O que fazer para aproveitar a vida com leveza?

  • TEXTO Roman Krynaric
  • FOTOGRAFIA Noah Silliman | Unsplash
  • DATA: 30/12/2018

Normalmente traduzido como “aproveite o dia”, carpe diem é um dos ideais filosóficos mais antigos da cultura ocidental. Ele remete a algumas poucas linhas escritas pelo poeta romano Horácio, em 23 a.C., que dizia que “enquanto falamos, foge o tempo invejoso: colha o dia; confiando pouco no que virá.” Com essas palavras, Horácio levantou a questão existencial máxima – como devemos viver diante da realidade da nossa mortalidade? Eu passei os últimos anos examinando a história do carpe diem. Um padrão fascinante logo começou a aparecer, revelando três interpretações essenciais da expressão ao longo dos séculos; e encontrei um conjunto de maneiras que a humanidade desenvolveu para aproveitar o dia – e que seria sábio recuperar.

O sentido mais comum atribuído ao carpe diem é aproveitar oportunidades que podem desaparecer e ser perdidas para sempre – a oportunidade, digamos, de mudar de carreira, ou de fazer as pazes depois de uma discussão com seu parceiro. É assim que a frase aparece no filme Sociedade dos Poetas Mortos, em que o ator Robin Williams, interpretando o inspirador professor de inglês Mr. Keating, encoraja seus alunos a embarcar no caminho da vida aventurosa: “Carpe diem… Aproveitem o dia, garotos, tornem suas vidas extraordinárias.” Um segundo ponto de vista é que aproveitar o dia diz respeito a viver o momento presente, a uma imersão no aqui e no agora. Essa é uma interpretação do lema de Horácio historicamente sem precedentes, que teria causado confusão há um século, mas que, atualmente, corresponde a cerca de 20% das referências da mídia à expressão. Essa mudança se deve principalmente ao surgimento do movimento global de mindfulness, que enfatiza “a consciência do momento presente”. Nós devemos garantir que essa interpretação relativamente restrita do carpe diem não exclua a rica variedade de sentidos que emergiram ao longo dos últimos dois milênios.

Outra abordagem popular – e que nos interessa particularmente aqui – é entender carpe diem como um comando para viver mais espontaneamente, jogar os planos e rotinas ao vento. Essa perspectiva é atraente hoje, quando tantas pessoas se sentem presas por seus calendários eletrônicos e estão lutando contra uma enxurrada de e-mails, mensagens e tuítes, que não deixa tempo para ações espontâneas. Quando foi a última vez que você jogou seus planos fora e fez algo inesperado? Se tiver um tempo, pergunte a si mesmo: a espontaneidade foi sequestrada pela nossa cultura de tempo hiperorganizado?

Todas as nossas formas sagazes de lidar com a sobrecarga diária de conteúdo normalmente tem resultado em programarmos mais nossas agendas por meio de listas de tarefas. Esse é um esforço corajoso de ser ‘eficiente’ e ‘produtivo’ – mas, no fim, a maioria de nós tem pouco tempo sobrando para expressar quem de fato é.

Resgatando a espontaneidade

Então, como podemos recuperar nossa espontaneidade? Levantei sete estratégias que podem funcionar. A primeira delas diz respeito a experimentar mais a vida ou se propor a fazer algo que você não faria normalmente. Por exemplo, suba em um ônibus qualquer para um destino desconhecido; ou saia para andar fazendo curva sim, curva não; ou desenhe um caminho qualquer no mapa da cidade e siga essa rota. Outra possibilidade é fazer um itinerário sensorial, passando um dia inteiro seguindo aromas ou sons e vendo aonde eles levam; ou puxar conversa com estranhos (mas selecione apenas as pessoas que estiverem usando boné ou algum outro acessório na cabeça, por exemplo). A ideia desses exercícios é desenvolver o hábito de viver improvisadamente, sem planejamento. Isso servirá como um ponto de partida para trazer esse mesmo improviso – e leveza – para o seu cotidiano.

