O que aprendi ao treinar para uma prova de triatlo

  • TEXTO Fernanda Granato
  • FOTOGRAFIA Arquivo Pessoal
  • DATA: 28/07/2019

A dedicação aos exercícios físicos pode nos ensinar boas lições sobre autocontrole, superação e harmonia do corpo e da mente

Nunca fui de chorar. E, de repente, me vi respirando fundo para segurar a emoção no meio do restaurante, na sala de espera do aeroporto. Fiquei assim depois de completar o Ironman 70.3, também conhecido como meio Ironman, uma prova esportiva que envolve um trecho de natação (1,9 km), outro de bicicleta (90 km) e, por último, de corrida (21,1 km).

Não sou atleta, mas sempre gostei de testar os limites do meu corpo – para desespero da minha mãe e orgulho do meu pai. Já tinha me aventurado a correr 20 km ou pedalar 80. Mas participar de uma prova assim estava bem além da minha ousadia.

Quem lançou a ideia foi meu marido. E aceitei o desafio. No início, achei que a experiência seria uma superação dos limites do meu corpo, mas o que aconteceu não foi bem isso. Precisei aprender a superar os limites da mente.

Foram 17 semanas de preparação. E, nesse período, muita coisa aconteceu: uma amiga casou, viajei a trabalho, fiquei doente. Teve dia dos pais, dia de aniversário, de apresentação para o chefe, de insônia. Enfim, a vida aconteceu. E, entre dormir, trabalhar e ir aos eventos sociais, treinei. Fiz isso todos os dias, menos um de “descanso”, estrategicamente posicionado para poupar o corpo para os longos treinos de final de semana.

Foi me dividindo entre os exercícios que aprendi que a superação de provas de longa duração está mesmo é na cabeça. O corpo é uma máquina incrível, que se adapta ao que for estimulado a fazer – ou a não fazer. O treino mais desafiador, mais difícil e recompensador, é o da mente. Eu sempre tinha um motivo para não treinar.

Algumas pessoas pensam que sou daquelas naturalmente motivadas, que acorda às cinco da manhã e sai para correr feliz. Definitivamente esta não sou eu. Sou mais igual a todo mundo, que tem que decidir se vai pedalar ou fica no sofá.

Cada treino foi uma escolha. E, cada escolha, uma renúncia: de sair do trabalho cansada e ir para casa, de permanecer na cama até mais tarde, de ficar ociosa numa manhã chuvosa de domingo. Eu olhava para o sofá, para a chuva fina e, determinada, subia na bicicleta, colocava o tênis de corrida e seguia em frente. Adaptei meu corpo a treinar por quatro, cinco horas, todos os sábados. E a saber que, nem por isso, domingo seria dia de descanso.

Sou corredora de coração, ciclista simpatizante e nadadora nas horas vagas. Confesso que ficar três horas na ciclovia indo e voltando, sem música, com vento, nem sempre era meu programa preferido. Meu marido estava comigo nos treinos longos e, sim, é confortante ter uma alma amada por perto. Mas é isso. Casei com uma pessoa naturalmente concentrada. Se tivemos mais que cinco minutos de conversa, durante a corrida ou a pedalada, já diria que estou exagerando.

Foi apenas quando entendi que meu grande treino seria o da mente, que o corpo e a cabeça começaram a entrar em harmonia. Pouco a pouco, passei a me exercitar mais tranquila, a ouvir menos música correndo e a dar mais espaço para o som do meu corpo, escutar minha respiração e o tênis batendo no asfalto. Por horas e quilômetros.

Chegou o dia

A prova seria realizada em Foz do Iguaçu, boa parte dentro da Usina de Itaipu. Sol, nenhuma nuvem no céu. Passei a semana olhando a previsão do tempo, rezando para o tempo virar. Não virou: 34oC em pleno inverno. E se era esse o teste final da minha mente, que viesse o calor.

A prova começou. Os quase mil atletas foram em direção à represa e começaram a nadar. Demorei alguns minutos para entender como nadar sem perder a direção. Cinco braçadas normais, uma olhando para frente. E, assim, nadei como quem medita, feliz, muito feliz por estar num lugar tão aberto e não ter que ir e voltar infinitas vezes como se fosse um peixe dentro de um aquário.

