O que aprendi ao fazer jejum

  • TEXTO Carolina Bergier
  • FOTOGRAFIA LIgorko | iStock
  • DATA: 26/07/2019

Além de prática espiritual, presente em algumas religiões, jejuar traz à tona vários sentimentos. Nossa repórter descobriu sua insanidade

 

Sócrates, Platão e Hipócrates o recomendavam para purificar o espírito e melhor perceber a verdade. Moisés e Jesus praticavam por semanas para renovação espiritual. Gandhi o fez em diversos momentos, às vezes por 40 dias, para promover o respeito e a compaixão. E, agora, era a minha vez de experimentar. Por um dia, ficaria sem comida e sem água. Só de pensar, minha barriga roncava.

 

Preparo

 

Decidi fazer isso em meu dia de folga, pois, dessa maneira, gastaria menos energia e poderia estar em silêncio, observando o que acontecia dentro de mim – corpo e mente. Na véspera, o maior preparo foi psicológico. Repetidas vezes, pensei: “Amanhã é dia de jejum, e eu não vou comer.”

Talvez, se eu não tivesse feito essa determinação prévia, cederia às tentações e teria colocado um copo d’água gelado nos lábios ou teria provado o biscoito que minha irmã fez o favor de comer na minha frente.

Conforme a orientação médica recebida, comecei a reduzir a quantidade de alimentos sólidos com dois dias de antecedência, bem como a de líquidos, para o organismo já se acostumar. Para o jejum só de sólidos, a recomendação é diminuir as comidas mais consistentes um dia antes.

 

Dia do jejum

 

Ao acordar no dia D, surpresa! Havia dormido 12 horas, algo raro. Acredito que meu corpo tenha decidido ajudar no processo de limpeza. Um recente estudo do Centro Médico da Universidade de Rochester, em Nova York, provou que o sono é um momento de faxina, quando células do cérebro encolhem, aumentando o espaço entre os tecidos. Isso permite o bombeamento de mais fluído e a limpeza das toxinas.

Ao acordar, bateu a vontade padrão de checar emails, Whatsapp, Facebook, Instagram e o que mais houvesse para tirar minha atenção do que eu havia me proposto:  observar os movimentos internos. Fui contra meu desejo de imersão virtual e abri um livro. E não é que adormeci de novo? Era o corpo, aproveitando esse dia realmente de folga, para me desligar do meu padrão de comportamento de estar sempre alerta.

Uma hora e meia depois, acordei e era hora de sair para um encontro familiar. Ao levantar, a pressão estava baixa. Normal. A faxina interna era pesada e é corriqueiro se sentir mal, com tontura, azia intensa, gastrite e variação de pressão – e um pouco de mau hálito. Foi só sentar para tudo ficar bem. O jejum não é recomendado para quem está muito abaixo do peso (excessivamente magro), aos diabéticos e para aqueles com distúrbios emocionais, mentais, metabólicos, endócrinos ou cardiovasculares.

No carro, a dor de cabeça se somou à impaciência em um sinal fechado e me transmitiu um primeiro alerta de fome. Percebi que aquele ronco na barriga veio a partir da ansiedade de andar logo com o carro, ou seja, da identificação com minha mente apressadinha. Durante o jejum, ficou mais fácil observar as flutuações dos meus pensamentos e o quanto somos absorvidos por eles sem perceber. Notei os padrões do dia a dia que, na aceleração rotineira, passam batidos e vão me levando a sofrimento e reações sem sentido.

Outra chave para não sentir fome foi praticar a presença. Isso significa estar inteiro na ação, sem se deixar levar pelos pensamentos do passado, do futuro ou da não aceitação do momento. Era um fato, eu não iria comer. Então, de que adiantaria pensar na última refeição ou na próxima? Cada vez que eu caía nessa armadilha, a fome gritava. Mas era só eu estar presente, fazendo apenas o que estava fazendo naquele momento, para o estômago ficar quietinho.

 

As religiões e o jejum

 

A conexão com o espiritual por meio do jejum é defendida por diversas religiões. No judaísmo, várias datas pedem a prática, sendo a mais importante a do Yom Kipur, ou Dia do Perdão, quando o ficar sem comer eleva espiritualmente os praticantes, os aproximando de Deus. Os essênios, comunidades judaicas estudiosas que viviam próximas do Egito, acreditavam que esses momentos eram importantes para purificar o corpo e aumentar a comunhão com o divino – alguns ficam em jejum por 40 dias.

