Repare na beleza

  • TEXTO Raphaela de Campos Mello
  • FOTOGRAFIA J. Balla | Unsplash
  • DATA: 11/08/2021

Em dias nublados, o belo eleva o nosso olhar para apreciarmos o que brota das coisas singelas. Saiba como é possível resgatar o encantamento pela vida.

Nesses dias magros de alegria e virtudes, estamos todos atrás de algo que amorne o peito e dele extraia um suspiro, mínimo que seja. Ultimamente, a vida desbotou, não é? Aqui você pode se queixar. Há espaço para isso também. As reclamações vão se empilhando e nos isolando daquela parte em nós propensa a se maravilhar.

Por fim, levei essa lamúria a algumas pessoas que me disseram: tem tempo ruim, não! Bata na casa velha da ponte, debruçada sobre o Rio Vermelho, na Cidade de Goiás. Lá me garantiram, encontraria uma doceira fascinada por tacho de cobre, taipa de lenha, glaceados, cristalizados e outros encantos.

Assim, imaginei-me em frente à porta de madeira pintada de verde, que se abriu e a senhora, já bastante encurvada, se apresentou. “Sou poeta por acaso e doceira por convicção e necessidade. Minhas mãos doceiras. Jamais ociosas… Fecundas, imensas e ocupadas. Mãos laboriosas. Abertas sempre para dar, ajudar e abençoar.”

Ritual e doce

Com dificuldade no andar, ela, que inventou para si um nome que desse conta de ser um coração vermelho – Cora Coralina – me mostrou o pomar crescido no quintal, onde punha os doces de mamão verde, figo, banana, goiaba e abóbora para tomar sol. Ficavam ali secando por dias. Os de laranja-da-terra e cidra começavam pela demorada lavagem das frutas na bica de água pura. Naquela morada, segundo sua dona, “tão vazia de gente, tão cheia de sonhos, fantasmas e papelada”, cada ingrediente e cada doce tinham seu ritual.

A doceira-poeta publicou seu primeiro livro aos 75 anos. Aos 67, após 45 anos vividos no interior de São Paulo, retornou, viúva, mãe de seis filhos, à casa oitocentista onde nasceu. Calejada, mas com poros abertos, Cora se religou às belezas da sua terra e da sua gente. Recomeçou, nutrida por suas raízes.

repare na beleza

Crédito: Olia Gozha | Unsplash

Não subestime o singelo

Como nos ensinou a vida da escritora, os encantos não estão escondidos num pote sabe-se lá onde. Eles estão bem aqui, nos arrodeando, enfiados na rotina, esperando que restauremos nossos olhos para enxergá-los. Para ela, eram os doces e os poemas, a razão do seu deslumbre.

Entretanto, para meu vizinho, é o estreito jardim na frente da casa de grade baixa, bem anos 1950. Para outros, café moído na hora, passado no coador de pano. Que beleza! Ou, então, conversas profundas com o filho que desatou a fazer perguntas filosóficas, obrigando o adulto a recolocar as lentes da infância.

Olhos de infância

Sim, aquele jeito de ver o mundo, você se lembra, que se demorava nas formigas enfileiradas feito soldados, nas nuvens gordas como chumaços de algodão, nos aviões riscando o céu. Em todo adulto, por mais alquebrado que esteja de tanto descer e subir montanhas, reside aquilo que os antigos chamavam de elã, um não-sei-quê que se inclina na direção do belo como a planta desejosa pelo sol.

Quando foi a última vez que você desfrutou de momentos de graça às custas do singelo? Vasculhe a memória recente. Algo bonito, com certeza, há de pintar. Hoje mesmo me elevei um bocado ao ouvir a professora de ioga encerrar a aula online: “Leve a mente ao coração e agradeça”.

Tapete no chão

Dessa forma, enquanto flutuava nesse embevecimento, simples como o próprio ato de esticar um tapete no chão de casa e dele receber tanto, tanto, vi surgir uma recordação ligada à monja budista tibetana Pema Chödrön.

Num de seus livros, ela conta que, certa vez, recebeu por telefone uma notícia muito triste. Contudo, no instante em que desligou o aparelho, olhou pela vidraça a paisagem tomada pela neve, alva de arder os olhos, escandalosamente bela. Foi inundada por um enlevo desconcertante, fora de hora. Como assim podia estar triste e arrebatada ao mesmo tempo? Mas ela estava.

Assim, o sublime e o escuro coabitaram sua alma naquele momento. Ela compreendeu, então, que na imensidão da interioridade há espaço para todo o nosso sentir.