Na transição para a etapa da bicicleta, senti que meu corpo tremia. Não era frio. Não era nervoso. Me troquei com calma esperando a adrenalina baixar enquanto os outros atletas entravam e saíam com a pressa de uma segunda-feira de manhã. Saí para pedalar me sentindo segura por estar logo atrás de alguém, sabendo que, nos primeiros quilômetros, não corria o risco de errar o caminho.

Os moradores da cidade assistiam da porta de suas casas as bicicletas que passavam. Eles davam muito apoio moral. Era uma energia deliciosa. E entrando na usina, meu sonho começou. Um lugar lindo, grandioso e muito diferente. Vivia um momento tão incrível, que por alguns segundos esqueci que estava numa prova. Até que umas cinco bicicletas me ultrapassaram de uma vez e voltei a mim. Ao meu ritmo. Foco.

Lembro de ter passado pela marca do quilômetro 40 e a felicidade que senti por saber que ainda tinham mais 50 pela frente. Pedalava sobre a gigante barragem, me esticando para ver a vista da represa de um lado, e, do outro, as centenas de ciclistas que pedalavam desenhando o percurso como se fossem formiguinhas. Me sentia tão envolvida com tudo, que só fui perceber que tinham subidas no caminho na segunda volta.

Segunda transição, hora da corrida. Logo no início, senti como se estivesse caminhando sobre chamas porque o asfalto estava muito quente. Pensei: por que não coloquei uma meia mais fina? Percebi que, apesar de ser o início do percurso, muitas pessoas estavam andando – e não correndo. E foi aí que testemunhei que atleta não se faz com roupa tecnológica e bicicleta especializada, mas com corpo e mente. Só, e tudo isso.

E, eu, com minha tão básica regatinha de algodão e minhas meinhas quentes quaisquer, corri. Ultrapassei 21 quilômetros, curtindo cada pedacinho do caminho. Alimentei minha mente de cada palavra de incentivo que recebi: das pessoas que organizavam a prova, dos voluntários que eram incrivelmente motivadores, dos atletas que não conseguiam correr e falavam para eu não desistir e dos que corriam cansados, pensando em parar.

Se as pessoas se ajudassem tanto assim na vida real, talvez ainda não tivessem inventado a depressão. Quando faltavam três quilômetros para terminar, começou a ficar muito difícil conter a emoção. Eu me sentia correndo dentro de um sonho.

Na tentativa de segurar o choro, minha respiração ficou tão alta que se alguém passasse por perto talvez iria achar que eu estava tendo uma crise de asma. A emoção era muito maior do que estar prestes a completar a prova. Era por ter feito tantas renúncias, por ter superado meu corpo e enfrentado minha mente, minha preguiça, meu tédio. A superação é o treino. E a prova, a recompensa.

Soube que estava bem perto do final quando comecei a escutar a música da linha de chegada. O locutor narrava cada um que passava. Tinha de tudo: gente chegando com cara de que poderia continuar, gente mancando, chorando, gente com os filhos.

E, antes de cruzar a linha de chegada, vi que meu marido estava lá me esperando. Naquele instante, sabia que estava vivendo um dos momentos mais incríveis da minha vida. E, correndo, pulei em seus braços, entrelacei minhas pernas em volta dele e falei que o amava. Por alguns segundos, o único mundo que existiu para mim foi aquele. Só eu, entrelaçada nele. Chorei.

Fernanda Granato largou seu emprego convencional em busca de inspirar pessoas.


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COMENTÁRIOS

  • Amanda Moreira

    Que inspiradora, esta revista, com uma fluidez.

    Responder
  • Mariana

    Emoção ao ler o texto, lembrei da minha primeira maratona, há 2 meses. Uma das sensações mais incríveis que já senti. Um filme passa na cabeça … todos os treinos, perrengues (muitos no meu caso!), vontade de desistir, pequenas conquistas, mudanças de rota ao longo do caminho. Como a própria Fernanda escreve em uma parte do texto, a vida continua acontecendo. Parabéns pelo relato, inspirador. Espero um dia viver um IM 70.3 também.

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