Sonhos de noites de verão cada vez mais quentes

  • TEXTO Sandra San
  • FOTOGRAFIA Ekaterina Simonova | Unsplash
  • DATA: 11/11/2021

Na COP26, a liderança de diversos países se reúnem para tomar decisões sobre como travar a crise climática e o futuro da vida no planeta.

Era uma bela tarde ensolarada de junho de 2012, no Rio de Janeiro, onde acontecia o Rio+20, o encontro mundial pelo Desenvolvimento Sustentável. Na Cúpula dos Povos, eu assistia ao discurso de uma mãe, preocupada com o futuro de seus 2 filhos, de todas as crianças, de toda a humanidade. Era Severn Cullis Suzuki, que 20 anos antes, durante a ECO 92, também na Cidade Maravilhosa, no alto de seus 12 anos, há havia discursado para os líderes mundiais.

Viajando no tempo e no espaço, vamos ajustar a lente para essa semana, em Glasgow, Escócia, onde acontece a 26ª edição desse mesmo encontro, o COP26. De 31 de outubro a 12 de novembro, líderes mundiais estarão novamente reunidos para encontrarem as soluções e modus operandi sobre “como”, minimizar as consequências das mudanças climáticas.

O drama visível

Não precisamos de filmes futuristas para antever os problemas. Todos os dias, o noticiário mostra os efeitos da alteração do clima no planeta. E muitas vezes, nem é preciso o noticiário, as mudanças podem ser avistadas da nossa própria janela. Enchentes, incêndios, vulcões em erupção, tempestades, enxames de insetos que há muito não ocorriam, acúmulo de plásticos na terra e nos oceanos e microplástico nos alimentos.

Outros impactos chegam-nos, indiretamente, através do aumento da conta de energia, porque cada vez mais precisamos refrescar o suor da pele e a cabeça quente. Com sinais visíveis, essa não pode mais ser considerada uma dúvida e já é aceita pela maioria dos países. São cerca de 200 participando desse encontro global.

Impactos também psicológicos

Os impactos não são apenas físicos, essa preocupação com o futuro em relação ao ambiente e ao futuro do planeta atinge também a nossa mente e já tem nome, a eco-ansiedade, com sintomas similares à ansiedade comum.  Outro distúrbio psicológico é o medo de perder a “casa”, principalmente entre os que já vivenciaram algum desastre ecológico, e recebe o nome de solastalgia.

Esses e outros efeitos foram abordados por Iza Dezon, em outubro passado, no Festival Path Amazônia, numa conversa com o colunista da Vida Simples, Fabio Gandour e Michell Zappa, mediado por  Philippe de Almeida, gerente de Experiência do Cliente de Vida Simples.

Cada um em sua especialidade complementava o que o outro trazia, um “toró de ideias”. E o mais importante, ideias desenvolvidas e aplicadas em seus projetos, no modo “chega de blá blá blá”, que ecoou nos gritos de revolta de Greta Thunberg e nos cartazes de crianças e adultos em protesto em Glasgow.

Refrescando o verão

Pessoas de todas as idades têm apresentado sintomas de eco-ansiedade, principalmente nos que desenvolveram mais consciência ambiental. Entretanto, o número de quem tem sido acometido por essas questões psicológicas vem crescendo nos jovens, que têm mais futuro pela frente, mais anos de vida.

Ajusto a lente novamente, dessa vez para as soluções, como diz a música dos Titãs, “eu só quero saber do que pode dar certo”. Como evitar ou minimizar os efeitos das mudanças climáticas? Na minha adolescência, eu e alguns amigos estávamos preocupados com as profecias de Nostradamus. Apesar de não serem comprovadas cientificamente como as mudanças climáticas — mas reforçadas pela Guerra Fria —  também levavam ao estresse devido à preocupação com o fim do mundo.

O que fazer para lidar com a eco-ansiedade? Como o cidadão comum pode lidar com um problema global que depende da decisão de países? Fazer o que está ao nosso alcance, mesmo sendo algo muito pequeno. Uma maneira já comprovada de lidar com a eco-ansiedade é “encontrar a sua turma” um círculo de pessoas com objetivos e ideias em comum e a fim de colocar as mãos na massa — mesmo que seja pelas teclas do computador. “Colocar-se em ação e estar próximo à natureza ou cuidar de um jardim podem apaziguar os sintomas porque mostra que estamos fazendo a nossa parte”, explica o pesquisador Neil Chadbourne, da Universidade de Nottingham, Inglaterra.

Fazer em casa

Acrescento ainda, as ações em casa, como plantar mesmo que em vasos — cuidar da separação dos resíduos, compras conscientes e atenção ao excesso de consumo. A participação dos pais, da família, faz diferença e o exemplo influencia, sem que se perceba. Como diz Nando Reis, na canção Me diga, “Uso um sapato da mesma maneira / Por influência do meu pai”.

E se esse jardim for comestível, podem continuar a transformação dos vegetais na cozinha, outro local de divisão de tarefas que se somam por um único objetivo. E após todos se deliciarem com as gostosuras, pode-se fazer compostagem. Os resíduos voltam à terra e alimenta-a, em   agradecimento à Mãe  Gaia, em circularidade.

Também é possível se juntar aos grupos e ONGS espalhados pelo pais e participar de suas atividades, como as propostas pelo Instituto Lixo Zero, de limpeza de praias, parques, círculos de diálogo em comunicação não-violenta, para se sentirem mais envolvidos com o tema.

Comunidades e ecossistemas

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As mudanças climáticas  afetam os ecossistemas e as comunidades que dependem deles.  Crédito: Elisabeth Lies | Unsplash

Kaká Werá educador indígena brasileiro e colunista  de Vida Simples — em sua apresentação Como cuidar, Regenerar e Curar a Terra, no Festival Path, falou sobre como as mudanças climáticas  afetam os ecossistemas e as comunidades que dependem deles. Essa também é uma das principais discussões na COP-26 : proteger as comunidades e os ecossistemas dos países afetados pelas mudanças climáticas.

Para essa questão, de danos globais, também apela-se para a força do coletivo. Retornarmos à origem, à Mãe Terra, nossa casa comum, de quem todos somos filhos. Nessa visão, os filhos são irmãos. Ele explica que, como irmandade, é mais simples transformarmos nossas crenças pré-tribais, do padrão do medo e baixa autoestima, para a genuína expressão amorosa, em harmonia, como pratica a natureza.

COP26

E isso se reflete em todas as áreas, inclusive em outro “eco”, a eco-nomia. Do grego oikos, eco significa lar, família, casa e a economia, a administração da casa. Se a casa é a   mesma e a origem também, os modelos de negócios precisam ser repensados, considerando o cuidado com a casa, o planeta e seus moradores, e associações entre as instituições, um bom exemplo, a agrofloresta e a bioeconomia, em breve, este e outros assuntos mais explicadinhos em  novas publicações. Bem colocado pelo líder britânico anfitrião da COP26, Boris Johnson, ”se não consertarmos nosso clima, será uma catástrofe econômica.”. 

Está tudo interligado, o eco reverbera onde menos se espera.  O momento é de unirmos os saberes e fazeres de todos. Se nossa origem é a mesma, os líderes mundiais que estão decidindo o futuro do planeta fazem parte dessa irmandade.  Infelizmente, parece que alguns se esqueceram…e se os levássemos para brincar no jardim?


SANDRA SAN é educadora especialista em Cooperação e em semear maneiras de fazermos um mundo melhor, juntos. 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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