O que aprendi ao colher

  • TEXTO Nara Siqueira
  • FOTOGRAFIA Elaine Casap | Unsplash
  • DATA: 03/11/2021

Retirar o próprio alimento da terra é uma experiência que envolve, além da comida, ensinamentos sobre como nos relacionamos e um resgate das nossas raízes

Lembro o dia em que minha mãe chegou em casa, depois de uma atividade culinária com as crianças para as quais dá aula, contando como tinha sido preparar uma sopa de legumes com 20 alunos de cerca de 3 anos de idade. A princípio, o intuito era apresentar diferentes texturas, formas e sabores daquilo que comemos todos os dias. Até que um dos pequenos agarrou uma berinjela, arregalou os olhos e, surpreso, disse: “tia, ela não é roxa por dentro!”.

Confesso que, logo que ouvi a história, a espontaneidade do menino me pareceu fofa e engraçada. Mas, depois, o episódio me fez revisitar uma fala do Mark Hyman, um médico norte-americano que se dedica a estudar as relações entre alimentação, saúde e qualidade de vida. Certa vez, ele disse que estamos criando uma geração de pessoas que não sabem cozinhar e se alimentar sozinhas. Sequer sabem como são os alimentos em seu estado natural.

Por a mão na massa

Na ausência de alguém que prepare suas refeições todos os dias, elas recorrem à enorme variedade de pacotes dispostos nas prateleiras dos supermercados. Seguimos desembrulhando demais e descascando de menos. E, por consequência, produzindo uma quantidade de lixo nunca antes vista no planeta. Eu mesma não tenho muitas memórias de infância na cozinha.

Minha mãe adorava sentar no chão comigo e com meu irmão para brincar de faz de conta, narrar histórias e cantar músicas. Mas, definitivamente, ela nunca foi fã do fogão. Fazia o jantar rapidinho, sem muitas invenções e variações de cardápio, e só nos chamava para sentar à mesa quando a comida já estava pronta. Talvez por isso, poucas vezes coloquei a mão na massa quando pequena.

Fora da rotina

Foi com essa bagagem que embarquei para Viamão, cidade próxima à capital do Rio Grande do Sul, em maio passado. O motivo da viagem foi a Colheita dos Chefs – um evento que reúne jornalistas, chefs de cozinha, nutricionistas, agrônomos e empreendedores ligados à alimentação para viverem uma experiência completa do campo à mesa. Gosto de pensar que, se queremos que nossas crianças tenham alguma familiaridade com o que nasce na terra, precisamos, enquanto adultos, passar por uma reeducação, buscar esse resgate, esse contato com a comida.

Era uma segunda-feira chuvosa e gelada. Estávamos em um grupo grande e todos ansiosos pelo que viveríamos naquele encontro. Calçar as galochas não fazia parte da rotina da maioria de nós. Pensávamos que aprenderíamos técnicas relacionadas ao plantar e ao colher, mas estar no campo ensina muito mais que isso. Entre diversidade de espécies e variabilidades genéticas, a vivência se deu em torno das raízes, do tempo e das relações com o outro.

Honrando as gerações

Não é só sobre o início da vida daquilo de que nos nutrimos. Colocar os pés na lavoura nos leva às nossas origens. O Brasil é um país cuja atividade econômica majoritária é ligada à terra e, mesmo assim, esse lugar nos parece tão pouco familiar. Falar sobre agricultura é, mais do que entender a procedência dos alimentos que estão no prato, honrar o trabalho de todas essas pessoas.

Quando nos distanciamos da terra, perdemos um pedaço importante da nossa história. E, embora o solo seja tão rico e fértil, o acesso aos seus melhores produtos, aqueles sem aditivos e venenos, é reservado a poucos.

Logo depois de colhermos algumas hortaliças que fariam parte do jantar, Manu Buffara, chef de cozinha e criadora de um projeto que espalha hortas urbanas por Curitiba, levantou uma provocação: alimentação não é luxo. Ela é direito – e de todos. Quanto mais tomamos consciência das múltiplas questões que estão relacionadas ao comer, especialmente no que diz respeito à prevenção e ao tratamento de uma série de disfunções do corpo, mais buscamos por frutas e verduras orgânicas, bonitas, gostosas.

E, quando esses alimentos chegam ao prato, a preocupação se esvai. É como se disséssemos, “ufa, agora estou cuidando de mim”. Mas e os outros? Os esforços por bons ingredientes precisam ultrapassar as paredes da nossa casa e chegar àqueles  que ainda estão distantes desse direito tão básico.

Entregar ao desconhecido

colher cenouras

Quando nos distanciamos da terra, perdemos um pedaço importante da nossa história.                 Crédito: Markus Spiske | Pexels

Outro grande aprendizado foi sobre respeitar o tempo alheio. O evento estava sendo planejado há meses, o que permitiu que os agricultores fizessem o plantio das sementes pensando nos dias necessários para que elas germinassem a tempo da colheita. Mas sempre há fatores externos, como o excesso de sol e de chuvas, que mudam os planos. Foi o que aconteceu.

Não pudemos experimentar tudo o que havia sido plantado. Algumas coisas estavam maduras demais, outras não tinham chegado ao ponto. E tudo bem, porque a vida vegetal acontece em ciclos. Também não é assim com a nossa? Não é natural que todas as frutas e hortaliças estejam disponíveis todos os dias do ano nas bancas das feiras ou nas prateleiras dos varejões.

Quando isso acontece, é porque algum agente artificial foi adicionado ao processo para satisfazer a nossa vontade de ter domínio sobre tudo. Não temos tempo para esperar as fases do outro, da natureza. Pelo contrário, queremos ditar o ritmo dela.

Campo: lugar de conexões

Entregar-se ao desconhecido é um desafio. Pela primeira vez em uma cidade, na ausência de qualquer conhecido, seria mentira se dissesse que não senti algum receio. Mas ele logo foi substituído pelo presente do encontro. O campo é esse lugar que, assim como a mesa, permite criar conexões ao redor daquilo que nutre não só a carne. Enquanto pegávamos os tomates do pé e íamos provando a suculência dos diferentes tipos que lá estavam plantados (e eram muitos!), conversávamos sobre os caminhos de cada uma e o que nos tinha levado até aquele momento.

Neide Rigo, nutricionista e conhecedora dos ingredientes brasileiros como ninguém, e Ágata Britto, dona de um sotaque inesquecível e ativista da gastronomia como ferramenta de transformação social, foram minhas companheiras nessa colheita. Mulheres de diferentes idades, de lugares distintos, mas unidas por uma mesma causa: conscientizar, somar, mudar pela comida. Honrando os que nos permitiram chegar até aqui, respeitando as etapas, buscando forças no coletivo.


NARA SIQUEIRA teve, no campo, uma aula sobre a vida.  


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