Podcast Autoconsciente é um convite para olharmos para nossos sentimentos

  • TEXTO Lucas Vasconcellos
  • FOTOGRAFIA Melanie Pongratz | Unsplash
  • DATA: 28/10/2019

Podcast Autoconsciente é uma ferramenta para quem busca se conhecer melhor e desenvolver inteligência emocional

Se você não acompanha ou recomendou um podcast para um amigo, é provável que alguém já tenha sugerido que você ouça esse ou aquele programa. Nos últimos anos, vivemos na era do podcast – segundo o Spotify, entre 2017 e 2018, no mundo, houve aumento de 330% no número médio de ouvintes diários do produto.

O podcast hoje divide espaço com as estações de rádio – é companheiro no trânsito ou enquanto você cozinha, por exemplo. E tornou-se também uma indústria bilionária. Como, então, se tornar relevante num cenário tão competitivo, que já aborda diversos assuntos? 

Regina Giannetti encontrou um espaço ao convidar o ouvinte para um viagem para dentro de si. A frente do podcast Autoconsciente, ela coordena programas que nos auxiliam no processo de compreender a mente humana, as emoções. A sermos mais amorosos, em especial, com a gente mesmo. Entre os mais de 40 programas, estão: o poder da autoaceitação, a voz da autocrítica na nossa cabeça e quando nos cobramos demais. 

Por isso Vida Simples bateu um papo com Regina (@regina.giannetti), que também criou o programa de autogerenciamento com base em mindfulness Você Mais Centrado (@vocemaiscentrado). Na conversa, ela fala sobre as dores internas que levaram a criar o podcast Autoconsciente e sobre como as pessoas estão em busca de encontrarem a si mesmas. 

Como surgiu a ideia do podcast? O que percebeu em você ou em outras pessoas que enxergou como necessário para criar o Autoconsciente? 

O podcast Autoconsciente surgiu na esteira de um processo pessoal que começou em 2013. Nessa época, eu me sentia como que arrastada pelo turbilhão da vida. Andava mentalmente agitada, distraída, cheia de preocupações e ansiosa; começava dez coisas e não terminava nenhuma, estava sem foco, não dormia bem e, principalmente, estava muito descontente comigo mesma. Eu queria domar a minha mente, que parecia ter vontade própria, e acabei descobrindo o mindfulness, prática meditativa que, a princípio, eu via como um treino de focalização de atenção. Comecei a praticar com o auxílio de livros, e acabei descobrindo algo muito maior e mais profundo do que imaginava. 

Hoje entendo o mindfulness como um lugar dentro de nós mesmos, onde enxergamos as coisas com mais clareza e simplicidade. Neste lugar, não apenas aprendemos a lidar com os nossos pensamentos, emoções e conflitos, de uma forma gentil, sem julgamento. Bem como aprendemos a ter maior compreensão da nossa humanidade e pegar mais leve conosco mesmos. Isso para mim foi transformador. Mudou a minha relação comigo mesma e me deixa mais em paz. 

Fiquei tão encantada com essa descoberta que resolvi me profissionalizar na técnica, pois via que outras pessoas tinham os mesmos problemas. Fiz uma formação como instrutora pela Unifesp e criei um programa de autogerenciamento com base em mindfulness, o Você Mais Centrado. Eu já trabalhava com isso há dois anos quando me bateu a ideia de criar um podcast que pudesse servir de apoio aos meus alunos e, ao mesmo tempo, divulgar a cultura de uma vida com mais autoconsciência. E comecei a fazer o Autoconsciente, em novembro de 2017. Era um podcast caseiro, gravado com o celular no meu quarto. Por eu ter sido jornalista, a experiência era familiar para mim: definir uma linha editorial, escrever um bom texto, gravar, editar… Fui fazendo um episódio após outro, as pessoas foram compartilhando, e o Autoconsciente cresceu para muito além do que eu poderia sonhar. 

O que você tem percebido nas pessoas? Acha que elas estão buscando se conhecer melhor hoje em dia? 

Minha percepção é que as pessoas se sentem perdidas de si mesmas, experiência que também vivi. Neste mundo que criamos, tudo concorre para que a gente viva para as coisas externas. A vida moderna é um turbilhão que nunca para e nos arrasta junto, com sua avalanche de informações, a correria do cotidiano, as incertezas, a montanha-russa emocional que é viver nesses tempos de muitas adversidades e mudanças. 

Esse mundo nos impõe ideais de perfeição, aprovação social, status, performance impecável, resultados crescentes e essas coisas todas que a gente está cansada de ouvir e perseguir. Então, o tremendo esforço para nos adequar a esses ideais está nos deixando esgotados, ansiosos, doentes, vazios. Faz a gente viver em constante pé de guerra conosco mesmos, num monólogo interno de autocobrança e autojulgamento. 

Em suma, as pessoas estão em busca de um alento para essa vida insana, um alívio para a ansiedade, uma trégua para os seus conflitos interiores, uma noite de sono melhor. As pessoas estão em busca de paz. E essa paz está dentro delas mesmas.  

Por que, na sua opinião, se aprofundar no autoconhecimento é necessário? 

Conhecer a nós mesmos significa compreender como funcionamos e por que funcionamos de determinada maneira. Assim, somente a partir dessa compreensão é que podemos transformar algo em nós, para nos livrar de um sofrimento, para ter mais paz. Vou lhe dar um exemplo meu. Algo que me causava muita ansiedade e desgaste emocional era não conseguir dar conta das minhas múltiplas atividades como profissional autônoma, mãe, esposa, dona-de-casa, mulher. O autoconhecimento me trouxe a compreensão de que eu procurava dar conta de tudo sozinha e era muito exigente comigo mesma. Indo mais fundo, encontrei a crença de que eu precisava ser autossuficiente para provar o meu valor.  Além disso, essas descobertas me permitiram flexibilizar a crença da autossuficiência, não cobrar demais de mim, pedir ajuda quando precisava, e com isso diminuiu o meu desgaste por “ter que dar conta de tudo”. 

Fazer um mergulho para dentro de si pode ser doloroso. Para quem quer ter mais consciência sobre quem é e vai encarar essa jornada, que dicas você daria?

Talvez tenhamos medo do que vamos encontrar ao olhar para dentro, mas é justamente isso que nos libertará da dor – a dor do perfeccionismo auto-imposto, do autojulgamento, da implacável voz da autocrítica na nossa cabeça, das situações indesejáveis que se repetem em nossa vida e não entendemos por quê. Por isso, no processo de autoconhecimento, é fundamental desenvolver uma atitude de compaixão para conosco mesmos. Se mediado pela compaixão, o autoconhecimento é um processo redentor, que nos aproxima da nossa humanidade. 

 


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