguntar a si mesmo se você realmente tem o perfil para ser dono de hotel à beira-mar, que inclui comandar empregados sem qualificação, aguentar reclamações dos hóspedes, verificar limpeza e roupa de cama, tratar com fornecedores poucos profissionais, saber apertar o cinto fora da temporada.

É preciso jogar um balde de água bem fria antes de se atirar de cara no plano B. Depois a gente vê o que sobra. Se mesmo assim a vista para o mar, o ritmo mais lento de vida e o canto dos passarinhos forem mais importantes que o resto, existem boas chances de que seu plano B dê certo. Seu coração está sintonizado com ele.

Sinceridade? Eu, por exemplo, prefiro pagar para me hospedar.

O piloto audaz

Por si só, ele já é um case, como os publicitários e administradores de empresa gostam de falar. Vamos começar do fim e contar o que esse moço faz hoje. No pouco tempo que estive com ele, Sérgio Franco finaliza os detalhes do projeto de um mall (um shopping ao ar livre) totalmente sustentável dedicado aos esportes radicais perto de Campinas. É um lugar para tirolesa em bosques fechados, piscinas com direito a mergulhos profundos, lojas de material esportivo, parque para pequenos aviões, caminhonetes 4×4 e outras incríveis maravilhas. Sérgio também começava a discutir com seus parceiros a próxima Adventure Sports Fair, uma feira realizada no Pavilhão da Bienal, em São Paulo. Tudo isso em meio a projetos de vídeos, livros e outras atividades relacionadas ao tema “aventura”.

Se alguém visitasse Sérgio há uns 15 anos, encontraria um empresário bom de marketing envolvido no circuito das malhas de cidades do interior de São Paulo. Ele ganhava dinheiro com isso, trazia desenvolvimento social para uma região antes com poucos recursos, fato que lhe dava gratificação pessoal, mas ele ainda mantinha aquele arranhãozinho no peito que lhe dizia que aquilo não era o que gostaria de fazer na vida. “E, quando você se abre para outras possibilidades, as sincronicidades começam a aparecer, apontando a nova direção”, diz ele, convicto.

No caso dele, foi a vontade de construir um hotel em sua cidade, junto com seu irmão prestes a se aposentar, que se manifestou como primeiro sinal de mudança. “Nasci perto de beira de rio, tive uma infância junto à natureza, e queria um lugar que devolvesse esse contato para as pessoas”, lembra. Sustentável, o hotel tem rampas de acesso e tirolesas especiais para deficientes e idosos, horta orgânica e mil outros recursos de inclusão. Sérgio foi se aproximando do universo dos esportes radicais e viu que havia ali um mundo todo novo para explorar. Quando decidiu trabalhar com isso, o entusiasmo e a alegria começaram a voltar ao seu coração. “A ideia de montar a Adventure Sports Fair veio de uma maneira simples: reuni todos os esportistas de ponta de cada área para dizer o que cada um via que podia acontecer numa feira dedicada a isso”, diz Sérgio, que adotou um modelo de gestão com parcerias, já que não dominava profundamente nenhum dos assuntos. Sua conhecida generosidade e abertura nesse meio de aventureiros e esportistas aglutinou pessoas, empresas e associados. Mas ele avisa: “Tudo tem um risco. Atirar-se envolve perdas e saltos arriscados. A iniciativa podia ter sido um enorme fracasso, mas havia tanto amor e paixão nas pessoas que era impossível não dar certo”, avalia.

Ele mesmo se tornou um piloto. “Tem uma manobra na aviação que se chama estol. Para se tirar o brevê, você precisa dominá-la. Ela consiste em dirigir o avião na vertical para cima e subir até o avião tremer e não suportar mais a subida. Daí ele cai também na vertical. E desce até você conseguir dominá-lo novamente e colocá-lo na horizontal para ganhar um voo tranquilo.” Sérgio Franco diz que, para abraçar o plano B, algumas vezes precisamos ter a coragem de enfrentar o estol interno. “Tem uma hora que parece que tudo vai sair do controle. Mas é preciso manter a calma e saber que ainda é possível retomar a direção. Sabemos com antecedência como será a manobra. Vamos sentir a emoção de passar por ela, mas sabemos racionalmente o que vai acontecer e o que vai ser preciso fazer para ultrapassar esse momento.” Enfim, o risco existe, mas pode ser calculado antecipadamente.

É esse o recado. O plano B tem de ter a capacidade de despertar paixão, entusiasmo, alegria. E contagiar pessoas que posam ajudar a realizá-lo. Também é necessário uma boa dose de coragem e certo cálculo de riscos.

