O sentido da vida

  • TEXTOS Stephen Little
  • FOTOGRAFIA Tom Ezzatkhah | Unsplash
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Lembro muito bem uma aula que dei há alguns anos. Uma jovem, do nada, contou sua história. Oito anos antes, segundo ela, havia desmaiado na faculdade. Quando se deu conta, estava no hospital, cercada por médicos. Pouco a pouco, seus sentidos começaram a esvanecer. Enquanto apagava, uma sequência de pensamentos a percorreu: “Isso não pode estar acontecendo! Ainda não me formei! Não encontrei minha profissão! Não conheci o amor da minha vida! Não tive filhos!”. Então, veio uma sensação de calma acompanhada por sua voz interna dizendo: “tudo bem. Nada disso tem mais importância. Você está morrendo. Desista do controle e abra-se para isso”. Em seguida, ficou inconsciente. Ela tinha 19 anos. Pouco a pouco, uma luz forte artificial atiçou sua percepção e um murmúrio de vozes entrou em foco. Ela nos contou que, enquanto recobrava os sentidos, pensou: “eles me salvaram!”. Todos na sala estavam quietos e concentrados na história dela. Ela fez uma pausa e ficou pensativa. Então, olhou para nós como se fosse dar uma mensagem importante. “Deitada ali, tive uma noção clara do que precisava fazer com minha vida. A partir daquele momento, dedicaria minha vida a ser autêntica. É o que tenho feito desde então”.

A forma como as pessoas falaram e interagiram na aula depois disso mudou. Sua história ajudou a nos unir mais e deu uma sensação nítida de estarmos vivos. A experiência não foi nada cósmica – não quero exagerar. Ainda assim, não consigo deixar de achar que as palavras de um astronauta da Arábia Saudita podem transmitir, melhor do que quaisquer outras, o que senti naquela noite. Descrevendo o efeito na tripulação na primeira viagem ao espaço, ele disse: “Nos dois primeiros dias, apontávamos para nossos países. No terceiro e quarto, estávamos apontando para nossos continentes. Quando chegamos ao quinto dia, só percebíamos a Terra”.

Atualmente, avaliar nossa vida como tendo (ou não) sentido não é, para a maioria, como olhamos para nós mesmos. A maior parte das pessoas que conheço tende a perguntar: “Tenho uma vida feliz?”. Entrar em sintonia com o sentido, e não com a felicidade, pode revelar uma corrente subjacente que já existe em como vivemos e isso nos dá acesso direto à potência de nossos valores e prioridades. Tomar consciência do sentido, de um jeito palpável e sustentável, é uma arte. Encontrar seu caminho para essa noção de sentido maior pode acontecer de maneiras diferentes. Para algumas pessoas, pode vir de uma grande mudança, como no caso da jovem. Talvez, como consequência de uma perda forte, você comece a ver as coisas de um jeito diferente. Pode vir rapidamente ou com um despertar gradual; como um esforço, uma reflexão constante, ou surgir como resultado de todos os anos que viveu.

Viagens para o espaço ou experiências “de quase morte”, no entanto, não acontecem tão frequentemente. Não aconteceram comigo. Quando era mais novo, me dediquei à busca por sentido. Pensava e dizia coisas como: “não quero ser um Zé Ninguém. Sei, lá no fundo, que um dia serei um grande pintor ou artista! Só preciso encontrar minha voz. Tenho de encontrar sentido!” Acho que dá para dizer que minha família ficou preocupada comigo. Felizmente, encontrei o que procurava e escolhi me dedicar à prática budista. Depois de cerca de 10 anos aprendendo com professores excelentes na Europa, gradualmente mudei toda a minha abordagem.

Sobrevivemos

“Na verdade, no Afeganistão, não vivemos. Sobrevivemos”. Essas são as palavras de um homem simples quando perguntado sobre o sentido de sua vida. Ficar sabendo sobre pessoas como ele colocou as coisas em perspectiva e fui incentivado a analisar como vivia minha vida. A transição ocorreu de forma sutil com o passar do tempo. Primeiro, percebi como tinha sorte em estar vivo e ter a liberdade de fazer as escolhas que fiz. Então, descobri que minha busca havia ficado tão intensa que parei de viver de verdade.

Faça uma pequena pausa agora, com a revista nas mãos. Onde quer que esteja, perceba que seus olhos estão abertos. Perceba suas pálpebras. Deixe que se fechem e fique ciente do lugar onde está. Sons, cheiros, temperatura. Gradualmente, tome consciência de que você está, neste momento, vivo. Quando sentir que é a hora, abra os olhos.

Ter os pés no chão é essencial para ter contato com o sentido. Em maio de 2014, o astronauta americano Reid Weisman mandou uma mensagem no Twitter da Estação Espacial Internacional sobre sua primeira semana no espaço. “Há sete dias, a ideia de estar no espaço me dava arrepios de empolgação. Agora, parece algo normal. Sensação estranha”. Isso é o que os psicólogos chamam de “adaptação hedônica”. A experiência simples de sentir-se vivo e a empolgação de fazer algo significativo como ir para o espaço, tendem a desaparecer com o tempo. Sonja Lyubomirsky, professora na Universidade da Califórnia, explica que, mesmo sob circunstâncias significativas, rapidamente passamos a considerá-las como algo comum.

O que podemos aprender com a experiência de Reid é que até astronautas atingem um platô de sentido. Podemos procurar um significado, mas isso facilmente se torna só uma espécie de desejo insaciável por mais e nos cansamos do que já existe. É a famosa “esteira ergométrica hedônica”, segundo Lyubomirsky.

Talvez o mais importante aqui seja ver como você avalia sua vida. Você entrou no hábito de confundir uma espécie de prazer duradouro no futuro com o que chama de “felicidade”? Se sim, pode já estar na esteira ergométrica. A importância de estar vivo pode estar diante do seu nariz e você nem percebeu. Por que não parar um pouco e observar sua vida, considerar sua história? Em vez de se perguntar “estou tendo uma vida feliz?”, identifique os momentos em que se sentiu vivo. Eles podem parecer desconectados, mas continue na contemplação e faça um esforço para identificar o que trouxe essa noção de estar vivo nesses momentos. Que valor em você ficou satisfeito? Guarde tudo isso. Veja se há um tema fundamental (ou dois) em comum. Depois disso, sente em silêncio e pergunte a si mesmo: “já existe um fio condutor de sentido na minha vida?” Se você descobrir um sinal palpável de sentido, talvez a busca tenha acabado. Agora, só precisa viver e manter esse fio condutor em tudo o que fizer, onde estiver.

 

STEPHEN LITTLE é irlandês radicado no Brasil, físico, budista ordenado e especialista em Atenção Plena (Mindfulness). É responsável pela formação dos professores da The School of Life no Brasil, onde ministra aulas de Mindfulness e sobre “o sentido da vida”. Ele é também Diretor do Centro de Vivência em Atenção Plena, em São Paulo.

COMENTÁRIOS

  • Suely

    Manter esse fio condutor………

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  • Denise

    Conheci Stephen no ano passado. E depois de algumas aulas, tudo passou a ter mais sentido…

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