Encantos de um jardim

Às vezes, a aridez ao redor é tanta que a alma chega a ressecar, como nesses dias tumultuados que parecem não ter fim. Contudo, não é o caso de lutarmos contra os dissabores como se quiséssemos afugentá-los a todo custo. Pelo contrário. “Acolher o sofrimento, o desconforto, as angústias, a dor inevitável, abrindo possibilidade de quebrar a ilusão de vida perfeita, de mudança de velhos hábitos e destrutivos vícios, oportuniza o desencantamento”, afirma a psicoterapeuta Neiva Bohnenberger.

Entretanto, a história não se congela aí, no espanto frente ao que nos abala até a medula. Não, não. A melhor parte vem agora. Ela consiste em aproveitar esse percurso para conhecer mais de nós mesmos, dos mistérios da vida e da morte e de toda a potência incubada nos tempos pedregosos.

repare

Crédito: Erol Ahmed | Unsplash

Um refúgio no Sul

“Precisamos nos lembrar de onde viemos, quem somos e o que buscamos, bem como da pulsação do nosso corpo vivo, que contém toda a existência”, orienta a psicoterapeuta. Neiva é gaúcha, mora em São Paulo há décadas, mas mantém no Sul uma casinha refúgio cercada por um jardim tão grande que mais parece um parque.

Ali convivem cerca de cem espécies. Mudas crescidas que foram chegando por apreço da proprietária ou pelas mãos de amigos e vizinhos, avisados de que nas datas festivas ela não queria presente, mas plantas, flores, árvores.

Plantar roseiras

Esse jardim bordeja uma vida inteira de autodescobertas, alegrias e dores. E ajuda a psicoterapeuta, principalmente nas horas brutas, a manter-se porosa, como as mãos de Cora Coralina, que, aliás, em um de seus poemas, recomenda, com singela sabedoria: “Remove pedras e planta roseiras”.

“A lição de plantar para colher se amplia para plantar beleza e assim produzir renovados encantamentos. Aqui reside a fé do jardineiro e o seu conceito de eternidade. Ele planta! Não importa quem irá desfrutar. Importa sabermos que é tanta vida que a natureza contém que somos parte desta  Divina Existência”, celebra Neiva, despertando em nós um saber adormecido.

Onde está a graça?

O que um especialista em ver graça nas coisas teria a dizer sobre o desencanto e a vontade de voltar a se admirar com as pequenas delicadezas? Não me aguentei e também bati na porta do palhaço, educador e escritor Cláudio Thebas. Por fim, adianto que ele não descobriu nenhuma fórmula mágica, mas reuniu pistas interessantes.

“Para aliviar o desencanto, o melhor é se conectar com o por enquanto. O que eu posso fazer por enquanto? O que está ao alcance das minhas mãos, no pequeno gesto, na mínima atitude?”, propõe Thebas, que é coautor de O Palhaço e o Psicanalista: Como Escutar os Outros Pode Transformar Vidas (Planeta), junto do psicanalista Christian Dunker, além de educador e autor de diversas obras para crianças.

beleza

Crédito: Eleonor Chen | Unsplash

Um truque mágico

Como era de se esperar, o palhaço incentiva a boa vontade de notarmos as miudezas ao redor, seja a hortelã estalando de tão verde no parapeito da cozinha, a toalha de crochê que retém em suas fibras o amor da avó ou o passeio com o cachorro na molhadeira pós-chuva. Enfim, essas inesgotáveis provas de que a alma humana é capaz de, valendo-se do que está à mão, nos alçar a estados alvissareiros. No entanto, ele repassa um truque magistral.

De acordo com ele, talvez, o mais poderoso antídoto para ajudar a encantar o desencantado mundo do outro seja pedir conselhos. “Conectá-lo com o que ele tem de bom e que pode disponibilizar para você ou para alguém. Quando sentimos que o que sabemos é importante para o outro, voltamos a nos sentir conectados com o fluxo da vida”, analisa.

Beleza que nos sustenta

Por último, se nessa conversa houver brecha para o riso, tanto melhor. “Ele não é um substituto para a dor, mas um convite para o convívio da luz e da sombra. Um riso que diverte no sentido de nos fazer voltar o olhar para outros aspectos da vida. Outro riso que não nos anestesia, mas nos desperta e que pode nos fazer encontrar formas orgânicas, pessoais, insubstituíveis de nos fazer conviver com mais esperança e leveza com tudo aquilo que à nossa volta nos entristece”, ele pondera.

Por outro lado, Cláudio também é especialista em Pedagogia da Cooperação e fundador do Laboratório de Escuta e Convivência (LEC). Portanto, está acostumado a auscultar trocas humanas, fonte de tanta beleza. Beleza esta, por sinal, que nos mantém de pé, como o próprio desafio do momento atual tem nos mostrado. Seja como for, décadas de estudos, aprendizagens e convívio com pessoas diversas fazem com que ele se devote ao belo que nos habita, pois sempre pode se desdobrar em mais e mais encantos.