A prática também é comum no hinduísmo. O objetivo é a união com Deus para a expiação antes do casamento e nas iniciações religiosas. E para receber uma benção ou um favor de Deus. Segundo a tradição muçulmana, o nono mês lunar do calendário islâmico deve ser dedicado para a reflexão acerca dos próprios atos. É nesse período, chamado Ramadan, que eles jejuam do nascer ao pôr do sol e se concentram na religiosidade e na purificação espiritual.

Alguns especialistas também defendem a prática como uma forma de limpar o corpo de toxinas ao permitir que o sistema digestivo reduza a intensidade de trabalho. Ao jejuarmos, o metabolismo secretor e excretor amplia a sua ação. E, assim, o organismo se torna mais eficiente, melhorando humor, sono e disposição.

Segundo o médico Paulo Sá, mestre em Saúde Pública e coordenador da Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio, para atingir esse resultado, o ideal é ficar sem comer alimentos sólidos uma vez por semana. Esse hábito, além de eficiente, não exige um grande sacrifício. Ficar sem líquidos e sólidos é recomendado uma vez por mês. Mas tudo isso vai variar da condição de saúde de cada um e, principalmente, do tipo de alimentação.

Para ele, o jejum é uma parte do processo de desintoxicação, mas os pensamentos e emoções é que são um dos maiores causadores da compulsão alimentar e de nossos hábitos e vícios. “A intoxicação provocada por uma visão de mundo estreita, por emoções inadequadas e mal resolvidas é muito maior do que a gerada pelos alimentos. Deveríamos jejuar das nossas emoções negativas também, assim como ampliar a consciência por meio de meditações e contemplação junto à natureza”, defende o médico.

 

A mente pode mentir

 

Eu estava percebendo isso tudo com muita clareza. Como somos condicionados a pensar compulsivamente! As palavras do guru espiritual brasileiro e líder humanitário Prem Baba ressoavam com muita verdade dentro de mim: “As pessoas não suportam a desocupação. Elas têm de se ocupar, e o que é feito para isso? É criado um problema! É isso que quero dizer sobre a mente ter passado dos limites: ela se tornou especialista em criar conflitos. E tem estado a serviço dessa entidade chamada sofrimento”.

Estava fácil perceber que eu mesma dou espaço para minha mente criar dramas e sofrimento. Como no momento em que quase voei no pescoço da minha irmã quando ela me perguntou se poderia comer um biscoito perto de mim.

A mente pulava de “Como assim, você acha que eu não sou forte o suficiente para ver você comendo essa bolacha insossa e seguir íntegra no meu propósito?” para, segundos depois, estar me fazendo de vítima com “É uma falta de respeito você saber que estou em um processo de limpeza e se alimentar bem aqui, diante dos meus olhos!”. Louca, inconstante, insegura.

Com o organismo mais lento, focado em levar energia para a limpeza interna, também minha mente e meu ego estavam recebendo um lava a jato com direito a sabão extra. Estava tão imersa na auto-observação que, para minha surpresa, não tive sede nem por um momento. A barriga seguia roncando, sempre quando eu me identificava com processos mentais – todos insanos.

Dormi tranquila e acordei feliz por poder comer uma manga madura e suculenta. Havia apagado de minha memória a recomendação médica de quebrar o jejum apenas com água morna e limão e ficar só no líquido por 24 horas para, só no segundo dia pós-jejum, ingerir finalmente sólidos.

Por pura conveniência e gula, voltei a comer normalmente e me lembrei do que Paulo Sá havia me falado somente à tarde, quando depois de frutas, pão, arroz de brócolis, cogumelos, cebola e – a cereja do bolo – alho, meu estômago reclamou. Duas xícaras de chá de boldo depois, eu estava bem melhor. Mas ficou o aprendizado: já não comeu por um dia inteiro, custa só beber por outro?

Da experiência, levo a vontade de fazer isso uma vez por mês. É mais simples do que eu imaginava. Semana que vem vou passar um dia só com líquidos. Vai que é fácil. Aí eu faço isso uma vez por semana e, além de desintoxicar meu organismo, vejo se deixo de ser maluca.

 

Carolina Bergier ama comer, mas depois dessa matéria volta e meia jejua para saber que consegue.


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