Minha segunda sugestão é que planeje a sua espontaneidade com afinco. Isso talvez soe contraditório, mas uma das melhores maneiras de desafiar a cultura do “apenas planeje” é virá-la contra ela mesma. Sim, planeje alguma espontaneidade: pegue sua agenda e programe alguns blocos de tempo para ações espontâneas. Eu gosto de planejar espontaneidade entre as 15h e 18h, nas tardes de domingo. Quando chega esse horário, não tenho ideia do que vou fazer, e me motivo a inventar algo fora do cotidiano, como fazer um piquenique embaixo de uma árvore com meus filhos.

A terceira estratégia é a que chamo de “recuperar o espírito carnavalesco”. No passado, acredite, éramos muito mais espontâneos do que somos hoje. Pense nos carnavais da sua infância, quando você se fantasiava, cantava e dançava sem achar que aquilo poderia parecer ridículo. A historiadora cultural americana Barbara Ehrenreich costuma dizer que a vida livre e espontânea que as pessoas levavam na Idade Média “está quase além da nossa imaginação”. Claro, havia bastante trabalho duro e privações também, mas ela era pontuada com pulsos de exuberância e folia, que fazem a vida contemporânea parecer vergonhosamente tediosa. Então, recupere esse espírito carnavalesco e vá a um equivalente moderno, como um festival de música ou um bloco de rua.

Quarta sugestão: comece uma dieta digital. Na nossa era de distração digital, estamos tão ocupados clicando e deslizando os olhos na tela, que mal notamos as coisas interessantes (e às vezes incríveis) que acontecem ao nosso redor. A solução? Coloque-se em uma dieta digital. Dá para usar um aplicativo como o Checky, que grava com que frequência você checa seu telefone a cada dia para ajudar a impedi- -lo de fazer isso (os resultados podem ser assustadores), ou experimente o clássico Freedomapp, que bloqueia seu acesso à internet por períodos programados de tempo. Quando meus amigos vêm à minha casa, às vezes sugiro que deixem seus telefones numa caixa no corredor, assim como comensais medievais precisavam deixar suas armas na porta.

Praticar sua paixão é minha quinta estratégia sugerida. Espontaneidade não é só sobre ações não planejadas aleatórias: ela também é sustentada pela prática. O pintor Pablo Picasso passou anos aprendendo técnicas tradicionais de desenho antes de se sentir capaz de se libertar e ser mais espontâneo, desenhando um cisne ou um centauro com uma única linha, em um instante. Na minha prática de tênis, a habilidade de fazer espontaneamente um voleio cruzado inesperado surgiu dos trinta anos que passei aperfeiçoando meu jogo. Então cada um de nós pode perguntar a si mesmo: há uma arte ou habilidade específica que eu posso cultivar e praticar até o ponto de me sentir livre para quebrar as regras e agir espontaneamente?

Frequentar um curso de improvisação é mais uma maneira de resgatar a espontaneidade. Atualmente, alguns comediantes, que praticam o chamado stand up comedy, oferecem aulas assim. Você aprenderá sobre romper o molde da sua personalidade e responder despretensiosamente aos outros na cena ao seu redor. E pode, então, traduzir o que aprendeu para agir de uma forma mais improvisada e menos inibida no palco da vida.

Por fim, permita- -se aprender com as crianças. Muitos de nós éramos espontâneos quando crianças. Seria sagaz buscar inspiração para viver espontaneamente, seguindo o exemplo dos pequenos. Outro dia, minha filha de oito anos viu um gramado com um desnível e começou a rolar. Eu segui o exemplo dela e rolei em seguida. Tenho que agradecê-la por ter me dado aquele momento de vivacidade radical. Espontaneidade demais pode, é claro, tornar sua vida caótica – então, não exagere. Mas, se você por acaso notar que há falta disso na sua rotina – ou excesso de planejamento –, levante-se contra a cultura do “apenas planeje” e aproveite o agora

 

ROMAN KRYNARIC é filósofo e um dos fundadores da The School of Life. Ele é autor de livros como O Poder da Empatia, Como Encontrar o Trabalho da sua Vida e A Arte de Viver. Acaba de lançar Carpe Diem: Resgatando a Arte de Aproveitar a Vida. É também fundador do primeiro Museu da Empatia.

 

COMENTÁRIOS

  • MARIA DE LOURDES

    Amei!

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  • Soraia Kessuane Bego

    Um artigo inspirador! Agradeço e parabenizo o autor.

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  • Sílvia

    Ótimo texto, precisamos sim de mais espontaneidade em nossas vidas!

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