Traje de palhaço

Acima de tudo, “há dentro de cada um de nós um ser humano muito cansado de viver em guerra, e por isso muito receptivo – mesmo que não pareça – a pequenas atitudes de conexão com nosso estado original de amor e compaixão”, observa Thebas. Agora, vestindo o traje do palhaço, ele solta: “Não há, por exemplo, um executivo, endurecido pela necessidade de se apresentar como alguém respeitável e competente, que resista a uma pergunta sobre o que ele mais gostava de brincar na infância”.

Em resumo: visitamos a doceira-poeta, a jardineira, o palhaço. Espera, o passeio ainda não acabou. Também toquei o sino no ateliê do Teko Semente, lá no bairro Patrimônio, pertinho do vilarejo de Trindade, no Rio de Janeiro. Teko é um artista autodidata que cria roupas e acessórios a partir de retalhos e sobras de tecidos que iriam para o lixo. Por último — não bastasse o gesto de enxergar no descarte o esplendor de uma peça — ele a “batiza” com poemas bordados à mão. É bonito demais, não é?

Beleza e intuição

De acordo com ele, seu trabalho é intuitivo. “Então, é sempre uma descoberta. Quando termino, é uma festa em mim”, poetiza. Sua fala sem pressa transborda a mansidão que o rodeia, já que vive guardado pela Mata Atlântica. E, com a doçura de quem revisita memórias caras, relembra as vezes em que revirou caçambas e se sentou no meio-fio, no centro de São Paulo, para selecionar o material que levaria para seu ateliê.

Assim, ali mesmo vislumbrava cortes, modelagens, texturas, enfeites; isso porque, por onde vai, leva nos olhos a fé no vir a ser. “A felicidade de viver onde eu vivo se reflete no meu ofício. Além disso, o encanto de se trabalhar com resíduos têxteis mora na possibilidade da transformação, não só no que diz respeito à costura, mas em relação ao nosso modo de vida”, encoraja Teko.

Quero um coração!

Depois de tudo o que leu até aqui, seja sincero, você seria capaz de ver beleza num monte de batatas “defeituosas”? Pois a cineasta belga Agnès Varda (1928-2019) resgatou pilhas do tubérculo desprezadas por agricultores, no interior da França, só porque não eram apresentáveis ao mercado.

Com elas, acredite, Agnès criou uma instalação audiovisual que fascinou muita gente mundo afora.

Dessa forma, ela enuncia ao agarrar uma das batatas rejeitadas, idêntica ao coração que desenhamos desde pequeninos. “Que surpresa! Corações falam de carinho, de amor. Foi algo poderoso”, confessa no filme autobiográfico Varda por Agnès (2019), no qual aborda seu processo criativo.

O que se seguiu ao achado foi ainda mais incrível. Agnès deixou as batatas-coração amadurecerem, brotarem e murcharem. “Apesar de tudo, elas encontraram nova vida como brotos e raízes”, vibra.

beleza

Crédito: Markus Spiske | Unsplash

A beleza das batatas

Como resultado dessa observação surgiu a ideia de montar, na Bienal de Veneza, em 2003, a instalação Patatutopia. Em três grandes telas, ela projetou filmagens das batatas-coração perfuradas por filamentos esverdeados. Algumas, em movimento de expansão e retração, graças a efeitos tecnológicos.

Se, por um lado, os vegetais apenas obedeceram às leis inexoráveis da natureza, por outro, tocaram o público com sua beleza crua e pungente, capturada pela generosidade da artista. Se ela não tivesse enxergado corações naquele refugo…

Contemplar o belo

Ai de nós se não cultivarmos o belo do lado de dentro. O que esperar do fora? Essa lição final vem do monge budista tibetano Matthieu Ricard, o homem mais feliz do mundo, segundo os neurocientistas.

Por fim, imagine-o em visita a um dos destinos, a seu ver, mais estonteantes do planeta: a Patagônia. Arrebatado por vales inóspitos e picos congelados que o lançam na mais profunda contemplação, ele diz no documentário Em Busca do Bem-Estar (2020): “Lugares naturais incrivelmente amplos e magníficos elevam a mente, provocam admiração. Logo, familiarize-se com ela, conheça a qualidade dessa experiência, e não será absolutamente necessário estar num lugar como a Patagônia para recuperar esse sentimento, deixar que ele cresça e se torne parte de você”.

Agora é a sua vez.


RAPHAELA DE CAMPOS MELLO é jornalista e reserva um cantinho nos olhos para se encantar com as miudezas do cotidiano.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 236, outubro de 2021 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*