O terapeuta dos sonhos

Agora vamos visitar Marcos Adriano Infantozzi há uns 20 anos. Ele era gerente de uma carteira de investimentos de um sofisticado banco francês. Os clientes estavam satisfeitos com aquele moço competente, inteligente e de ótimo humor. Mas havia um probleminha: ele não aguentava mais seu trabalho. Queria mudar, e um chamado à cura e à terapia habitava seu coração. A história estava ficando insuportável quando ele recebeu o convite para participar de uma festa de fim de ano chamada de Encontro com os Anjos. Foram formados pares ao acaso durante o evento, e ele foi escolhido para acompanhar a dona da casa, uma terapeuta que acabou sendo a “madrinha” do seu processo de mudança. “Fiz algumas sessões com ela para saber que rumo tomar, o que fazer para ter coragem de sair do banco e para onde poderia direcionar minha vida.” Foram momentos fundamentais para ele. “Uma “madrinha” ou “padrinho” que ajude nesse processo é muito importante”, reconhece Marcos. Pode ser uma terapeuta, um amigo sábio. “Como eu já estava mudando, tudo ao meu redor também começou a mudar. Recebi uma bolsa para estudar nos Estados Unidos por um ano. Pedi dois anos sabáticos ao banco – e ganhei. Esse foi o tempo necessário para realizar a transição e começar a fazer cursos para me direcionar à terapia e à coordenação de grupos espirituais, que era o que eu queria fazer.” O dinheiro que ganhou no banco aplicado em investimentos serviu para comprar alguns imóveis que o deixam mais tranquilo com as finanças. Assim, ele tem a cabeça fresca para se dedicar inteiramente a sua área. Tornou-se representante do livro Curso em Milagres no Brasil, dá orientação e consultas para quem também deseja mudar de vida ou carreira e hoje atende num espaço na Vila Madalena, em São Paulo. É outro que tem um sorriso de orelha a orelha ao falar da sua vida. “Cada um tem uma tarefa especial nesse mundo, um trabalho ou uma atividade paralela que vai preencher sua alma. É preciso aprender a escutar o coração para reconhecê-la e seguir esse chamado.” Marcos Adriano hoje auxilia muita gente a identificar o seu sonho e a realizá-lo. E ele tem a cancha de quem passou já por isso.

A moça do Correio Aéreo Nacional

Ana Rita Aranha é de uma alegria contagiante. Mas já passou por maus momentos. Publicitária, ganhou um bom dinheiro com a produção de vídeos e institucionais. Mas também não era o que ela queria fazer e a depressão começou a se avizinhar. No começo, ela nem sabia direito o que estava acontecendo. “Quando se percebe a insatisfação, é essencial mergulhar em direção do autoconhecimento. Antes de qualquer coisa, é preciso saber o que se passa dentro da alma. O primeiro passo tem de ser para dentro”, diz Ana com total certeza. Para ela, esse processo começou com a meditação. Ela fez um curso para aprender a meditar segundo a raja ioga. “Os pensamentos foram se acalmando, a mente ficou mais límpida. Comecei a enxergar a situação com mais clareza”, garante Ana.

A ajuda de “padrinhos” também a auxiliou muito. No caso, seus pais foram fundamentais. Assim como um amigo que também tinha passado pelo processo de mudança e um bom terapeuta. “Cada vez que eu afundava tentando encontrar novos rumos, eles me estimulavam. Foi muito reconfortante ter esse apoio.” Para enxugar as despesas durante a transição, ela voltou novamente para a casa dos pais e instalou seu pequeno escritório ali. Seu grande sonho: dedicar-se a fazer documentários para o cinema, o que, reconheça-se, não é uma decisão fácil de tomar. “Sou uma contadora de histórias nata. E quero falar de vidas que estimulem as pessoas a perseguir seus sonhos”, diz ela.

Um dos seus projetos atuais é documentar a história do Correio Aéreo Nacional, da aventura que era abrir caminhos pelos ares no interior do Brasil e trazer esperança e ajuda a comunidades isoladas. Seu entusiasmo é tal que ela conquistou os antigos participantes do Correio Aéreo, hoje velhinhos na casa dos 80 e 90 anos, e até ganhou o título de membro honorário da Força Aérea nacional. Ainda faltam os patrocinadores necessários para terminar o projeto, e ela não tem medo de ir em busca deles de porta em porta. Quando o cinto aperta demais, ela faz um frila como produtora numa agência de publicidade e toca para diante.

Ana ainda está em processo. Não tem prêmios ou conquistas para apresentar em relação ao seu plano B. Às vezes esmorece, às vezes dá passos largos. Mas não abandona seu projeto de jeito nenhum. E, de maneira singela, quem sabe seu exemplo corajoso possa avivar a vontade de realizar o sonho que existe bem ali dentro do seu coração.

COMENTÁRIOS

  • Emanuela Cavalcanti

    Uma visão maravilhosa sobre um assunto tão determinante, com ótimos exemplos de vida que apontam caminhos e são inspiradores para aqueles que buscam um caminho significativo alinhado ao seu propósito de vida!

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  • bruna

    Adorei o texto, hoje há muitas pessoas que mudam de carreira. Eu sou advogada e abandonei a profissão. Ainda estou em busca do Plano B, está sendo bem difícil, mas tenho certeza que logo mais encontro meu caminho 🙂

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  • Bell

    Tema interessante,mas sempre pecam na hora de escolher os exemplos.Sempre profissionais bem sucedidos,de profissões que proporcionam altos salários(publicitários,advogados,bancários,empresários …).E quando é um vendedor,um operador de caixa,uma balconista de farmácia,um montador de móveis…funcionários em empregos e salários mais modestos,que estão insatisfeitos com a realidade,querem e precisam de um plano B em suas vidas?Visam demais pessoas de determinados padrões e esquecem que a grande maioria,não se reconhece nos exemplos sitados,pois fazem parte de uma parcela,não de um todo.

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